Os três MUSKeteiros

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Os três MUSKeteiros

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Opinião de Marlene Gaspar, diretora geral da LLYC

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Há uma convenção curiosa sobre agosto. A silly season dá-nos licença para conversar sobre temas que, no resto do ano, talvez despachássemos com um encolher de ombros. Vou aproveitar essa licença. Não para escrever um artigo leve, mas para fazer uma reflexão que talvez só agosto permita.

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Confesso que ainda não tenho uma opinião completamente formada sobre a recente entrevista de Elon Musk ao The Economist. Nem sei se quero ter. Vivemos obcecados por opiniões imediatas. Eu começo a achar exatamente o contrário. Algumas ideias merecem tempo. Outras nem sequer exigem uma opinião. Esta é uma delas.

A entrevista fez correr muita tinta. Falou de Inteligência Artificial, robôs humanoides, uma economia da abundância, um mundo onde trabalhar poderá deixar de ser uma necessidade e onde, segundo Musk, o dinheiro deixará de ter a importância que hoje lhe atribuímos.Não sei se tem razão. Na verdade, nem foi isso que considerei mais interessante.

Interessa-me muito mais perceber que perguntas devemos começar a fazer, caso venha a ter. Porque há conversas que não servem para responder. Servem para pensar melhor. E esta ficou comigo.

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Foi então que me ocorreu uma analogia improvável. Se D’Artagnan tinha Athos, Porthos e Aramis, Musk parece apresentar-nos três MUSKeteiros. Três ideias que, concordemos ou não com elas, funcionam como um manifesto para uma nova forma de olhar para o futuro. Não para o prever. Mas para estarmos preparados se ele chegar.

Afinal, antecipar nunca foi adivinhar. É desenvolver a capacidade de agir antes de a realidade nos obrigar a fazê-lo. E “antecipa-te” continua a ser o meu nome do meio.

Athos: quando a inteligência deixa de ser rara

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Durante séculos construímos empresas, carreiras e economias assentes na escassez. Escassez de conhecimento, escassez de talento,  escassez de capacidade de análise, escassez de tempo.

Musk acredita que estamos prestes a entrar numa era em que a Inteligência Artificial será mais abundante do que toda a inteligência humana somada. A ideia parece exagerada. Mas também parecia exagerado imaginar, há apenas dez anos, uma máquina a escrever código, criar campanhas ou responder a clientes em segundos. Talvez o erro nunca tenha sido imaginar demasiado. Talvez tenha sido imaginar demasiado devagar.

A verdadeira pergunta não é se Musk acertará em 2032, 2036 ou 2040. É outra. O que acontece às organizações quando a inteligência deixa de ser o recurso mais escasso? Porque quando uma competência deixa de ser rara, deixa também de ser diferenciadora. Curiosamente, quanto mais abundante se torna a inteligência, mais valioso passa a ser o discernimento.

Porthos: quando trabalhar deixa de ser obrigatório

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Confesso que sorri quando ouvi esta ideia. Depois de anos a discutirmos o aumento da idade da reforma, surge alguém a defender precisamente o contrário: um mundo onde trabalhar poderá deixar de ser uma necessidade económica. A ironia não me escapou.Ouvi esta previsão precisamente no mês em que chega a nota de liquidação do IRS. Ainda não consegui atingir esse nível de desprendimento filosófico. Talvez seja falta de visão ou talvez a Autoridade Tributária continue demasiado presa a 2026. Ainda assim, Elon, se tiveres razão, prometo olhar para o próximo IRS com muito mais serenidade e espero sinceramente que acertes nesta previsão.

Mas a provocação interessante não está nos impostos. Está na pergunta: Se trabalhar deixar de ser obrigatório, porque continuaremos a trabalhar? Pelo dinheiro? Pela carreira? Pelo estatuto? Ou porque o trabalho continuará a ser uma das formas mais profundas de construir significado, identidade e impacto? Talvez a verdadeira transformação não seja económica e seja profundamente humana.

Aramis: quando a vantagem competitiva volta a ser humana

É aqui que me afasto de Musk. Não porque ache que a tecnologia vai evoluir mais devagar. Pelo contrário. Acredito que evoluirá ainda mais depressa do que conseguimos imaginar. Mas continuo a achar que ele olha para o futuro sobretudo através da lente da eficiência. Eu continuo a insistir em olhar através da lente do significado. A Revolução Industrial substituiu grande parte da força física. A Inteligência Artificial substituirá uma parte significativa da força intelectual. Talvez a próxima vantagem competitiva seja precisamente aquilo que nunca soubemos medir. A profundidade humana, a capacidade de fazer perguntas que ainda ninguém formulou, de ligar ideias improváveis, de construir confiança, de exercer discernimento, de assumir responsabilidade quando nenhuma resposta vem acompanhada de garantias. Se a inteligência passar a ser abundante, aquilo que continuará raro não será saber mais. Será saber interpretar,  saber decidir, saber atribuir significado. Durante anos preparámos pessoas para serem excelentes executoras. Agora estamos surpreendidos porque as máquinas executam melhor. Talvez o erro nunca tenha sido tecnológico, mas educativo. Talvez tenhamos confundido competência com repetição. E criatividade com produção.

Nos últimos dias ouvi uma ideia que não me sai da cabeça: o verdadeiro valor deixará de estar nas horas que trabalhamos e passará para a magia que conseguimos criar. Estratégia, criatividade, intuição, narrativa, confiança, a capacidade de ligar pontos que ainda ninguém ligou. Talvez seja exatamente aí que continue a nossa vantagem.

Houve ainda uma expressão que me ficou da entrevista e vou roubar. Perguntaram-lhe por um concorrente e respondeu apenas que não lhe ativava o “evil detector.” Gostei da ideia da expressão, não só para os concorrentes, porque admirá-los  nunca me pareceu incompatível com querer vencê-los, mas fazer esse exercício com as pessoas e perceber se esse detector permanece estranhamente silencioso.

Na biografia de Elon Musk, Ashlee Vance conta que, no final de um jantar, Musk lhe fez uma pergunta inesperada: “Pareço-lhe louco?” Como este é um artigo de opinião, atrevo-me a responder. Talvez. Mas a história também nos ensina que muitas ideias transformadoras começaram precisamente por parecer loucura.

Não escrevi este artigo para concluir que Musk tem razão. Nem que está errado. Se esta conversa me obrigou a fazer melhores perguntas, já valeu a pena. Talvez a maior competência da próxima década não seja aprender a utilizar Inteligência Artificial. Seja desenvolver aquilo que nenhuma tecnologia conseguirá substituir: critério, coragem, discernimento, confiança e humanidade.

Porque, se o século XX premiou quem tinha mais força física e o século XXI quem dominava melhor a informação, talvez a próxima década pertença a quem conseguir continuar profundamente humano.






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