Opinião de Francisco Morgado Véstia, Global Director of Strategic Communications & Business Development na SAMY
“Um em dash (—) é um sinal de pontuação mais longo que um hífen, usado para criar uma pausa forte, separar informações adicionais ou indicar uma interrupção”, diz o queridíssimo do Gemini que agora existe anexado a quase todas as minhas pesquisas no Google.
Não sou um velho do Restelo, embora seja de facto velho, e viva perto do Restelo. Pelo menos no que respeita à adoção de ferramentas de inteligência artificial. Sou, aliás, ávido defensor de tudo o que nos torna mais eficientes e principalmente mais felizes no nosso trabalho.
Antes deste texto estar terminado e entregue à Maria João (que achou mesmo que era boa ideia deixar-me publicar coisas disfarçado pela credibilidade da Marketeer) o mesmo lhe chegará às mãos (vá ao Whatsapp, ou ao e-mail. Mas também não interagimos com as nossas mãos para os aceder? Os dedos não são parte da mão? Deixem de ser digitalo-fóbicos) confesso que terá algures no seu processo da criação à finalização, sido tocado e informado por alguma forma de inteligência artificial.
Ganhamos com esta verdade, para além da transparência no processo para o caro leitor, a certeza de que este texto que agora está a ler teve alguma espécie de inteligência envolvida. Não prometo este tipo de exigência qualitativa para futuras iterações.
Mas este tacanho do “em dash”, o porreiro do travessão, o malandro do hífen teclado duas vezes. Caramba. Esta muleta de sofisticação queirosiana já era minha ainda antes do Sam Altman simular golpes palacianos na OpenAI. Agora fico sempre obrigado a ter de dar uso ao “Find” para caçar tudo o que seja linha horizontal que me denuncie como um preguiçoso engenheiro da prompt.
A “aversão” ao que é produto de inteligência artificial, seja em texto, imagem, vídeo ou som, começa a ganhar tração. Afinal, nós, que andamos nisto de traduzir as mensagens de marca em “conteúdo” (desculpem, escrevi a palavra “conteúdo” e tenho de ir acender uma velinha ao São Bernardino de Sena), temos de sentir algum pulso à “cultura” (desculpem, escrevi “cultura”, portanto tenho de acender outra ao São Isidoro de Sevilha). Se dá noutro apagão ibérico, fico às escuras, mas perdoado.
Se há uma aversão crescente a tudo isto, lá temos nós de limpar as pistas do nosso pecadilho digital de querer encontrar “eficiências”.
A J. Crew viu-se obrigada a pedir desculpa pela campanha que fez para assinalar a sua colaboração com a VANS. Numa tentativa de recriar os seus famosos catálogos, acabou por fazer uma sessão fotográfica, em que o pé do protagonista põe em causa tudo o que sabemos sobre limites de rotação do tornozelo.
Eu não me torço todo a esse ponto, mas dou o braço a torcer que lá vou ao “Find” à caça de linhas horizontais.












