Do fim

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23/11/2019
10:00
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Do fim

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Se calhar estou a ficar velho. Careca e gordo estou, certamente – e como toda a gente sabe, não há duas sem três (a lógica é forte em mim, bem sei).

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Talvez por isso (ou se calhar não), a verdade é que, ultimamente, tenho dado por mim a pensar no fim: no fim das relações dos colaboradores com agências, no fim das relações das agências com os clientes, no fim das agências propriamente ditas…

Enfim, no fim.

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E, no fim de contas, no que fazer com ele (o fim, entenda-se).

Mas permitam-me que vos conte uma história. Aqui há uns anos, numa agência onde trabalhei, vi um criativo ser despedido. Disseram-lhe, muito resumidamente, que não era bom o suficiente e que queriam que se fosse embora.

O normal, portanto.

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Chato, mas normal.

E depois disseram-lhe que podia ficar até arranjar outra coisa, mas fizeram-no por forma a que toda a gente ouvisse.

O que continuou a ser chato.

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Mas foi um bocado anormal.

O tempo foi passando, o dito criativo foi ficando e eu, todo pedante e cheio de certezas, fui achando que ele se devia ter ido embora. E, em podendo, arranjar uma espinha dorsal. Ou um par de testículos, pelo menos.

Até que o dito criativo foi promovido. E lá continuou a trabalhar (e a fazer muito bom trabalho, para mais), até ao dia em que se chateou e se demitiu. Com direito a murro na mesa, espinha dorsal e testículos, tudo com uma coragem e honestidade raras por aquelas bandas.

E eu, de repente, descobri que afinal sabia menos do que achava.

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A minha reacção natural a tudo e todos os que não querem trabalhar comigo – sejam agências, clientes ou fornecedores – sempre foi o ir-me embora. Com ou sem contrato, com ou sem fee, nunca gostei de me demorar onde não me querem. Até porque sempre achei que não há dinheiro que pague tal demora e eu, por norma, não aprecio que me façam favores que não pedi.

Mas com a idade dou por mim a perguntar-me se não devemos, para bem do que fazemos, dar uma oportunidade (ou duas, ou vinte) às coisas, e ver se é mesmo o fim, se é o princípio do fim, ou se é apenas o fim do princípio. Dito de outra forma, onde é que acaba o ego e começa uma decisão lógica, bem-intencionada e construtiva? Até quando devemos aturar um chefe, um cliente, ou um fornecedor com o qual não concordamos?

É logo à primeira?

É até aguentarmos?

É imediatamente antes do esgotamento? Imediatamente depois?

Há uma cena magnífica no “Love Actually” (“O Amor Acontece”, em português), em que a Karen (Emma Thompson) confronta o Harry (Alan Rickman) em relação ao colar de ouro que ele comprou para a secretária com quem quer pinar (ou pina mesmo, o filme é dúbio neste ponto) e lhe pergunta: «Se fosses tu, ficavas para ver se era só um colar, se era sexo e um colar, ou se, pior que tudo, era amor e um colar? Ficavas, sabendo que a tua vida ia ser sempre um pouco pior? Ou acabavas tudo e fugias?»

E eu, no fim do dia, passo a vida a sentir-me a Emma Thompson da publicidade (não gozem que isto é sério). Com menos talento e mais anca, é certo, mas a mesma dúvida: Fico-me? Vou-me? Dou um murro na mesa? Ou espero para ver se o Alan Rickman pina ou não pina com a secretária?

Enfim.

Para já, acho que me vou. Até porque a página acabou. Mas não se preocupem que volto daqui a três meses.

Tiago Viegas
Partner da The Hotel

tiago.viegas@thehotel.pt

Artigo publicado na edição n.º 280 de Novembro de 2019




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