Da era do silêncio às realidades sintéticas

«Cada vez mais, as pessoas querem estar desligadas dos ecrãs. Já falávamos nisto em 2017 quando prevíamos o desaparecimento das apps, mas é uma tendência cada vez mais notória. Há estudos que mostram que há um receio cada vez maior do impacto que o uso da tecnologia pode ter sobre a mente», alertou hoje Ricardo Monteiro, head of Fjord Portugal, no palco da 13.ª Conferência Marketeer, que decorreu no Centro de Congressos do Estoril.

No evento, dedicado ao tema “Quanto valem os influenciadores?”, o director da consultora da Accenture Interactive abordou algumas das tendências identificadas pela Fjord para este ano, e que estarão a impactar o design e a inovação. A primeira das quais, “Silence is gold” (“O silêncio é de ouro”).

De acordo com Ricardo Monteiro, esta tendência generalizada da necessidade de estar “offline” tem tido impacto ao nível político – no ano passado, lembrou, França publicou uma lei que dispensa todos os trabalhadores de consultarem o e-mail fora do horário laboral – mas também ao nível do design, com o surgimento de diversos produtos que respondem a esta necessidade. É o caso dos chamados “offline phones”, isto é, telemóveis minimalistas que são feitos para estarem desligados da Internet, contendo apenas funcionalidades básicas (como chamadas ou mensagens) e até mesmo o desenvolvimento de uns óculos que tornam qualquer ecrã “invisível” ao olhar humano. O mindful design é, então, uma das tendências identificadas pela Fjord. «E este emagrecimento digital vai continuar a acontecer», garantiu o director da Fjord Portugal.

“The last straw?” (“A última palhinha?”) é outra das tendências sinalizadas pela consultora de inovação e design, estando directamente relacionada com o aumento da consciencialização ambiental, que se expressa em movimentos como o “Zero Waste”. De acordo com Ricardo Monteiro, esta é uma oportunidade que está a ser aproveitada pelas marcas, levando, nalguns casos, a mudanças profundas no negócio. É o caso da H&M, que já fez saber que até 2022 quer ser completamente ecológica, ou do IKEA, que até ao próximo ano pretende ser 100% sustentável. Outros exemplos mais extremos poderão ser os ténis de corrida 100% recicláveis da adidas ou o perfume I am Trash, produzido a partir de… lixo. A nível nacional, o responsável frisou os exemplos de marcas como o Continente, que lançou o Panana, ou a Zouri, que fabrica ténis a partir de plástico recolhido nos oceanos.

Para Ricardo Monteiro, as marcas vão aderir «cada vez mais a este movimento» mas deverão, ao mesmo tempo, aproveitar para colaborar com outros players para acelerar a mudança e «saber contar a história por detrás de cada um destes projectos».

Por fim, a tendência das “synthetic realities” (“realidades sintéticas”). Num mundo altamente tecnológico, é cada vez mais difícil distinguir a realidade da ficção. Hoje, já existem ferramentas que permitem colocar a cara de uma pessoa no corpo de outra (Ctrl Shift Face) ou robôs que mimetizam a voz humana (Lyrebird AI). E as marcas têm procurado explorar as potencialidades que tecnologias como a realidade aumentada ou a inteligência artificial podem trazer para os seus negócios. É por isso que a Dove já colocou no ar uma campanha completamente desenvolvida com recurso a inteligência artificial, ou que avatars como a Shudu ou a Lil Miquela, que apenas existem no mundo digital, se tornam influenciadoras de marcas, com milhões de seguidores nas redes sociais. Uma espécie de Photoshop levado ao extremo.

«Ver já não é acreditar», lembrou Ricardo Monteiro, lembrando que estas tecnologias deverão ser bem utilizadas, e de uma forma transparente, sob pena de aumentar os níveis de desconfiança dos consumidores. «É preciso que as marcas percebam o valor da inteligência artificial, que a explorem como uma ferramenta criativa e que estejam preparadas para o desenvolvimento desta tecnologia», concluiu.

Texto de Daniel Almeida

Foto de Paulo Alexandrino

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