Sempre foi vontade, no Bonança, que as propostas gastronómicas cruzassem o melhor que Portugal levou ao Mundo com o que o Mundo ensinou a Portugal, que a história se casasse com a inovação e a tradição tivesse toque autoral. Depois de uma abertura a pés de lã, há um novo Bonança na Associação Naval de Lisboa que entrega precisamente o que prometeu, com assinatura do chef Pedro Amendola. Ou não estivesse também o próprio sentado num edifício que faz parte da própria história da cidade com um imenso mural de Almada que evoca o presente de D. Manuel ao Papa Leão X, em 1514, com símbolos dos Descobrimentos Portugueses. Por isso, o conceito do Bonança – nome ligado ao mar – celebra esse mesmo legado.Por
M.ª João Vieira Pinto
Com dois andares e 186 lugares, tem diferentes espaços e perspectivas várias sobre o exterior, entre o Tejo e o Padrão, a água e a luz nas paredes brancas do CCB, ao fundo.
Ali, cada refeição procura ser uma viagem de sabores, que mistura histórias antigas e contemporâneas, com todos os pratos a apresentarem-se enquanto homenagem à alma portuguesa. Desde as entradas frias a pratos principais, como arrozes diversos, peixes e mariscos frescos.
Pelo meio disto, e quando o sol se põe, o Bonança assume uma nova identidade. O espaço reinventa-se, transformando-se num bar e clube onde a diversão e a energia se encontram, através de uma curadoria meticulosa, DJs, músicos e artistas.
No fundo, porque o Bonança não é apenas um restaurante, mas um local onde o passado se mistura com o presente, com as sextas-feiras e sábados a receberem DJs e, depois do jantar, com o restaurante a transformar-se num espaço de clubbing onde a diversão continua até às 03h00 da manhã. Há Tormenta – o nome escolhido – por ali, mas tormenta boa e com ritmos que levam à dança. Seja dentro do espaço ou no seu “palco” exterior, bem de frente para o rio.
Localizado na mais antiga associação náutica da Península Ibérica, o projecto é o resultado da ambição de quatro sócios – Salvador Sobral, Diogo Sousa Coutinho, Filipe Farinha Santos e o Family Office da Família Germano de Sousa – que têm como objectivo fazer deste espaço um local onde apetece estar – e voltar.
Numa noite de Verão, e em vésperas de uma grande festa Tormenta – que viria a animar todo o passeio em frente ao espaço -, Francisco Vasconcelos, o director de operações e uma das almas que ajuda a imprimir alma ao projecto, senta-se connosco à mesa e conta como por ali se pretende, acima de tudo, que quem chegue seja bem recebido e que, quando saia, vá feliz… ou com um pé de dança.
Francisco estudou na Escola de Hotelaria do Estoril, passou pelos EUA e Espanha, até que regressou a Portugal onde abraçou a direcção-geral de um projecto de restauração. Agora, e desde há uns meses, ajuda a desenhar, criar, desenvolver e ir mais longe, afirmando o Bonança nas vertentes da gastronomia, entretenimento e eventos.
Desde que abriu portas que o Bonança tem vindo a procurar melhor a sua oferta gastronómica. Estamos ainda numa fase de afinamento ou já madura?
A gastronomia é o nosso foco principal. Apostamos muito numa gastronomia cuidada, muito portuguesa. Não queremos ser iguais aos outros, mas também não queremos desrespeitar a história que temos aqui, a história deste edifício que tem praticamente 100 anos.
A Associação Naval celebra este ano 170 anos, e não se pode ignorar isso.
Houve uma fase inicial de adaptação. O chef Pedro Amendola entrou em Junho do ano passado e, desde então, temos vindo a fazer alterações na carta. A mais recente tem cerca de um mês e foi a “mais agressiva”, sendo que Já estamos num patamar que gostávamos de ter.
