Opinião de Ricardo Rodrigues, especialista em Comunicação e CEO da pressmedia
A análise da presidência de Donald Trump continua, em grande medida, prisioneira da superfície política, da polémica permanente ou do julgamento moral, quando o seu impacto mais profundo deve ser lido num outro plano, o da comunicação como instrumento direto de exercício de poder, não mediado, não explicado e, muitas vezes, deliberadamente desestabilizador.
Os acontecimentos recentes tornam esse padrão particularmente evidente, nomeadamente na forma como decisões de elevada sensibilidade geopolítica, como o endurecimento da posição face ao Irão ou a abordagem à Venezuela, são comunicadas através de uma lógica que escapa aos modelos tradicionais de previsibilidade e coerência, substituindo-os por uma combinação calculada de ambiguidade, tensão e exposição máxima que obriga aliados, mercados e opinião pública a interpretar sinais em vez de compreender estratégias.
Neste contexto, importa perceber que não estamos perante um desvio circunstancial, mas sim perante um método consistente, onde a comunicação deixa de servir para esclarecer decisões e passa a ser utilizada para moldar o contexto em que essas decisões são percecionadas como inevitáveis, deslocando a comunicação política do seu papel clássico de mediação para um espaço de imposição.
Esta transformação altera profundamente a sequência tradicional de funcionamento do espaço público, onde antes existia uma lógica de decisão seguida de explicação e posteriormente de escrutínio, e onde agora se observa um ciclo distinto assente na declaração, na reação e na amplificação, num ambiente em que a coerência deixa de ser um valor central e é substituída pela capacidade de dominar o ciclo mediático.
Cada afirmação disruptiva gera cobertura, cada contradição alimenta debate e cada excesso reforça presença, sendo essa presença, num ecossistema saturado, convertida diretamente em poder, criando um paradoxo em que os media, ao mesmo tempo que criticam, se tornam dependentes da agenda que procuram escrutinar.
A disrupção mais relevante não reside apenas nesta relação com os media, mas sobretudo na redefinição do conceito de credibilidade, que deixa de estar ancorado na precisão factual e passa a assentar numa forma de autenticidade percebida, construída através da frontalidade, da intensidade e da capacidade de estabelecer uma ligação direta com o público sem necessidade de validação institucional.
Neste novo enquadramento, a verdade deixa de ser um ponto de partida estável e transforma-se num campo de disputa, onde a atenção se torna o principal ativo e onde a eficácia comunicacional passa a depender menos da exatidão e mais da capacidade de gerar impacto e permanência no espaço público.
O efeito deste modelo ultrapassa largamente a política norte-americana e começa a infiltrar-se em múltiplos níveis da sociedade, influenciando líderes empresariais, figuras públicas e marcas que percebem que a notoriedade já não se constrói apenas pela consistência, mas também pela capacidade de gerar tensão, polarização e reação.
O problema é que esta lógica tem um custo estrutural significativo, pois ao substituir a clareza pela intensidade e a coerência pela disrupção, o espaço público torna-se mais reativo, mais fragmentado e mais vulnerável à manipulação, transformando a comunicação num mecanismo de pressão contínua sobre a perceção em vez de um instrumento de construção de entendimento.
Neste contexto, a questão deixa de ser apenas política e assume uma dimensão mais ampla, pois ao normalizar o caos como linguagem de poder, abre-se espaço a uma nova forma de liderança em que a previsibilidade é interpretada como fraqueza e a instabilidade, quando bem gerida, pode ser percecionada como força.
Trump percebeu isto antes de muitos, ao reconhecer que num mundo saturado de informação a diferenciação não reside em comunicar melhor, mas sim em comunicar de forma impossível de ignorar, criando um modelo que, sendo eficaz no curto prazo, levanta interrogações profundas sobre o futuro do espaço público.
A questão que permanece não é se este modelo funciona, porque isso já foi demonstrado, mas sim se as sociedades, os media e as instituições estão preparados para viver num sistema em que a comunicação deixou de explicar o poder para passar a ser, ela própria, uma das suas formas mais determinantes de exercício.














