Do fim

Se calhar estou a ficar velho. Careca e gordo estou, certamente – e como toda a gente sabe, não há duas sem três (a lógica é forte em mim, bem sei).

Talvez por isso (ou se calhar não), a verdade é que, ultimamente, tenho dado por mim a pensar no fim: no fim das relações dos colaboradores com agências, no fim das relações das agências com os clientes, no fim das agências propriamente ditas…

Enfim, no fim.

E, no fim de contas, no que fazer com ele (o fim, entenda-se).

Mas permitam-me que vos conte uma história. Aqui há uns anos, numa agência onde trabalhei, vi um criativo ser despedido. Disseram-lhe, muito resumidamente, que não era bom o suficiente e que queriam que se fosse embora.

O normal, portanto.

Chato, mas normal.

E depois disseram-lhe que podia ficar até arranjar outra coisa, mas fizeram-no por forma a que toda a gente ouvisse.

O que continuou a ser chato.

Mas foi um bocado anormal.

O tempo foi passando, o dito criativo foi ficando e eu, todo pedante e cheio de certezas, fui achando que ele se devia ter ido embora. E, em podendo, arranjar uma espinha dorsal. Ou um par de testículos, pelo menos.

Até que o dito criativo foi promovido. E lá continuou a trabalhar (e a fazer muito bom trabalho, para mais), até ao dia em que se chateou e se demitiu. Com direito a murro na mesa, espinha dorsal e testículos, tudo com uma coragem e honestidade raras por aquelas bandas.

E eu, de repente, descobri que afinal sabia menos do que achava.

A minha reacção natural a tudo e todos os que não querem trabalhar comigo – sejam agências, clientes ou fornecedores – sempre foi o ir-me embora. Com ou sem contrato, com ou sem fee, nunca gostei de me demorar onde não me querem. Até porque sempre achei que não há dinheiro que pague tal demora e eu, por norma, não aprecio que me façam favores que não pedi.

Mas com a idade dou por mim a perguntar-me se não devemos, para bem do que fazemos, dar uma oportunidade (ou duas, ou vinte) às coisas, e ver se é mesmo o fim, se é o princípio do fim, ou se é apenas o fim do princípio. Dito de outra forma, onde é que acaba o ego e começa uma decisão lógica, bem-intencionada e construtiva? Até quando devemos aturar um chefe, um cliente, ou um fornecedor com o qual não concordamos?

É logo à primeira?

É até aguentarmos?

É imediatamente antes do esgotamento? Imediatamente depois?

Há uma cena magnífica no “Love Actually” (“O Amor Acontece”, em português), em que a Karen (Emma Thompson) confronta o Harry (Alan Rickman) em relação ao colar de ouro que ele comprou para a secretária com quem quer pinar (ou pina mesmo, o filme é dúbio neste ponto) e lhe pergunta: «Se fosses tu, ficavas para ver se era só um colar, se era sexo e um colar, ou se, pior que tudo, era amor e um colar? Ficavas, sabendo que a tua vida ia ser sempre um pouco pior? Ou acabavas tudo e fugias?»

E eu, no fim do dia, passo a vida a sentir-me a Emma Thompson da publicidade (não gozem que isto é sério). Com menos talento e mais anca, é certo, mas a mesma dúvida: Fico-me? Vou-me? Dou um murro na mesa? Ou espero para ver se o Alan Rickman pina ou não pina com a secretária?

Enfim.

Para já, acho que me vou. Até porque a página acabou. Mas não se preocupem que volto daqui a três meses.

Tiago Viegas
Partner da The Hotel

tiago.viegas@thehotel.pt

Artigo publicado na edição n.º 280 de Novembro de 2019

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