A L’Oréal Paris reforça em Portugal o seu compromisso no combate ao assédio em espaços públicos com o lançamento da campanha “Missed Opportunities”, integrada no programa global Stand Up, desenvolvido em parceria com a ONG Right To Be. A iniciativa surge na sequência de um estudo da IPSOS que evidencia a elevada prevalência de assédio no país e o impacto direto que este fenómeno tem na vida quotidiana das mulheres.
Por Sandra M. Pinto
Para compreender os objetivos da campanha, os dados que a sustentam e a estratégia da marca para promover mudança comportamental, falámos com Candice Lamoine, General Manager da L’Oréal Paris Espanha & Portugal, que explica como a marca pretende transformar sensibilização em ação concreta através de formação e ferramentas de intervenção segura.
O que motivou a L’Oréal Paris a lançar a campanha “Missed Opportunities” em Portugal?
A decisão foi motivada pela grave realidade revelada pelo nosso estudo: a situação em Portugal é, em alguns aspetos, mais crítica do que a média global. Enquanto 75% das mulheres a nível mundial já sofreram assédio de rua, em Portugal, esse número chega aos 80%. Ainda mais alarmante é o facto de 51% das mulheres portuguesas terem sofrido assédio só no último ano, um valor significativamente superior à média global de 39%. Através da campanha Missed Opportunities [Oportunidades Perdidas], a L’Oréal Paris quer dar visibilidade ao custo invisível deste comportamento e reafirmar o nosso compromisso com o programa Stand Up (em parceria com a ONG Right To Be), garantindo que as mulheres possam ocupar o seu lugar por direito nos espaços públicos.
De que forma esta iniciativa se integra no programa global Stand Up contra o assédio em espaços públicos?
O Stand Up é o nosso programa global a longo prazo, lançado em 2020, que já formou mais de 4,5 milhões de pessoas em todo o mundo. A campanha Missed Opportunities é o pilar temático deste ano. Esta desloca o foco da conversa de “apenas sofrer assédio” para as “consequências do assédio”. Integra-se no nosso objetivo global de chegar aos 5,5 milhões de pessoas formadas na metodologia dos 5D até ao final de 2026, fornecendo ferramentas concretas para combater um problema que continua a ser subestimado.
Porque escolheram o conceito de “oportunidades perdidas” como foco central da campanha?
Escolhemos este conceito porque o assédio de rua é muito mais do que um momento passageiro de desconforto; atua como uma barreira estrutural que restringe a liberdade e a autoestima da mulher. O nosso estudo em Portugal revelou uma realidade impactante: 43% das mulheres já recusaram eventos sociais, 20% oportunidades de formação e 21% oportunidades profissionais por medo; um valor que se situa ligeiramente acima da média global de 49%. Ao centrar a campanha nas Missed Opportunities [Oportunidades Perdidas], a L’Oréal Paris pretende destacar como o assédio força as mulheres a adotarem comportamentos que evitam exposição social, prejudicando a sua capacidade de ‘traçar o seu destino’. Através do programa Stand Up, queremos mudar esta narrativa, garantindo que o medo deixa de ser um obstáculo ao potencial das mulheres ou ao seu lugar de direito nos espaços públicos.
O estudo da IPSOS revela que 80% das mulheres em Portugal já sofreram assédio público. Estes dados surpreenderam a marca?
Embora já soubéssemos que o assédio de rua é um problema global, os dados referentes a Portugal são particularmente impactantes. Constatar que 80% das mulheres já foram vítimas (em comparação com os 75% a nível global) e que a prevalência recente (nos últimos 12 meses) se situa 12 pontos percentuais acima da média global (51% vs. 39%) funcionou como um verdadeiro apelo à ação. Isto confirma que o programa Stand Up é mais necessário do que nunca em Portugal, para mudar mentalidades e disponibilizar formação em segurança.
Como explicam que o assédio seja a principal preocupação das mulheres em Portugal, acima de outras questões como a igualdade salarial?
