Num mercado em ebulição, marcado por disputas pelos direitos televisivos do Campeonato Mundial de Futebol de 2026, acusações de falta de regulação e críticas abertas ao que líderes do setor descrevem como um “faroeste” concorrencial, a chegada da LiveModeTV a Portugal promete acrescentar ainda mais pressão, mas também uma nova lógica de consumo.
A plataforma, que assegurou a transmissão gratuita de 34 jogos do Mundial no YouTube, incluindo todos os encontros da Seleção Nacional, rejeita entrar em guerra com os operadores tradicionais. Em vez disso, quer posicionar-se como complemento e porta de entrada para uma geração que, diz João Mesquita, CEO da LiveModeTV, “abandonou o futebol” nos formatos televisivos convencionais.
“O consumo de desporto tem vindo a transformar-se, e isso abre espaço para novos modelos e novas abordagens. No caso especifico dos jovens, eles abandonaram o futebol, estão no YouTube, no TikTok, no Instagram, e querem viver o desporto de uma forma mais próxima e participada. A LiveModeTV existe para chegar a esse público: transmissão ao vivo, com sinal aberto, com criadores que já têm a confiança dessas novas gerações. Não viemos substituir o que existe, viemos ampliar o acesso e chegar a quem ainda não está a ver”, explica à Marketeer.
A resposta surge numa altura particularmente sensível para o mercado português, tendo recentemente os líderes da RTP, da Media Capital (dona da TVI) e da Impresa (que detém a SIC) alertado para aquilo que consideram ser um desequilíbrio crescente no setor audiovisual. Nicolau Santos, presidente da RTP, afirmou mesmo que “o que se vive em matéria de concorrência no setor é um autêntico faroeste”.
O facto de o Mundial ser transmitido no YouTube “mostra que estas plataformas vêm tocar no nosso negócio”, defendeu durante o 35.º Congresso da Associação Portuguesa para o Desenvolvimento das Comunicações (APDC). “Estamos numa concorrência total”, disse ainda, apontando também que “a mensagem essencial é que este tipo de situações está a dar cabo dos operadores locais de media, do ponto de vista de negócio e de sustentabilidade”.
Os operadores televisivos portugueses estão assim a enfrentar um impasse negocial com a FIFA relativamente aos direitos do Mundial de 2026. “Estamos a passar por uma negociação difícil pelos direitos do Campeonato Mundial de Futebol, o que diz muito sobre o futuro. A FIFA basicamente quis fixar o preço, que é cerca de 30 ou 40% acima do último preço praticado ou até mais do que isso”, apontou no mesmo evento Pedro Morais Leitão, CEO da Media Capital. “Ousámos dizer que não, e a FIFA disse então que não nos fornecia os direitos. E havendo a obrigação para os operadores de televisão em sinal aberto de transmitir alguns jogos, criou-se aqui um impasse”, disse.
Foi, portanto, precisamente neste contexto que a LiveModeTV garantiu os direitos de transmissão de 34 partidas do torneio, através de um acordo direto com a FIFA. Sem revelar valores de investimento, João Mesquita sublinha apenas que existe “um compromisso claro e de longo prazo com o mercado português” e que o Mundial representa “o primeiro episódio” da operação no País.
“O processo negocial tem cláusulas de confidencialidade, então não podemos partilhar detalhes, mas o resultado deixou-nos muito felizes, porque teremos a transmissão de 34 jogos do Mundial, um por dia, com liberdade total para escolher o melhor jogo do dia. Por isso teremos todos os da Seleção Nacional e grandes jogos todos os dias”, sublinha o responsável.
O desporto “é um ‘mundo maior’ do que qualquer player”
Questionado diretamente em relação às críticas dos operadores tradicionais e com o debate em torno da regulação do setor, o CEO da LiveModeTV evita qualquer tom de confronto, apontando que o mercado se encontra “em transformação” e que isso “abre espaço para novos modelos e novas abordagens”.
