Das margens e remunerações das agências

tiagoviegasQuando um dia for grande e famoso e talentoso e importante – e todas as outras coisas que um director criativo a sério é suposto ser – e tiver histórias para contar e coisas interessantes para dizer e alguém me perguntar por que é que faço anúncios, sabem o que hei-de responder?

Para ganhar dinheiro, é o que hei-de responder.

Que é como quem diz, hoje queria falar-vos de margens, remunerações de agências e daquilo que, verdadeiramente, andamos – ou devíamos andar – todos para aqui a fazer: dinheiro.

A lógica é (era?) simples: os clientes queriam vender mas não sabiam como; as agências sabiam como mas não tinham o que vender. Então os primeiros pagavam aos segundos, os segundos convenciam um monte de gente (vulgo consumidores) a pagar aos primeiros e no final ficávamos todos contentes: os clientes ficavam com mais dinheiro, as agências com o dinheiro a mais dos clientes e o monte de gente ficava sem dinheiro mas com um monte de coisas (in)úteis.

E assim foi durante anos.

E assim fomos todos felizes.

Até que um dia – há sempre um dia – o mercado acordou e chegou à conclusão que as agências andavam a ganhar dinheiro a mais.

E as agências, que não lhes podiam explicar que o problema não era as agências andarem a ganhar dinheiro a mais, mas sim que o serviço que lhes andavam a prestar era mau e os andava a fazer a eles, clientes, ganhar dinheiro a menos – em vez de trabalhar mais e melhor e resolver a situação, resolveram fazer menos e pior e passar a cobrar as margens às escondidas.

E pronto, estragaram tudo.

O resultado está à vista: hoje em dia a desconfiança é tal e as histórias de esquemas e negociatas e margens combinadas à parte com terceiros (e primeiros, e segundos e sabe-se lá mais o quê) foram – e são – tantas, que parece que é crime uma agência querer cobrar margens (de produção, de acompanhamento ou do que for).

Ou, pior ainda – cruz credo, virgem santíssima, valha-nos nossa senhora, isso é que não -, ganhar dinheiro.

(Ainda que, verdade seja dita, a julgar pela grande maioria do trabalho que as agências põem na rua, não é crime mas não tenho a certeza que não devesse ser.)

A ver se nos entendemos, então: ficar rico não é crime. O que é crime é ficar rico às custas de alguém que não ficou.

Essa sim, é a questão.

Ora a mim, que me farto de trabalhar para fazer alguém ficar rico, irrita-me não ganhar nada com isso. Porque eu quando não ganho, não como. E quando não como, fico muito irritado.

Para além de magro, o que é muito pior.

Perdoem-me, pois, todos os que se sentirem ofendidos, os que sentirem vergonha (alheia ou nem tanto) e os que acharem que não é próprio andar a proferir tais enormidades (ainda para mais um criativo), mas o meu objectivo (que, na verdade, devia ser o nosso) é simples, e é bom que nos entendamos desde já se um dia vamos trabalhar juntos: é ganhar dinheiro.

E muito, se não for incómodo.

É claro que para isso tenho que trabalhar muito (também). E fazer alguém ganhar dinheiro suficiente para que esse alguém me possa pagar. Mas assim o faça, não vejo por que razão não hei-de ser pago. E cobrar todas as margens que me apetecer. E até, se for caso disso, dizer preto no branco quanto custa o que estou a comprar e por quanto o vou (re)vender.

A pergunta que se impõe é, pois, a seguinte:

E se em vez de andarmos a dizer que é caro até chatear, e se em vez de andarmos a dizer que os valores de produção estão desajustados à realidade actual quase a chorar, e se em vez de andarmos todos a fingir que não cobramos margens de trinta por cento ou mais e a cobrar, e se em vez de andarmos todos a dizer que não andamos a ganhar dinheiro e a ganhar – fossemos todos trabalhar?

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