Opinião de Carolina Costa, designer da Republica
Tenho uma relação agridoce com a Inteligência Artificial. Uso-a. Reconheço o seu potencial. Sei que representa uma mudança difícil de ignorar na forma como trabalhamos e criamos.
Há momentos em que me permite chegar em minutos a lugares onde antes demoraria horas. E, ainda assim, nem sempre gosto da ideia da sua existência.
Não porque acredite que a tecnologia seja, por si só, inimiga da criatividade. Nem porque queira romantizar processos demorados só porque sempre foram feitos dessa forma. O meu desconforto começa noutro lugar: quando deixamos de usar a IA para apoiar aquilo que pensamos e começamos a usá-la para pensar por nós.
Enquanto designer, essa fronteira interessa-me particularmente. Se tenho uma ideia para uma campanha e utilizo IA para visualizar rapidamente como poderia funcionar num espaço, vejo uma ferramenta. Se tenho um conceito e a utilizo para testar uma direção visual antes de investir horas na sua execução, vejo eficiência. Se consigo automatizar uma tarefa mecânica e ganhar tempo para me concentrar no problema que realmente tenho de resolver, melhor ainda.
Mas se recebo um briefing e a primeira pergunta que faço é a uma máquina, “que ideias posso ter para isto?”, começo a sentir que alguma coisa mudou. Não necessariamente na ferramenta. Mas em mim.
A eficiência também pode ter um custo
Durante anos habituámo-nos à ideia de que trabalhar mais depressa é trabalhar melhor. E, em muitas situações, é verdade. Há pouco valor em gastar três horas numa tarefa que pode ser resolvida em dez minutos com a ferramenta certa.
Mas talvez nem todo o tempo que conseguimos eliminar de um processo criativo seja desperdício. Há um tempo desconfortável que existe antes de uma ideia.
Pesquisar. Observar. Experimentar. Associar duas referências que aparentemente não têm nada em comum. Desenhar uma coisa que não funciona. Voltar atrás. Questionar o briefing. Ter uma má ideia que, inesperadamente, conduz a outra melhor.
Tudo isso parece ineficiente. E talvez seja precisamente por isso que é tão fácil querer eliminá-lo. Hoje podemos escrever algumas linhas e receber dezenas de conceitos em segundos. Podemos gerar uma identidade, uma campanha, uma estratégia, um packaging ou uma imagem antes de termos tido tempo para formular verdadeiramente o problema.
É impressionante. Contudo, criatividade não é apenas o resultado final. É também uma capacidade que se desenvolve através do processo de chegar até ele. Se delegarmos repetidamente esse processo, podemos tornar-nos extraordinariamente rápidos a produzir e progressivamente menos treinados a pensar.
Não quero trabalhar sem IA
Seria fácil transformar esta reflexão num argumento contra a IA. Não é. Não quero voltar atrás.
Existem aplicações de IA que já considero extremamente úteis no meu próprio processo e acredito que continuarão a surgir ferramentas capazes de retirar peso às componentes mais mecânicas do trabalho criativo.
O que quero é conseguir decidir conscientemente qual é o trabalho que estou disposta a delegar. Quero que a IA me ajude a construir um mockup para visualizar uma ideia que tive. Quero conseguir testar mais rapidamente uma hipótese. Quero que organize informação, acelere processos, permita prototipar, explorar e visualizar. Quero, no fundo, que me poupe tempo de execução para poder ter mais tempo para pensar.
Não quero poupar precisamente o tempo de pensar. Porque é aí que, para mim, continua a estar uma parte fundamental do trabalho de um designer.
Quando todos conseguimos criar tudo
Há ainda outra inquietação. A IA está a democratizar capacidades que até há pouco tempo exigiam conhecimento técnico, tempo ou dinheiro. E isso tem um lado extraordinariamente positivo.
Mas significa também que estamos todos, cada vez mais, a partir de ferramentas semelhantes para procurar respostas para problemas semelhantes. Pedimos uma identidade para uma marca premium. Uma campanha para a Gen Z. Um conceito
disruptivo para uma nova empresa. Uma embalagem minimalista. Uma estratégia para diferenciar uma marca.
E recebemos respostas. Boas respostas, muitas vezes. O risco surge quando confundimos uma resposta competente com uma ideia relevante.
Se utilizarmos a IA apenas para nos indicar aquilo que é estatisticamente plausível, culturalmente reconhecível ou visualmente expectável, podemos acabar por produzir um mundo extremamente competente, mas estranhamente parecido.
Não porque a IA esteja condenada a criar coisas iguais. Uma ferramenta será sempre condicionada por quem a dirige, pelas referências que recebe e, sobretudo, pela capacidade de selecionar e transformar aquilo que devolve. Mas precisamente por isso, quanto mais acessível se torna a capacidade de produzir, mais importante se torna a capacidade de decidir.
Talvez o valor do designer esteja a mudar
Durante muito tempo, uma parte considerável do valor de um designer esteve inevitavelmente ligada à capacidade de fazer. Dominar ferramentas. Materializar ideias. Transformar um conceito numa imagem que outra pessoa não conseguiria produzir.
Essa barreira está a diminuir. É possível imaginar um futuro próximo em que praticamente qualquer pessoa consiga gerar uma fotografia tecnicamente perfeita, um vídeo cinematográfico, um logótipo competente ou um mockup impossível de distinguir de uma fotografia real.
Se todos conseguirmos fazer, talvez “saber fazer” deixe de ser suficiente para nos diferenciar. E talvez isso nos obrigue a regressar às perguntas mais importantes:
Porque é esta a ideia? Porque faz sentido para esta marca? Porque deve existir? Que problema resolve? Porque é diferente de todas as outras respostas igualmente bonitas que poderíamos ter gerado?
Nesse cenário, o pensamento estratégico não perde valor. Ganha-o. Porque uma ferramenta pode apresentar cem caminhos em segundos. Alguém continua a ter de
perceber qual deles vale a pena seguir, ou perceber que talvez nenhum valha. Talvez seja precisamente aí que reside o valor do designer.
A ferramenta não deve ocupar o lugar da intenção
Creio que é essa a fronteira que procuro estabelecer na minha própria relação com a IA.
Para mim, a questão não está entre usar ou não usar IA, mas em perceber quando a estamos a utilizar para ampliar o nosso trabalho e quando começamos a permitir que o substitua.
Quero uma IA que me permita executar melhor aquilo que pensei, que me confronte quando uma ideia não está suficientemente desenvolvida, que acelere aquilo que não beneficia de ser lento e que me permita visualizar coisas que antes estavam limitadas pela técnica, pelo tempo ou pelo orçamento.
Mas não quero que a facilidade de obter uma resposta me retire o desconforto de
procurar uma. Porque foi precisamente esse desconforto que passei anos a aprender a resolver.
E talvez o maior risco da IA no design não seja acordarmos um dia e percebermos que as máquinas se tornaram designers. Talvez seja percebermos que, perante a possibilidade de delegar cada vez mais partes do processo, fomos nós que deixámos gradualmente de querer sê-lo.
Este texto, ironicamente, também passou por uma ferramenta de IA. E talvez seja precisamente esse o ponto. A ideia não começou nela. A inquietação não é dela. A
posição não é dela. A ferramenta ajudou-me a organizar, questionar e desenvolver um pensamento que já existia. Não lhe pedi que me dissesse aquilo em que acredito.
E é essa parte que ainda quero guardar para mim.












