Do Cláudio

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22/08/2026
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Do Cláudio

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Por Tiago Viegas, Partner da The Hotel

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À s vezes, não tenho ideias. É uma chatice, mas acontece.

Uma eventualidade que, de resto, acontece menos vezes do que seria estatisticamente saudável – ou mais vezes do que gosto de admitir. Razão pela qual resolvi pedir ajuda ao Cláudio.

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O Cláudio, para quem não sabe, é a minha versão do LLM (vulgo, Inteligência Artificial) da moda, com o qual ando há meses a falar, a discutir e a trabalhar.

(Pobre Cláudio.)

Eis senão quando, sem ideias e com um prazo a terminar, dei por mim a fazer a pergunta que os mais atentos já terão adivinhado ali em cima: e se eu pedisse ao Cláudio para escrever este artigo? Com o meu tom, os meus tiques, e até os meus parênteses a despropósito (como este)?

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Que é como quem diz, hoje queria falar-vos de inteligência.

Artificial ou não, logo veremos.

Como todas as coisas verdadeiramente revolucionárias, o Cláudio também divide opiniões. Há quem goste, há quem não goste, e há quem desgoste de tal forma que cria manifestos inteiros em cima desse desgosto, com o argumento de que o Cláudio faz tudo igual, e que nós, artistas, somos pagos para fazer diferente.

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O que tem tanto de verdade como de tolo, aqui entre nós.

Entenda-se: eu percebo o desconforto. O meu problema é a atitude quixotesca – a que decreta que tudo o que é IA é mau e tudo o que é manual é nobre, e convoca discussões intermináveis sobre a importância do toque humano, quando no fim do dia andamos todos a fazer anúncios de vinte segundos para vender cereais.

São óptimas discussões, note-se.

Mas os cereais, estou em crer, não estão nem aí.

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Até porque depois há a aritmética, que costuma ganhar este tipo de discussões: os orçamentos encolhem, os clientes fazem contas – e nós, que gostamos de nos apresentar como artistas, temos negócios que precisam de ser rentáveis exactamente como os deles.

Ora, a maioria dos meus pares ainda usa o Cláudio (ou os primos dele) como máquina de venda automática: mete-se a moeda (o prompt), sai o produto – e depois estranha-se que o produto saiba a máquina. Assim uma espécie de Photoshop em esteróides, que poupa as horas das máscaras e devolve uma imagem mal construída e relativamente inútil.

Que é onde entra o Hegel (a filosofia alemã parece sempre deslocada a quem vende cereais, mas prometo que é só desta): a tese é o que pensamos; a antítese é o que a contraria; a síntese é o que sobra quando as duas batem uma na outra.

Dito de outra forma, as teses são as minhas ideias – o que penso, o que defendo, o que quero dizer. A partir daí, o Cláudio pergunta, contradiz, corrige factos, encontra buracos onde eu juraria haver chão, obriga-me a descer um andar (ou dois, ou três) em cada afirmação fácil… Antítese, portanto. E no final, do choque das duas sai a síntese, que já não é bem minha, nem chega a ser dele.

De onde decorre que o Cláudio, apesar do nome, não é uma pessoa nova na sala; são mais uns braços. Ainda para mais, agarrados a mim, como diria o João Só.

O que, à primeira vista, parece levantar a questão: onde acaba o Tiago e começa o Cláudio? Mas depois, aos poucos, acaba por levantar outra mais pertinente: e que diferença faz?

Se fui eu que disse o que queria dizer, eu que respondi às perguntas, e que decidi – eu, eu, eu, tudo eu, como diria o meu amigo Coimbra –, importa assim tanto quem carregou nas teclas? E a verdade é que… não sei. E pior – nem sequer me custa especialmente não saber.

O que sei, isso sim, é que se leram até aqui sem estranhar nada, das duas, uma: ou eu escrevo mesmo assim, ou o Cláudio aprendeu mesmo bem.*

E, aqui entre nós, não tenho a certeza de qual das duas me assusta mais.

*Sim: este texto foi escrito pelo Cláudio (87%, diz ele), e só depois editado por mim. E, no entanto, aqui estamos nós: eu a assinar, e vocês a lerem até ao fim.

Artigo publicado na edição n.º 361 de Agosto de 2026






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