Entre estratégia e sustentabilidade

O pequeno-almoço debate da revista Marketeer dedicado ao universo do turismo aconteceu no Hotel Dom Pedro  Palace, em Lisboa. Durante o encontro, os intervenientes debateram sobre os desafios que se colocam ao sector.

Texto de Sandra M. Pinto

Fotos de Pedro Simões

Com a abertura do novo porto de cruzeiros de Lisboa surge a questão da sua utilidade e efectiva eficiência. Com cerca de 400 navios por ano a passarem pela capital portuguesa, até que ponto é essencial esta inovação?

A verdade é que há cada vez mais navios a sair de Lisboa, o que está intimamente relacionado com o interesse do turismo nacional, pois pode fomentar o aumento de estadias na capital, o qual será efectivo se se verificar o desejado “turnaround”. Até lá o aumento é real, mesmo que para já não esteja alavancado nos cruzeiros, mas sim na aposta em produtos de turismo de natureza e náutico, os quais pretendem aumentar a visita e permanência no destino. A conclusão retira-se dos últimos dados divulgados pela Entidade Regional de Turismo da Região de Lisboa, de acordo com os quais as dormidas de turistas na Região de Lisboa, que engloba 18 municípios, aumentaram 9% no primeiro trimestre de 2016, quando comparado com igual período do ano anterior.

Este foi um dos temas em cima da mesa e que serviu de ponto de partida à discussão durante o pequeno-almoço, que teve lugar no Hotel Dom Pedro Palace, em Lisboa, e onde estiveram presentes: Pedro Ribeiro (director de Marketing e Comercial do grupo Dom Pedro Hotels), Eduardo Cabrita (director- geral da MSC Cruzeiros em Portugal), Paulo Monge (director de Vendas do SANA Hotels), Rogério Cardoso (director do International Student Identity Card) e Diamantino Pereira (director da Agência Abreu). Com a finalidade de se alcançar um debate mais aprofundado por parte de todos, foi decidido que nenhuma das intervenções seria atribuída directamente no texto.

Estado do mercado

Com o ano a meio, cada um dos intervenientes é da opinião que os resultados são até agora bastante positivos: «Se dividirmos a actividade hoteleira por regiões verifica-se uma situação muito positiva nas unidades da Madeira, com crescimento a dois dígitos e a surpreender mês após mês. Relativamente ao Algarve, assiste-se igualmente a um crescimento positivo à volta de 12, 13 e 14%, longe dos 20 ou 25% da ilha da Madeira, mas um crescimento consistente, visível mês após mês, mais alicerçado em preço médio do que no índice de ocupação.»

Se falarmos de Lisboa as opiniões divergem, com alguns intervenientes a referir que as «coisas não estão a correr tão bem como seria expectável». Esta situação está relacionada com um conjunto de factores, como o aumento significativo da oferta, uma cada vez maior concorrência por parte do alojamento alternativo, com a necessidade urgente de uma maior regulamentação. «Neste momento estamos perto dos 20 mil apartamentos licenciados só em Lisboa», o que equivale a 42% da oferta de alojamento na capital. Ouviu-se, inclusive, o testemunho de um dos intervenientes, de que «tendo vários amigos oriundos do Brasil, os quais visitam regularmente Portugal, ficando instalados em hotéis, este ano optaram pelo alojamento alternativo».

Os resultados obtidos em Lisboa no mês de Junho são, de acordo com os últimos dados, muito semelhantes aos do ano passado, «o que se revela uma enorme discrepância quando comparados com outras zonas do País», e isto no seguimento de um mês de Abril muito mau no que diz respeito a resultados, «em grande parte devido ao atentado de Bruxelas de 22 de Março».

Todos concordam que a hotelaria em Lisboa em 2016 não se está a concretizar da forma esperada, pois, «após o crescimento de 2015, o sector estava convencido que este ano ia acontecer o mesmo, mas tal não se verificou».

Dois dados importantes lançados para a discussão assentaram na deturpação das estatísticas, «deixou-se de ter controlo sobre o número de turistas que chega à cidade», e no tema segurança, «sendo que as unidades hoteleiras têm diariamente à meia-noite a obrigação de enviar para a polícia a listagem com os hóspedes, mas o mesmo não acontece com o alojamento alternativo, não se sabendo sequer quantos visitantes ficam nele alojados».

«Com a Grécia a recuperar os números do turismo, será que vamos continuar na crista da onda no que à obtenção de bons resultados diz respeito», foi outra questão levantada, com a maioria dos intervenientes a acreditar que tal não irá suceder: «Ainda vai demorar até a Grécia conseguir obter os mesmos números que já teve, sendo que outros destinos, como a Tunísia ou a Turquia, estão neste momento sem capacidade para captar turistas.»

Hoje, a grande procura são os destinos de resort, «basta olhar para os elevados índices de ocupação e procura das ilhas, como as Canárias ou Cabo Verde, estando o Algarve também a beneficiar desta tendência», pelo que a questão mais preocupante será mesmo Lisboa: «Como vai a capital portuguesa melhorar e manter os bons números do turismo, com as unidades hoteleiras a crescer em preço médio e não em ocupação?»

De Abril a Outubro não há por que baixar os preços na cidade de Lisboa, «em termos de dimensão, não podemos crescer mais, pelo que só no preço é que podemos alavancar os bons resultados pretendidos», sendo que as quebras mais sentidas pelas unidades hoteleiras são no F&B (Food & Beverage), facto que os intervenientes relacionam com o tipo de turistas que têm vindo a chegar a Lisboa.

Para onde vai Lisboa?

Com os números de 2016 a não corresponderem às expectativas iniciais, a questão impõe-se. Até que ponto a criação de novas infra-estruturas que venham alavancar mais eventos pode ajudar a mudar este rumo foi uma das dúvidas lançadas para a discussão: «falou-se em utilizar a taxa de turismo na criação de um novo centro de congressos, sendo que logo algumas organizações se insurgiram contra tal ideia, defendendo que Lisboa não precisa desta infra-estrutura.»

Simultaneamente, o mercado dos cruzeiros está a crescer, sendo que importa perceber «como vamos captar esses turistas para que voltem e, ao mesmo tempo, o que pode ser feito para que se consiga chegar a mercados emissores emergentes como o Oriente, em particular a China». Estes são turistas que não são captados pelo sol e praia, pelo que importa perceber o que procuram, o que desejam de um destino como Lisboa, onde vão começar a chegar mais regularmente. «A hotelaria está preparada para receber estes novos turistas, pelo que é tudo uma questão de adaptação», defendem os intervenientes.

Depois surge a questão da fidelização. «como fidelizar o cliente é das coisas mais importantes que se apresentam a qualquer empresa, em particular quando esta actua no sector do turismo», pelo que urge implementar boas ideias e soluções inovadoras, «pois os países e as unidades hoteleiras vivem do factor repetição, sendo o cliente um bem tão raro que tem de ser bem tratado». Todos concordam que Lisboa tem já um bom índice de repetição, mas é preciso fazer mais, «é todo um trabalho de procurar o cliente, conhecê-lo e perceber o que ele procura e anseia». É importante trabalhar bem, não só na conquista de novos mercados, mas também na fidelização dos clientes. Simultaneamente, apresenta-se a dúvida de como tornar isto tudo sustentável, «entre modelo de negócio tradicional e novas alternativas».

Resumindo, a questão que importa é «como promover Lisboa e como adaptar o produto aos novos mercados e aos novos segmentos », não esquecendo nunca a umbrella principal: «qual o tipo de turismo que queremos para Lisboa?»

Artigo publicado na edição n.º 241 de Agosto de 2016.

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