Os primeiros passos e os animais de companhia – Uma nova etapa

O recém-nascido que chegou a casa há uns meses começa a ganhar autonomia e os estímulos, que antes eram impossíveis de alcançar, ficam agora à distância de uns segundos

 Gatinhar e dar os primeiros passos marca o início de uma nova etapa no desenvolvimento da criança. Tudo à sua volta são oportunidades para explorar. Tudo é uma novidade que lhe suscita curiosidade. Esta é uma fase igualmente desafiante para os outros elementos da família, que terão de redobrar a atenção e os cuidados para garantir que o bebé se mantém em segurança.

E quando destas famílias fazem parte animais de estimação? Os benefícios são infindáveis, mas é preciso ter determinados cuidados nas interacções entre crianças e animais. Os pais, e outros adultos, devem estar preparados para gerir estas interacções, de forma a evitar eventuais surpresas e reduzir ao máximo o risco de acidente e o desconforto do animal. Em cada situação é fundamental considerar e respeitar as diferentes perspectivas e limites do bebé e do animal, para que ambos possam usufruir da companhia um do outro. Como exemplo, podemos imaginar o que será para o bebé agarrar uma cauda a abanar… pura diversão! Ou a possibilidade de dar um abraço… manifestação de afecto! Mas, para um cão ou um gato, as duas situações são vividas de forma diferente e podem ser muito desconfortáveis e, até, mesmo assustadoras.

Cada caso é um caso e cada família é única, no entanto, algumas regras devem ser seguidas sem excepção, para que a família multiespécie cresça em harmonia.

Supervisão a 100%

Tudo o que aconteça nesta fase é da responsabilidade dos adultos. Nunca deixe um bebé e um animal sozinhos. É fundamental a presença de um adulto que garanta a segurança do bebé e do animal. Mesmo que sem intenção podem magoar-se. O bebé tem movimentos descoordenados e imprevisíveis, que podem causar dor ou medo. Por outro lado, o animal, devido a desconforto ou numa brincadeira mais intensa, pode magoar o bebé. Cabe ao adulto mediar essas interacções e assegurar que os limites são respeitados, evitando empurrões, dentadas ou arranhadelas.

Comunicação não verbal

Tal como os bebés, o cão e o gato não nos dão informação sobre o que pensam ou sentem através de palavras. São as expressões faciais e as posturas corporais que nos dizem o que sentem e nos indicam de que forma devemos intervir. É essencial saber reconhecer e interpretar os sinais que cães e gatos utilizam para comunicar se estão a gostar ou se estão desconfortáveis. Alguns são bastante evidentes, como afastar-se ou rosnar. Nestes casos não restam dúvidas e é necessário interromper a interacção. Outros são bem mais subtis e discretos, como evitar o contacto visual directo, bocejar ou lamber o nariz. Sejam quais forem os sinais, a criança não sabe interpretá-los, podendo mesmo agir de forma oposta ao desejável. Um cão a rosnar mostra os dentes, o que pode ser interpretado pelo bebé como um sorriso, levando-o a aproximar-se quando a mensagem é para que se afaste. Mais uma vez, cabe ao adulto presente a tarefa de gerir os diferentes interesses e evitar que situações de conflito escalem para uma agressão.

Vínculo entre bebé e animal

A presença do bebé deve ser associada a algo de positivo desde o primeiro dia. Momentos agradáveis devem ocorrer na presença da criança, para que o animal se sinta confortável e aprecie a sua presença. Assim que possível, o bebé pode ser envolvido nesses momentos. Interacções positivas entre ambos devem ser estimuladas. Sessões de festas ou jogos em conjunto serão excelentes oportunidades para se conhecer melhor e criarem uma relação. Poderá ser o início de uma longa amizade!

Reforçar bons comportamentos e não castigar

“Dizer-lhes”, tanto ao bebé como ao animal, que se estão a comportar bem reforçando o seu comportamento, é mais fácil e tem efeitos positivos associados. Por sua vez, ensinar com base na punição é perigoso e bastante limitado. Para além de não orientarmos para o que pretendemos, pode causar medo e ansiedade, prejudicando a relação com o adulto e com o bebé. Por exemplo, o bebé aproxima-se do gato, que reage a soprar, estando desta forma a comunicar que está com medo e que os seus limites estão a ser ultrapassados. A situação é demasiado desconfortável. Se castigarmos o gato por considerarmos que é uma reacção inaceitável, só vamos aumentar esse desconforto e, da próxima vez que a criança se aproximar, provavelmente teremos uma resposta ainda mais intensa por parte do gato, podendo chegar a dar uma patada ou morder.

Atenção: a maior parte do que se considera mau comportamento é apenas reflexo de alguma necessidade que não está a ser satisfeita ou limites que não estão a ser respeitados. Vale a pena analisar e perceber o que os está a motivar, de forma a intervir da forma mais acertada. Caso contrário, corremos o risco de piorar o comportamento.

Ensinar truques

Ter os nossos cães e gatos treinados para sentar, dar a pata ou deitar é uma excelente ferramenta para ajudar a que se sintam confortáveis na presença da criança. O treino positivo é divertido e eficaz. É um verdadeiro jogo que dá oportunidade para melhorar a comunicação e partilhar momentos agradáveis. Mas as vantagens não se ficam por aqui. Alguns animais não sabem o que fazer em determinadas situações. Se forem feitos exercícios na presença do bebé, ele vai estar a fa zer uma associação positiva e, para além disso, estamos também a “dizer-lhes” o  que desejamos que façam na presença do bebé. Quanto mais cedo começar melhor! O mesmo se aplica ao treino, que pode ser feito para se habituarem a ser manipulados. Tolerar que mexam nas orelhas, o toque no corpo ou a manipulação da cauda são exemplos de situações que são úteis no contexto da visita ao veterinário e também no convívio com crianças, o que inevitavelmente envolve carícias, mais ou menos, desajeitadas. Se o animal ao ser manipulado se mantiver calmo, deve receber algo agradável. No que toca à criança, assim que possível, deve ser ensinada a fazer festas e a aproximar-se do animal. Os toques suaves devem ser elogiados, enquanto os mais intensos devem ser evitados. Uma aproximação de frente pode ser percebida como uma ameaça e por trás pode assustar o animal. A aproximação e o toque devem ser feitos de lado ao nível do dorso.

Respeitar limites

As crianças e animais devem ser ensinadas a interagir respeitando limites. Cães e gatos não são almofadas nem trampolins, por isso nunca se deve permitir que a criança agarre, salte, abane ou se deite em cima. Embora alguns tolerem, eles não gostam deste tipo de interacção. Se alguns animais deixam que as crianças mexam nos seus brinquedos e comida, outros podem ficar realmente incomodados e manifestar agressividade e até atacar. Para evitar conflitos e situações desagradáveis é importante deixar bem claro que algumas coisas não são para mexer. Muito frequentemente mostram o seu desagrado com sinais subtis que é importante reconhecer e interpretar. Na lista dos “nunca”, devemos incluir: nunca abraçar, nunca dar beijos, nunca puxar a cauda ou outra parte do corpo, nunca pegar ao colo, nunca perturbar enquanto dorme, nunca tirar comida ou objectos da boca. Por outro lado, o animal deve ser mantido tranquilo e ensinado a aproximar-se de forma a evitar encontrões, que podem magoar ou assustar a criança.

Ensinar as crianças a comportarem-se com os animais de família é torná-las mais capazes de interagir em segurança com outros animais que encontram noutros contextos.

Artigo publicado na revista Kids Marketeer nº4 de Junho de 2018.

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