A influência de um fósforo

Agora que já temos um polígrafo para as fake news, falta inventar uma máquina de desmontar ódios.

Uma activista de 16 anos a discursar na ONU foi crucificada pelas expressões faciais, pelo tom de voz, pela idade e porque atravessou o Atlântico de barco. Um ciclista descobriu um esgoto a céu aberto em Monsanto e o Festival Iminente foi imediatamente condenado, sem investigação nem julgamento. A ASAE apreendeu “As Gémeas Marotas” na Bedeteca e o acto foi logo sinónimo de censura. Entretanto, os estendais do Minipreço eram promovidos a ideia genial e a obra do demo ao mesmo tempo. Tudo isto numa só semana de Facebook. A minha reacção a estes incêndios digitais é sempre de alguma perplexidade. Sou como o Raul Seixas, raramente consigo ter uma opinião formada sobre tudo, pelo menos de uma forma tão rápida. Mas é inevitável ficar a pensar na facilidade com que hoje se odeia, e no rasto que isso deixa.

Debate e liberdade de expressão são fundamentais, estamos todos de acordo. Graças ao assunto Greta, li novos factos e opiniões sobre a crise climática. O tema dos estendais do Minipreço deu uma boa troca de ideias sobre a nossa responsabilidade como publicitários e marketeers quando queremos intervir na sociedade. E graças à polémica da ASAE, descobri alguém com sentido de humor a pregar uma partida aos fãs do Dick Bruna.

Mas quando se fala tanto de influenciadores, vale a pena pensar no que significa ter influência. Queiramos ou não, somos todos influencers, nem que seja junto de umas centenas de pessoas a quem estamos socialmente ligados. Por isso, importa pensar antes de usar o poder. Tal como pensamos antes de acender um fósforo. O que nos impede de lançar um fósforo a uma floresta? Tudo. Sabemos que o fogo é destruidor, fomos ensinados a ter cuidado com ele desde crianças. Talvez essa seja a idade certa para dar um amigável puxão de orelhas, sempre que alguém experimenta brincar com o ódio.

Nessa mesma semana de Setembro, ouvi a seguinte conversa de ginásio. Dizia um PT à senhora que suava as estopinhas na passadeira ao meu lado: “Hoje em dia, não há nada mais radical do que ser normal.” Ele referia-se aos que resistem às solicitações diárias da cervejinha, do sofá e da sobremesa. Na opinião do professor de ginástica, esses seriam os radicais de agora, os que lutam contra o estabelecido direito ao prazer 24 horas por dia. Eu acrescentaria outra nova espécie igualmente radical: os que resistem a odiar.

Espalhar ódio nas redes sociais tornou-se mais comum do que ter o colesterol alto. Incendiar o Facebook passou a ser perigosamente fácil e limpo. Odiar já não significa dar e levar uns sopapos. Linchar alguém digitalmente passou a ser uma rotina, aquilo que muitos fazem enquanto tomam o pequeno-almoço. Difícil agora é resistir, difícil é mantermo-nos normais.

Na próxima vez que abrirem o Facebook ou a caixa de comentários de um jornal, lembrem-se das palavras do profeta Gentileza, o velhinho que pintava pilares num viaduto do Rio de Janeiro: gentileza gera gentileza.

Susana Albuquerque
Directora criativa da Uzina
Susana.albuquerque@uzina.com

Artigo publicado na edição n.º 279 de Outubro de 2019

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