“Sabemos que os operadores tradicionais enfrentam desafios sérios – de regulação, de direitos, de sustentabilidade – e não subestimamos isso”, garante, defendendo que a posição da empresa passa por “construir relações de respeito com todos os players”. “Se pudermos ser úteis ao debate e contribuir com o futuro do setor, ficamos muito satisfeitos. O nosso principal objetivo é servir bem o público português, especialmente o público jovem. Ao fazer isso e trabalhando em parceria com todo os outros players, queremos também contribuir para fazer crescer este mercado”, afirma.
O desporto “é um ‘mundo maior’ do que qualquer player”, diz ainda João Mesquita, acrescentando que haverá sempre “espaço para vários formatos, modelos de monetização e vários players, cada um focado num determinado segmento de mercado, cada um com a sua linguagem. Acreditamos que essa diversidade contribui para a evolução do desporto. A LivemodeTV será um desses players. Acreditamos poder contribuir de forma genuína e original para o aumento do consumo do desporto e a satisfação de mais consumidores”.
E é precisamente aí que assenta a proposta da plataforma, pois enquanto operadores como a Dazn ou a Sport TV continuam assentes em modelos de subscrição, a LiveModeTV aposta num modelo totalmente gratuito, distribuído via YouTube e suportado por publicidade, patrocínios e branded content “desenvolvidos em conjunto com parceiros que procuram formas mais eficazes de comunicar, de participar da conversa e de fazer parte da comunidade” que a LiveModeTV está a construir.
Por trás desta estratégia está uma leitura muito clara do mercado publicitário, em que se identifica a fragmentação da audiência e a dificuldade em alcançar públicos mais jovens com relevância e autenticidade como um dos maiores desafios para os anunciantes, pelo que a LiveModeTV propõe um formato de media “mais próximo da cultura digital”, onde as marcas “não aparecem como interrupção, mas como parte integrante da experiência”.
Segundo João Mesquita, já existem acordos fechados com anunciantes interessados em explorar este modelo, sobretudo marcas à procura de uma relação “mais autêntica e próxima” com comunidades digitais. A lógica passa por integrar publicidade e patrocínios no próprio conteúdo, aproveitando aquilo que o CEO considera ser um dos principais ativos do desporto ao vivo: a atenção ativa do público.
A ambição da LiveModeTV passa assim por recuperar uma audiência mais jovem através de uma linguagem mais próxima da cultura digital, com os creators a assumirem um papel central no modelo da plataforma. Em vez de uma transmissão tradicional, a empresa quer criar um ecossistema que mistura jogos em direto, interação em tempo real, conteúdos digitais e personalidades nativas das redes sociais.
“A ideia não é que os creators substituam abordagens mais técnicas ou jornalísticas, mas que acrescentem uma camada diferente, mais informal e emocional, que espelha a forma como o público já consome conteúdos hoje em dia. Ou seja, é a linguagem de casa, do bar, dos amigos. Queremos que o público se sinta parte da transmissão, que interaja com a nossa equipa e participe de uma experiência de proximidade, autenticidade e comunidade”, detalha.
A experiência pensada para o Mundial vai também além da transmissão dos jogos, com a plataforma a prometer programação própria antes e depois das partidas, interação através de chat ao vivo, sondagens e conteúdos desenhados especificamente para consumo digital. “Queremos que quem nos acompanha não seja um espectador passivo, mas parte do que está a ser produzido o tempo todo”, resume João Mesquita.
A entrada da LiveModeTV em Portugal ganha ainda maior visibilidade pelo facto de contar com o apoio de Cristiano Ronaldo, que investiu recentemente e se tornou acionista da plataforma de origem brasileira. Em comunicado, a empresa sublinhou que a parceria com o internacional português representa um reforço estratégico, combinando a experiência tecnológica da plataforma com a projeção global de uma das figuras mais influentes do desporto mundial.
Depois do Mundial – momento de “lançamento e aceleração” da plataforma em Portugal – a empresa promete continuar a expandir a oferta no país, estando já a preparar novos conteúdos e competições. Embora sem confirmar negociações concretas, João Mesquita admite que haverá novidades futuras em matéria de direitos desportivos, sendo que a ambição passa por “construir uma presença consistente e de longo prazo em Portugal”.