Em Portugal, 50% das mulheres identificam o assédio sexual como o problema mais grave que enfrentam, um valor superior à média global de 49%. Este tema surge à frente da própria igualdade salarial (39%). Isto explica-se pelo impacto imediato na integridade física e mental (que afeta 54% das vítimas). Se uma mulher não se sente segura no simples ato de caminhar para o trabalho ou para a escola, a sua capacidade de atingir objetivos profissionais ou de exigir igualdade salarial fica fundamentalmente comprometida. A segurança é a base do empoderamento feminino, e é por essa razão que o programa Stand Up é central na missão da nossa marca.
Que leitura fazem do impacto particularmente elevado entre mulheres com menos de 35 anos?
As mulheres mais jovens são os principais alvos. Em Portugal, uns impressionantes 89% das mulheres com menos de 35 anos já sofreram assédio ao longo da vida, e 96% relatam que isso tem um impacto direto nas suas vidas (em comparação com 83% da população feminina portuguesa em geral). Esta é a geração que perde mais oportunidades (62% recusam oportunidades devido ao medo). Isto reforça a nossa urgência em levar a formação Stand Up às universidades e às plataformas digitais, onde este público é mais ativo.
De que forma o medo do assédio condiciona a vida diária, as escolhas e as oportunidades das mulheres?
O medo leva a um estado de vigilância constante. Em Portugal, 74% das mulheres evitam determinados locais e 73% evitam ficar na rua até tarde. Além disso, 63% adaptam o seu vestuário e aparência para ‘evitar problemas’. Estas não são meras escolhas; são estratégias de sobrevivência que resultam em Missed Opportunities [Oportunidades Perdidas]. Através do L’Oréal Paris Stand Up, queremos passar de uma cultura de “evitar” para uma cultura de ‘intervenção e apoio’.
Porque é que tantas pessoas que testemunham assédio não intervêm, apesar da intenção declarada de o fazer?
Existe um enorme desfasamento entre a intenção e a ação. Embora 89% das pessoas em Portugal afirmem que interviriam em casos graves, apenas 63% das que testemunharam um incidente o fizeram efetivamente. O estudo mostra que as barreiras são claras: 85% temem que o agressor se torne violento e 90% concordam que há falta de formação sobre como intervir em segurança. É exatamente esta ‘lacuna de literacia’ que o programa Stand Up pretende colmatar.
Que tipo de formação ou ferramentas o programa Stand Up oferece para incentivar a intervenção segura de testemunhas?
O “coração” do Stand Up é a metodologia dos 5D, desenvolvida em parceria com a04ONG Right To Be: Distrair (desviar a atenção do agressor para proteger a vítima), Delegar (pedir ajuda a alguém próximo ou a uma figura de autoridade), Documentar (registar de forma segura o que está a acontecer), Dirigir (intervir diretamente, sempre que seja seguro fazê-lo) e Dialogar (apoiar a vítima e fazê-la sentir-se segura e amparada). Trata-se de cinco ferramentas simples, seguras e eficazes que permitem às testemunhas intervir sem se colocarem necessariamente em perigo. Em Portugal, 28% das pessoas que não intervieram afirmaram que ‘não sabiam o que fazer’. A metodologia dos 5D colmata precisamente essa falta de conhecimento.
Como pretende a L’Oréal Paris garantir que esta campanha tem impacto real e não se limita apenas à sensibilização?
O impacto mede-se através da formação: atualmente, 30% das pessoas em Portugal conhecem o programa Stand Up (um valor ligeiramente abaixo da média global de 34%). No entanto, 88% manifestam vontade de realizar esta mesma formação. Estamos a concentrar os nossos esforços em tornar a formação dos 5D acessível a todas as pessoas em Portugal, garantindo que a campanha Missed Opportunities [Oportunidades Perdidas] resulte numa sociedade mais preparada e que deixe de ignorar o assédio.














