As grandes tendências globais

Para onde é que o sector segurador deve evoluir? O que deve fazer para ocupar outro espaço na economia? A  telemática, a “portabilidade”, os seguros diários, os novos canais de distribuição, os employee benefits, o “assurance score” e o digital podem ser o futuro (próximo ou longínquo) de um sector quase milenar.

Texto por TitiAna Amorim Barroso

Fotos por Pedro Simões

Já nos apercebemos que o sector está em evolução. Mas para onde é que caminha? Devemos seguir as tendências internacionais? O que quer o cliente? O que pode o sector proporcionar para além dos seguros? Sabemos que este é um sector que presta um serviço de assistência, nomeadamente à família, ao carro, à casa. Hoje já ocupa um espaço privilegiado na saúde e na reforma, mas outras áreas se seguem.

Uma conversa, no Hotel Dom Pedro Palace, sobre a actualidade e alguns dos possíveis caminhos a seguir pelas companhias seguradoras. Estiveram presentes no pequeno- -almoço: Andreia Sepúlveda (Eurovida e Popular Seguros), Inês Simões (AXA Portugal), José Villa de Freitas (Fidelidade), Manuel Leiria (Açoreana), Rodrigo Esteves (Liberty Seguros) e Susana Fava (CA Vida).

Actualidade

«A primeira área de intervenção dos seguros é onde o Estado está a recuar, onde as pessoas estão habituadas a ter uma série de apoios, que estão a perder, aí naturalmente a iniciativa privada tem de tomar o espaço. Portanto, na continuação da vida activa, ou seja, no pós-vida activa, e na área saúde. Áreas com que a Fidelidade também se preocupa, seja através da reforma, em termos de PPR, de seguros de capitalização, de gestão da expectativa das pessoas, ou com serviços de assistência. O foco das seguradoras é o cliente, satisfazer uma necessidade que até agora o era através do Estado, por isso entram outros players. As seguradoras estão na linha da frente para serem os players a tomarem esse espaço. As seguradoras são mais do que seguradoras, cada vez mais nos consideramos mais do que seguradoras, há por isso serviços associados e temos vantagem competitiva nesta matéria», vaticinam os intervenientes no pequeno-almoço.

«Há um outro tema, que tem sido muito falado, o seguro de colaboradores, ou seja, os apoios que as empresas prestam ao seu universo interno e este é um campo enorme da actividade seguradora. Isto são os employee benefits, que, se forem proporcionados pela empresa, são muito valorizados pelas pessoas. As empresas disponibilizam packs para os colaboradores, seja com apoios nas creches, iniciativas ligadas à qualidade de vida, bem-estar, seguros de saúde, às vezes estendidos ao agregado, seguros de vida, este campo é muito grande e pode ser bom explorar. Devemos aproximarmo-nos mais da vertente corporate, para aumentar este tipo de intervenção, este pode ser um dos caminhos… Acho que também no tema da poupança podemos ter um papel muito activo, para além dos produtos, numa lógica de educação financeira, até junto dos mais jovens – a APS chegou a ter algumas iniciativas interessantes. Mas as seguradoras devem ter um papel, devemos fazer mais pelas pessoas, sempre na lógica daquilo que as pessoas valorizam», partilham.

«Na verdade isso acaba por entroncar no mesmo sítio, quais são os seguros principais que os colaboradores querem ter? Claramente saúde e complemento reforma, seja por via da própria empresa. A questão é como é que se obriga as pessoas a poupar para a reforma? Não sei se têm noção dos números, mas são absolutamente impressionantes. Hoje, por comparação à altura do 25 de Abril, há um número impressionante, pela negativa, de pessoas activas que existem para cada reformado, neste momento está um para 1,5. Mas isto depende de como considerarmos os números do desemprego », acrescentam.

«O projecto WeCare retrata o acompanhamento dos sinistrados para além daquilo que é o esperado. É uma componente de repor as pessoas na vida activa dentro daquilo que é possível. Um “conscious business”, não no sentido de sustentabilidade, mas associado aos serviços e seguros que estamos a prestar. Como nos designamos é cada vez mais o foco nas pessoas, onde precisam mais de apoio é aonde estão a sentir que lhes está a fugir o tapete: reforma e saúde, as áreas mais fáceis porque são as mais necessárias.»

«A vida das pessoas muda. Uma das grandes preocupações é a assistência domiciliária pós-vida activa. Ou seja, ter boas condições nessa fase da vida requer uma adaptação da casa e preocupações de mobilidade. Há aqui um conjunto de coisas que a nossa actividade, tendo o conhecimento, sabe exactamente em que situação está a pessoa. E na maioria das vezes já presta assistência, como nos casos dos pensionistas de acidentes de trabalho. Temos massa crítica, informação e dados, que nos permitem ter um conjunto de iniciativas e “produtizar” alguns tipos de assistência muito específicos, que têm a ver com a mobilidade. É uma preocupação nossa quando é que as pessoas devem deixar de guiar, proporcionar alternativas de mobilidade. As famílias alteraram- se, os mais novos vão para o litoral ou para os centros urbanos ou estrangeiro e os idosos ficam sozinhos, não podem guiar mais, e acabamos por proporcionar aos familiares uma vida activa e profissional normal, e ao mesmo tempo garantir apoio, assistência e acompanhamento das pessoas que ao fim e ao cabo estão a seu cargo. Este é um espaço que a nossa actividade deve trabalhar, é uma área relevante e uma necessidade», asseguram.

