Opinião de Marco Gouveia, CEO da Escola de Marketing Digital e autor do livro “Marketing Digital – O Guia Completo”
Há um debate urgente que precisamos de fazer no nosso setor e que, infelizmente, a maioria prefere ignorar em público, embora seja o tema principal nos bastidores das agências e nos grupos de networking: a credibilidade do marketing digital em Portugal está sob ataque. E o inimigo não é (só) a inteligência artificial e as mudanças dos algoritmos. O inimigo é a proliferação de “vendedores de banha da cobra” e a promessa irresponsável de dinheiro fácil.
Como profissional e formador que anda no terreno há mais de duas décadas, tenho assistido a um cenário preocupante de norte a sul do país. Por um lado, temos empresas e decisores completamente escaldados. Histórias de negócios que investiram dezenas de milhares de euros em “estratégias infalíveis” que só trouxeram problemas, zero retorno. No fim, quando as coisas correm mal, o “expert” desaparece.
Por outro lado, temos profissionais sérios, freelancers dedicados e jovens recém-licenciados frustrados. Pessoas que estudam, testam e trabalham arduamente todos os dias, mas que vêem a sua profissão descredibilizada porque o mercado foi inundado pela narrativa de que “ganhar 10K num dia no digital é bué fácil” se comprares o curso da pessoa que o está a dizer.
A febre dos esquemas de enriquecimento rápido, dos gurus de palco com milhares de seguidores (provavelmente comprados!) e das imitações baratas de fórmulas estrangeiras está a destruir a relação de confiança entre as marcas e os profissionais de marketing. “Só cai nesta armadilha quem quer”, dirão alguns… Só que quem está desesperado por ajuda e não domina a linguagem técnica torna-se um alvo fácil.
O marketing não se faz em palcos, faz-se nos bastidores. As pessoas andam demasiado ocupadas a olhar para o número de seguidores, para a estética dos feeds e para a capacidade de oratória de quem se autointitula “guru”. Mas a verdade é que as empresas não pagam salários nem faturam com “likes” ou com citações bonitas de livros de autoajuda. Isso não é marketing. Marketing é gerir a imagem de uma marca no longo prazo, é gerir equipas, analisar dados, testar criativos, otimizar orçamentos e, acima de tudo, rentabilizar o investimento de quem confiou no nosso trabalho. Não podemos aceitar que pessoas que nem duzentos mil euros faturam por ano andem a vender estratégias de consultoria milagrosas a gestores que gerem negócios de dezenas de milhões.
Se queremos que o mercado respeite a nossa área, temos de começar por exigir mais de nós mesmos e dos nossos colegas. Primeiro de tudo, a honestidade tem de valer mais do que a venda. Se não tens experiência a gerir grandes orçamentos ou negócios complexos, assume-o. Não tentes vender o que não sabes executar. A honestidade na proposta de valor gera clientes para a vida; a promessa vazia gera queixas em tribunal.
Em segundo lugar, o verdadeiro valor de um profissional de marketing digital vê-se no dia a dia, na capacidade de resolução de problemas quando as campanhas falham e na consistência dos resultados a longo prazo. O medidor de sucesso são as vendas e o crescimento dos clientes, não são os seguidores nas redes sociais ou o número de palestras dadas.
Em terceiro lugar, é preciso deixar claro que o digital não é um atalho para a riqueza sem esforço. É uma área técnica, que exige atualização constante, resiliência e foco estratégico. Quem vende facilidades está a vender o seu próprio produto, não a resolver o problema do cliente.
Aos diretores de marketing e decisores de empresas, deixo uma recomendação de salvaguarda. Na próxima vez que estiverem em reuniões para contratar um consultor ou agência, esqueçam o número de seguidores deles e façam três perguntas muito pragmáticas:
- “Quais são as tuas referências de clientes reais e projetos semelhantes ao meu?”
- “Quem é que vai acompanhar a minha conta no dia a dia?”
- “Podes mostrar-me casos práticos documentados de retorno financeiro que trouxeste para esses negócios?”
O marketing digital é uma ferramenta extraordinária para transformar negócios e carreiras, mas só quando é gerido com ética, honestidade e entrega de valor real, sem atalhos nem ilusões. É este o marketing em que acredito e é por este padrão que todos nos devíamos bater.












