A geração d’Orpheu está viva

NotíciasRevista
Daniel Almeida
27/08/2025
13:25
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A geração d’Orpheu está viva

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Em 1915, Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro e Almada Negreiros, entre outros artistas, lançaram a revista literária “Orpheu”. Apesar de ter tido apenas duas edições, a publicação e o seu núcleo de fundadores (conhecido como a “geração d’Orpheu”) haveriam de ficar ligados à introdução do modernismo na arte e cultura portuguesas, deixando um lastro que perdurou no tempo.

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Mais de um século volvido, há um estúdio criativo que recupera não apenas o nome deste movimento, como o seu espírito vanguardista e provocador.

A Orpheu (a agência) nasceu em setembro de 2023 pelas mãos dos criativos Pedro Vilas-Boas e João Mestre, que contam com passagens por multinacionais como a BBDO ou a AKQA. «O próprio nome é um tributo à geração d’Orpheu, há mais de um século. Achamos que há um paralelo interessante entre o período em que estamos e o que se viveu na altura, com o futurismo e outros movimentos vanguardistas. Sentimos que, com a introdução da IA, estamos num novo momento de transformação da sociedade», afirma Pedro Vilas-Boas.

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Posicionando-se como um estúdio criativo e de design que foge aos padrões tradicionais, a Orpheu assume-se como um “movimento hiperfuturista”, que nasce da intersecção entre criatividade e tecnologia, trazendo uma abordagem “radical, visualmente arrojada e intelectualmente inquieta” ao design e à criatividade.

Nesse sentido, a agência abraça a inteligência artificial ao longo do processo criativo, encarando-a como uma ferramenta que amplifica a criatividade e tem um forte impacto cultural. «Sabemos que há muita crítica e até uma certa rejeição em relação à IA. Nós assumimos e não temos medo de o fazer. Em alguns dos projetos, já utilizamos bastante, embora tentemos ao máximo ser originais e usar as nossas próprias referências», explica Pedro Vilas-Boas.

O facto de a agência ser nova no mercado permite-lhe afastar-se de algumas fórmulas antigas que, na opinião dos cofundadores, nem sempre se coadunam com a necessidade de criar narrativas modernas e significativas, baseadas na co-criação. «Já trabalhámos em diferentes estruturas e conseguimos perceber onde é que o processo criativo começa a ser impedido de uma maneira ou outra. O que fazemos é focar-nos exclusivamente no processo criativo, no projeto e no output, tentando retirar do caminho toda a “gordura”. E fazemo-lo tendo uma visão de integração de ferramentas de IA, não necessariamente no output, mas na parte do processo», acrescenta João Mestre.

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«Há algo que é difícil a IA replicar, que é o ponto de vista que temos sobre os projetos. Então utilizamos sobretudo como uma ferramenta de aceleração e de teste para podermos tomar decisões rapidamente», reforça.

Apesar de ter sido fundada há dois anos, a Orpheu, que tem sede em Lisboa, já tem representação além-fronteiras, em Paris (França), Lugano (Suíça) e Portland (EUA). Esta estratégia tem-lhe permitido escalar o negócio e angariar clientes internacionais de renome, como a NBA, Adidas, Swatch, Nomaka, Beatport ou Moose Knuckles.

De Portugal à NBA

Foi em Portugal que os caminhos de Pedro Vilas-Boas e João Mestre, ambos com background na área do design, se cruzaram pela primeira vez, há mais de 10 anos. Pedro estava na BBDO, como diretor criativo, quando o grupo lançou a agência de marketing digital Proximity. «Na altura entrevistei o João, que acabou por não ficar, mas gostei do seu portefólio e maneira de pensar e sugeri-o para integrar a equipa da AKQA em Amesterdão, onde estava um amigo meu», recorda Pedro Vilas-Boas.

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Pouco depois, também ele se haveria de juntar à equipa da AKQA, mas no escritório de Londres, onde permaneceria cerca de 10 anos.

Mais tarde, trabalharam pela primeira vez a quatro mãos, num projeto para a plataforma online norte-americana especializada em música eletrónica Beatport. A partir daí, nasceu a amizade que haveria de redundar rapidamente numa sociedade, dando origem à Orpheu.