Já trabalhávamos o peixe, mas queríamos enfatizar ainda mais, pelo que passamos a ter uma montra para ser mais um ponto de referência à nossa gastronomia.
Para além disso, o nosso segundo eixo é o entretenimento, que faz falta em Lisboa.
As pessoas não querem só jantar e não têm onde sair, em Lisboa. Deixou de haver espaços nocturnos. Por isso, o Bonança é um conceito que combina tudo no mesmo sítio, restauração e entretenimento.
Notam que passaram a ter mais reservas para jantar?
Claro, parte da experiência. Não queríamos ter só um eixo de diversão nocturna, mas que tivesse uma co-relação com a gastronomia.
Sentimos que os jantares beneficiaram. Inaugurámos este conceito a 31 de Janeiro. Fizemos o mês de Fevereiro praticamente apenas aos sábados, e depois a procura levou-nos a estender também às sextas.
Ocasionalmente, fazemos eventos em vésperas de feriados.
Quisemos ser um pouco diferentes e fazer efectivamente curadoria artística, sendo que gostamos que os artistas vão variando para trazermos várias pessoas ao espaço. Todos os fins-de-semana temos DJs diferentes. Ou seja, temos o nosso DJ residente que faz sempre a abertura, mas, depois, variamos todos os dias. É uma experiência diferente.
E estamos a desenvolver outras dinâmicas, como sunsets ao domingo.
Comunicam maioritariamente a nível digital!
Sim. Usamos muitas plataformas digitais, muita comunicação orgânica, que é o que nos tem trazido resultados mais rápidos, imediatos.
Aqui, apesar de tudo, o espaço ainda está numa fase muito embrionária e tem imenso potencial. Ainda não fizemos o décimo do que queremos fazer.
Sendo que a maior parte dos clientes são portugueses!
É muito curioso. Esta zona está cheia de turistas, mas passam ao lado.
Até agora, são mais clientes portugueses que vêm e voltam.
Por isso, a carta é muito portuguesa.
Temos, no interior, o Mural de Almada que retrata a ida da Comitiva Portuguesa a Roma pedir o aval do Papa. Inspiramo-nos sempre na viagem e procuramos sempre mostrar produtos de influência portuguesa no Mundo, assim como outros que trouxemos do Mundo para Portugal. É o caso do polvo à lagareiro, mas com caril de caju, ou os filetes de peixe galo, mas com uma tempura clássica japonesa crocante.
O nosso chef, o Pedro Amendola, é brasileiro, está em Portugal há quatro anos, e tem vindo a aprender imenso sobre gastronomia portuguesa.
Nesta época, temos uma carta mais fresca, de Verão, com muito peixe, clássica, mas com um toque autoral.
Para além de tudo isto, estão a investir num terceiro eixo…
… que é a parte dos eventos corporativos. Somos muito procurados para eventos corporativos, seja palestras, reuniões. Podemos ter vários espaços ou oferecer a totalidade.
Não podemos ser só um restaurante. Temos que estar sempre com dinâmicas diferentes para conseguir rentabilizar o espaço.
NOTA
Sobre o chef Pedro Amendola
Nascido no Brasil e formado em Tecnologia da Gastronomia pela Universidade
Católica de Santos, fez o seu percurso em cozinhas de referência em São Paulo: foi sous-chef do Evvai (duas Estrelas Michelin) entre 2017 e 2020 e integrou o Corrutela (Estrela Verde Michelin), onde evoluiu até chef executivo (2022–2024), participando na criação e execução de menus e na gestão operacional. Em 2024 assumiu a chefia executiva do Reia Collective/Casa Reia, liderando novos projectos e práticas de sustentabilidade, passou também pelo Arkhe (uma Estrela Michelin) como chef tournant, até que chegou ao Bonança, onde cruza essa base de alta gastronomia com uma cozinha contemporânea de inspiração portuguesa… ou não se dissesse um rendido às receitas que se fazem pelo nosso País.












