Digital representa 4,6% do PIB português

O digital teve um impacto directo de cerca de 9 mil milhões de euros no mercado português, em 2017, o que representa 4,6% do PIB nacional, um valor acima da contribuição que sectores como o da construção ou energia têm na economia nacional. Contudo, este número está ainda 3,3 pontos percentuais abaixo da média dos países europeus de referência, de acordo com um estudo do The Boston Consulting Group (BCG), com o apoio da Google.

«Apesar do impacto [do digital] ser já positivo, estamos ainda na cauda da Europa e provavelmente atrás de onde estava o Reino Unido há dez anos», sublinhou Pedro Pereira, partner and managing director da BCG Portugal, durante a apresentação do estudo, que decorreu esta manhã no campus da Nova SBE, em Carcavelos. No Reino Unido, por exemplo, o digital tem um impacto económico de 321 mil milhões de euros. Itália, Espanha, Alemanha e França são os outros mercados que a BCG considerou para o estudo, sendo que nestes cinco países o digital tem um peso médio de 7,9% sobre a economia.

De acordo com o estudo, a penetração da Internet em Portugal ronda os 77%, 10 pontos percentuais abaixo da média da União Europeia. Quanto ao comportamento dos consumidores, os portugueses despendem cerca de 1h10m do seu tempo livre diário (ou 22%) na Internet, maioritariamente a ver filmes ou séries. E 45% garante que “não abdicava da Internet por qualquer valor”.

Se se considerar não só o impacto directo do digital, mas também o valor gerado em jornadas de compra que começam online e são terminadas nos canais convencionais (offline), o impacto do digital em Portugal ascende a mais de 25 mil milhões de euros, em 2017, considerando apenas os sectores do retalho e turismo. De acordo com a BCG, existe espaço, em particular nestes dois sectores, para aumentar ainda mais o impacto do digital. «O peso do e-commerce no retalho em Portugal é de apenas 4%», revelou Pedro Pereira, acrescentando que cerca de 44% dos portugueses usa a Internet dentro das lojas físicas para pesquisar produtos. «Este deve ser um call-to-action para o sector», frisou.

Apesar de tudo, a BCG refere que o País «tem, de facto, algumas características que o tornam um candidato a estabelecer-se como um importante hub digital para a Europa», nomeadamente ao nível do «talento humano com formação de qualidade, boa qualidade de vida e acesso a mercados com a escala necessária». De acordo com a consultora, se Portugal conseguir concretizar todo o seu potencial, em 2025 o digital poderá passar a ter um impacto económico na ordem dos 20 mil milhões de euros.

O impacto da Google

Num outro estudo, também divulgado esta manhã, a BCG revela que a utilização dos produtos gratuitos (como o Google Chrome, Gmail ou YouTube) e das soluções de publicidade da Google gera anualmente, em Portugal, cerca de 2,5 mil milhões de euros em receitas incrementais para as empresas portuguesas. De acordo com a consultora, este número equivale a 71 mil empregos – assumindo uma produtividade média de 21,6 euros/hora.

«O impacto do digital na economia portuguesa já é relevante, mas temos a obrigação de acelerar este impacto, aproveitando todas as infra-estruturas que temos ao nosso dispor. A Google Portugal orgulha-se de apoiar esta revolução. Somos o principal parceiro das empresas nacionais no ambiente digital», afirmou Bernardo Correia, country manager da Google em Portugal.

O responsável recordou ainda outros programas e iniciativas da Google que têm um «impacto indirecto» na economia nacional: o Atelier Digital já qualificou cerca de 50 mil portugueses em skills digitais no espaço de um ano e meio; o fundo de inovação Digital News Initiative (DNI) já distribuiu cerca de 7,2 milhões de euros pelos meios de comunicação social nacionais; o projecto Gen10S já ensinou cerca de 5000 crianças a programar; e, em breve, será colocado em prática um novo projecto que irá formar 3000 programadores Android. Além disso, o YouTube gera cerca de 12 milhões de euros em receitas publicitárias anuais para os criadores de conteúdos portugueses.

«É preciso investir na requalificação profissional para os skills do futuro. Mas o principal desafio talvez seja acelerar a transformação digital das empresas portuguesas. Há uma urgência da transformação digital para que possamos fazer de Portugal um centro de captação de investimento e talento estrangeiro», finalizou Bernardo Correia.

Como reduzir o gap?

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Durante a apresentação dos dois estudos da BCG houve ainda tempo para uma mesa-redonda onde se debateu o porquê de existir um gap de 3,3% entre o peso do digital na economia portuguesa e nos países europeus mais avançados e que caminhos poderão existir para reduzir esse hiato. «Temos três factores que explicam o nosso “atraso”: o nosso tecido empresarial não é tão propenso ao digital quando comparado com o que acontece noutras economias; há uma escassez de recursos humanos qualificados, em áreas como o e-commerce; e temos também um problema de logística. É impensável os valores que pagamos para importar de outros mercados (como o holandês) quando comparado com que temos que pagar para exportar os nossos produtos», respondeu Sérgio Vieira, da 360imprimir. A empresa portuguesa está já presente em três mercados externos (Espanha, Brasil e México), mas em todos eles tem parceiros locais para a logística.

Para Rogério Henriques, da Fidelidade, «a literacia digital será o principal desafio nacional. O factor crítico de sucesso será o de formar e reciclar skills digitais. Não temos as pessoas suficientes para fazermos o investimento que é necessário no digital». Sérgio Vieira rectificou que «não é preciso mudar completamente o que está a ser feito em termos de formação nas escolas de gestão de topo, mas ainda continuamos a olhar para o marketing de uma forma muito tradicional. O marketing digital tem menos a ver com atributos estéticos e mais com os resultados, com a parte analítica.»

Já Miguel Sabino, da Thumb Media, que representa cerca de 600 YouTubers em Portugal, sugeriu que as empresas portuguesas «não devem olhar para o YouTube como um meio publicitário, mas antes como uma plataforma onde é possível criar uma narrativa que faça sentido para os seus públicos.»

Texto de Daniel Almeida

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