Aos dois sócios fundadores, juntar-se-ia Bruno Muszynski como managing partner e responsável de Business Development. «Um dos aspetos que nos moveu para criar este projeto foi o ato de, agora, termos as ferramentas que nos permitem chegar a lugares onde não tínhamos chegado antes. Para ser sincero, a nível pessoal estava um bocado “cansado” da publicidade e do design, até que depois apareceu a inteligência artificial. Foi uma lufada de ar fresco. Conseguir começar a desenhar coisas que não eram possíveis até então e fazer sete direções de arte num dia, em vez de demorar duas semanas… Acredito que a IA acelera bastante o processo criativo, o que conseguimos entregar, a nossa relação com os clientes», frisa Pedro Vilas-Boas.

Atualmente, a Orpheu conta com uma equipa de oito pessoas e presta um leque de serviços alargado que vai do design gráfico à direção criativa, passando pela estratégia e identidade de marca, direção de arte, filme, fotografia ou UX/UI design. «Diria que trabalhamos estratégia e sistema de marca, que está no coração de tudo. E depois trabalhamos tudo o resto, seja um projeto digital, uma campanha, produção fotográfica ou filme», explica João Mestre.

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Entre os principais projetos, está o trabalho desenvolvido para a NBA no âmbito da edição do ano passado do All-Star Weekend, que reuniu os melhores basquetebolistas da liga norte-americana. O evento decorreu num court LED, que integrou diversas funcionalidades visuais e interativas em tempo real, como repetições ou estatísticas dos jogadores. A Orpheu foi responsável por desenvolver toda a parte gráfica e as animações que surgiram no court.

«Foi o primeiro grande projeto, porque não queríamos depender do nosso portefólio pré-Orpheu para conseguir angariar novos clientes ou para provar o nosso trabalho. E, na altura, estávamos muito dependentes do portefólio da AKQA e de outras coisas que tínhamos feito enquanto freelancers. A NBA trouxe-nos o primeiro grande projeto com visibilidade e permitiu-nos apresentar o nosso trabalho a outros clientes. Pôs-nos o selo de agência que consegue trabalhar com marcas grandes», refere Pedro Vilas-Boas.

Na memória dos cofundadores da Orpheu destaca-se ainda o projeto que envolveu o desenvolvimento de toda a estratégia de marca, brand design e lookbook da recém-criada marca suíça de outwear de luxo Nomaka. Como o objetivo do cliente passava por apresentar a sua primeira coleção – que estava a ser desenvolvida em simultâneo – na Paris Fashion Week, no início deste ano, todo o processo teve de ser concluído em oito semanas, o que apenas foi possível com recurso a IA.

«O que realmente fez diferença foi termos decidido que, para a construção do lookbook, e porque não havia nem tempo, nem recursos, nem produto disponível, iríamos utilizar IA. Recebemos os desenhos técnicos dos produtos, fizemos alguns renders com a utilização de software, criámos um modelo e fotografámos em ambientes completamente virtuais, com um produto 80% fidedigno ao que seria o produto final», recorda João Mestre.

Entre outros projetos, sobretudo nas áreas da moda, desporto e música, a Orpheu foi responsável por reformular a plataforma global de e-commerce da Swatch; pelo desenvolvimento de uma campanha inspirada no universo da ficção científica para a marca canadiana de moda de luxo Moose Knuckles; pela nova identidade da norte-americana Beatport; pela identidade visual dos Enhanced Games, uma nova competição que explora os avanços científicos na performance dos atletas, que terá lugar em 2026; ou pelo rebranding do estúdio português de arquitetura OTO.

A “terceira” edição da Orpheu

Até ao momento, a grande maioria dos projetos com assinatura da Orpheu foram realizados para clientes fora de Portugal, o que resulta do plano de internacionalização que a agência implementou desde cedo. Hoje, Pedro Vilas-Boas está baseado na Suíça, Bruno Muszynski representa a empresa em França e contam ainda com um outro representante nos EUA.

«Neste momento, a prioridade é consolidar o que temos, até porque há muitos projetos que desenvolvemos em mercados onde não estamos presentes nem temos representante. A nossa ideia é que a Orpheu possa ser altamente sustentável nos próximos anos», adianta Pedro Vilas-Boas.

Ainda assim, não esconde a ambição de crescer e ganhar maior visibilidade no mercado nacional.

Nos planos para o futuro está ainda a possibilidade de lançar uma reedição da revista “Orpheu”, em jeito de homenagem, mas adaptada aos tempos e temas contemporâneos. «Convidámos outros criativos para fazer uma edição que pudesse ter algum impacto cultural em termos de ideias e conteúdos. Tem sido um projeto ongoing, ainda não sentimos que esteja bom o suficiente para poder ser publicado, mas é algo que está na nossa visão e pipeline para o futuro», revela o cofundador.






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