“O desporto é um mundo maior do que qualquer player”: a visão da LiveModeTV para Portugal após as críticas das televisões

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Rafael Ascensão
21/05/2026
10:00
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Num mercado em ebulição, marcado por disputas pelos direitos televisivos do Campeonato Mundial de Futebol de 2026, acusações de falta de regulação e críticas abertas ao que líderes do setor descrevem como um “faroeste” concorrencial, a chegada da LiveModeTV a Portugal promete acrescentar ainda mais pressão, mas também uma nova lógica de consumo.

A plataforma, que assegurou a transmissão gratuita de 34 jogos do Mundial no YouTube, incluindo todos os encontros da Seleção Nacional, rejeita entrar em guerra com os operadores tradicionais. Em vez disso, quer posicionar-se como complemento e porta de entrada para uma geração que, diz João Mesquita, CEO da LiveModeTV, “abandonou o futebol” nos formatos televisivos convencionais.

“O consumo de desporto tem vindo a transformar-se, e isso abre espaço para novos modelos e novas abordagens. No caso especifico dos jovens, eles abandonaram o futebol, estão no YouTube, no TikTok, no Instagram, e querem viver o desporto de uma forma mais próxima e participada. A LiveModeTV existe para chegar a esse público: transmissão ao vivo, com sinal aberto, com criadores que já têm a confiança dessas novas gerações. Não viemos substituir o que existe, viemos ampliar o acesso e chegar a quem ainda não está a ver”, explica à Marketeer.

A resposta surge numa altura particularmente sensível para o mercado português, tendo recentemente os líderes da RTP, da Media Capital (dona da TVI) e da Impresa (que detém a SIC) alertado para aquilo que consideram ser um desequilíbrio crescente no setor audiovisual. Nicolau Santos, presidente da RTP, afirmou mesmo que “o que se vive em matéria de concorrência no setor é um autêntico faroeste”.

O facto de o Mundial ser transmitido no YouTube “mostra que estas plataformas vêm tocar no nosso negócio”, defendeu durante o 35.º Congresso da Associação Portuguesa para o Desenvolvimento das Comunicações (APDC). “Estamos numa concorrência total”, disse ainda, apontando também que “a mensagem essencial é que este tipo de situações está a dar cabo dos operadores locais de media, do ponto de vista de negócio e de sustentabilidade”.

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Os operadores televisivos portugueses estão assim a enfrentar um impasse negocial com a FIFA relativamente aos direitos do Mundial de 2026. “Estamos a passar por uma negociação difícil pelos direitos do Campeonato Mundial de Futebol, o que diz muito sobre o futuro. A FIFA basicamente quis fixar o preço, que é cerca de 30 ou 40% acima do último preço praticado ou até mais do que isso”, apontou no mesmo evento Pedro Morais Leitão, CEO da Media Capital. “Ousámos dizer que não, e a FIFA disse então que não nos fornecia os direitos. E havendo a obrigação para os operadores de televisão em sinal aberto de transmitir alguns jogos, criou-se aqui um impasse”, disse.

Foi, portanto, precisamente neste contexto que a LiveModeTV garantiu os direitos de transmissão de 34 partidas do torneio, através de um acordo direto com a FIFA. Sem revelar valores de investimento, João Mesquita sublinha apenas que existe “um compromisso claro e de longo prazo com o mercado português” e que o Mundial representa “o primeiro episódio” da operação no País.

“O processo negocial tem cláusulas de confidencialidade, então não podemos partilhar detalhes, mas o resultado deixou-nos muito felizes, porque teremos a transmissão de 34 jogos do Mundial, um por dia, com liberdade total para escolher o melhor jogo do dia. Por isso teremos todos os da Seleção Nacional e grandes jogos todos os dias”, sublinha o responsável.

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O desporto “é um ‘mundo maior’ do que qualquer player”

Questionado diretamente em relação às críticas dos operadores tradicionais e com o debate em torno da regulação do setor, o CEO da LiveModeTV evita qualquer tom de confronto, apontando que o mercado se encontra “em transformação” e que isso “abre espaço para novos modelos e novas abordagens”.