Tendências

«Há uma série de experiências e tendências que já acontecem um pouco por todo o mundo e que podiam ser discutidas até que ponto fazem sentido serem implementadas no nosso País. Vi há pouco tempo um representante da Tokio Marine Seguradora partilhar que uma parte significativa dos seus seguros não é anual, toda a sua oferta está configurada para dias ou semanas.

Outro caso emblemático é a telemática. Em Portugal nunca teve sucesso, mas em Itália já 10% de todos os seguros automóveis novos são feitos com esta funcionalidade, agora até já existem aplicações de telemóveis, em vez dos aparelhos que se colocavam no carro, e isto tem um efeito extraordinário em termos de sinistralidade. Os novos canais de distribuição são outra tendência que está a aparecer um pouco por todo o mundo. Falamos das operadoras móveis que têm sido um sucesso nos seguros de viagens. Assim que o cliente aterra num determinado país, o operador móvel vê que ele se deslocou e faz-lhe a oferta do seguro de viagem.

Outra das temáticas interessantes é o digital, as seguradoras estão interessadas e todas querem entrar em força na área, mas não sabem bem como e por isso querem ouvir experiências. Ao contrário do que se passa nos meios de comunicação social, onde era um tema consistente há relativamente pouco tempo, agora está completamente fora de moda. As seguradoras já chegaram à conclusão que não conseguem vender no Facebook », sublinham.

«Qual é a empresa que consegue? Acho que isso não é só das seguradoras», lembra um dos intervenientes. «Acho que as pessoas vão à internet procurar informação, nomeadamente de preços.» «É mesmo uma questão cultural e de que os compradores querem ter alguém com quem falar, como no caso do mediador que se levanta às 2h da manhã, se for preciso, para ligar à assistência e resolver o problema.»

«O responsável da área financeira do Facebook foi a uma conferência em Paris dizer às seguradoras para não desistirem do Facebook, uma vez que este proporciona um sonho antigo dos marketeers, que mais ninguém consegue dar. Ou seja, é através desta rede social que conseguimos ter conhecimento dos marcos importantes na vida de um consumidor: quando se casa, quando tem um filho, quando se está a divorciar, quando muda de emprego. Mais ninguém consegue dar isto, só o Facebook nos permite actuar quando surge a necessidade de determinado produto para aquela fase da vida», conta.

«Há um outro tema que também é importante que é o facto de termos mais mobilidade, da emigração e a volatilidade terem aumentado, até o facto das camadas mais jovens não ficarem tanto tempo no mesmo emprego, fez- -me pensar numa coisa que não foi aqui falada: a “portabilidade” dos seguros. Qualquer pessoa pode estar amanhã a trabalhar em França e ter de construir tudo do zero. Devem existir parcerias a nível internacional, que consigam manter ou facilmente activar um seguro para o país onde me desloco sem ter que construir tudo do zero. Chamo a isto a “portabilidade”, mas deve haver outros termos melhores, isto bem explorado facilitaria a vida das pessoas», sustentam os intervenientes.

«Mas devem existir questões legais complicadas… » «Ter um seguro automóvel aqui e depois ir para o Gana não me parece que a realidade seja a mesma.» «Mas dentro de alguns países da Europa não me parece assim tão diferente », adiantam.

«À semelhança do crédito score, podia existir o “assurance score”, algo que caracterize o nosso risco. A ideia é atribuir a cada pessoa uma pontuação, que é levada daqui para qualquer ponto do mundo, apresentando o seu comportamento de risco, a forma como guia, o estado de saúde. Portanto, tudo aquilo que caracteriza a pessoa, fazendo com que as seguradoras possam vender os produtos adequados a cada pessoa», observam.

«Ter um “chip” de seguros levanta questões de protecção de dados.»

«No outro dia, vi uma apresentação de um trabalho feito no MIT sobre uma aplicação que permite ver o risco de guiar, consegue definir inclusive se a aplicação está a ser usada pelo condutor ou pelo passageiro – isto tem a ver com a estatística de tempo que se pega no telefone. A aplicação mede o número de travagens, a estabilidade numa curva, a quantidade de informação que isto gere é extraordinária. Há países que têm a telemática bem desenvolvida», contam.

«Em Inglaterra estão os pioneiros, mas em Itália existe um conjunto de empresas que desenvolve alguns aparelhos e está muito avançado. Existem aplicações muito interessantes, quer para seguros de habitação, quer para saúde. Há muita coisa a acontecer, desde aplicações que medem a tensão arterial, é também possível fazer um check-up com alguma credibilidade.»

«A nossa casa-mãe em Boston desenvolveu um fato que simula como se tivéssemos mais de 70 anos, criando problemas de mobilidade e de agilidade. Restringe e inibe movimentos mais rápidos, tem pesos em alguns sítios e as luvas têm quatro quilos, cada dedo pesa. Restringe 30% da nossa movimentação, 40% da nossa rotação normal. O facto de nos sentarmos no carro, pormo-nos em posição para colocar o cinto de segurança e acertar os espelhos é razão suficiente para pensarmos que não nos conseguimos mexer e ainda nem começámos a conduzir. Uma pessoa fica muito limitada, os braços não se mexem, uma manobra de marcha atrás demora muito tempo… O que se pode concluir? Podemos estudar os efeitos do envelhecimento na prática da condução e os impactos que isso poderá ter na segurança rodoviária. Isto é o futuro… não sabemos se um futuro próximo ou longínquo. Qual o prazo de chegada do futuro?», conclui.

Artigo publicado na edição n.º 223 de Fevereiro de 2015.

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