“Sabemos que os operadores tradicionais enfrentam desafios sérios – de regulação, de direitos, de sustentabilidade – e não subestimamos isso”, garante, defendendo que a posição da empresa passa por “construir relações de respeito com todos os players”. “Se pudermos ser úteis ao debate e contribuir com o futuro do setor, ficamos muito satisfeitos. O nosso principal objetivo é servir bem o público português, especialmente o público jovem. Ao fazer isso e trabalhando em parceria com todo os outros players, queremos também contribuir para fazer crescer este mercado”, afirma.

O desporto “é um ‘mundo maior’ do que qualquer player”, diz ainda João Mesquita, acrescentando que haverá sempre “espaço para vários formatos, modelos de monetização e vários players, cada um focado num determinado segmento de mercado, cada um com a sua linguagem. Acreditamos que essa diversidade contribui para a evolução do desporto. A LivemodeTV será um desses players. Acreditamos poder contribuir de forma genuína e original para o aumento do consumo do desporto e a satisfação de mais consumidores”.

E é precisamente aí que assenta a proposta da plataforma, pois enquanto operadores como a Dazn ou a Sport TV continuam assentes em modelos de subscrição, a LiveModeTV aposta num modelo totalmente gratuito, distribuído via YouTube e suportado por publicidade, patrocínios e branded content “desenvolvidos em conjunto com parceiros que procuram formas mais eficazes de comunicar, de participar da conversa e de fazer parte da comunidade” que a LiveModeTV está a construir.

Por trás desta estratégia está uma leitura muito clara do mercado publicitário, em que se identifica a fragmentação da audiência e a dificuldade em alcançar públicos mais jovens com relevância e autenticidade como um dos maiores desafios para os anunciantes, pelo que a LiveModeTV propõe um formato de media “mais próximo da cultura digital”, onde as marcas “não aparecem como interrupção, mas como parte integrante da experiência”.

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Segundo João Mesquita, já existem acordos fechados com anunciantes interessados em explorar este modelo, sobretudo marcas à procura de uma relação “mais autêntica e próxima” com comunidades digitais. A lógica passa por integrar publicidade e patrocínios no próprio conteúdo, aproveitando aquilo que o CEO considera ser um dos principais ativos do desporto ao vivo: a atenção ativa do público.

A ambição da LiveModeTV passa assim por recuperar uma audiência mais jovem através de uma linguagem mais próxima da cultura digital, com os creators a assumirem um papel central no modelo da plataforma. Em vez de uma transmissão tradicional, a empresa quer criar um ecossistema que mistura jogos em direto, interação em tempo real, conteúdos digitais e personalidades nativas das redes sociais.

“A ideia não é que os creators substituam abordagens mais técnicas ou jornalísticas, mas que acrescentem uma camada diferente, mais informal e emocional, que espelha a forma como o público já consome conteúdos hoje em dia. Ou seja, é a linguagem de casa, do bar, dos amigos. Queremos que o público se sinta parte da transmissão, que interaja com a nossa equipa e participe de uma experiência de proximidade, autenticidade e comunidade”, detalha.

A experiência pensada para o Mundial vai também além da transmissão dos jogos, com a plataforma a prometer programação própria antes e depois das partidas, interação através de chat ao vivo, sondagens e conteúdos desenhados especificamente para consumo digital. “Queremos que quem nos acompanha não seja um espectador passivo, mas parte do que está a ser produzido o tempo todo”, resume João Mesquita.

A entrada da LiveModeTV em Portugal ganha ainda maior visibilidade pelo facto de contar com o apoio de Cristiano Ronaldo, que investiu recentemente e se tornou acionista da plataforma de origem brasileira. Em comunicado, a empresa sublinhou que a parceria com o internacional português representa um reforço estratégico, combinando a experiência tecnológica da plataforma com a projeção global de uma das figuras mais influentes do desporto mundial.

Depois do Mundial – momento de “lançamento e aceleração” da plataforma em Portugal – a empresa promete continuar a expandir a oferta no país, estando já a preparar novos conteúdos e competições. Embora sem confirmar negociações concretas, João Mesquita admite que haverá novidades futuras em matéria de direitos desportivos, sendo que a ambição passa por “construir uma presença consistente e de longo prazo em Portugal”.




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