O sucesso e o medo do fracasso

Por Susana Albuquerque, directora Criativa da Uzina

O mundo divide-se entre gente que gosta de dançar e gente que foge da pista a sete pés. Se o leitor é dos dançarinos, é provável que já tenha dançado ao som de “Daft Punk Is Playing at My House” dos LCD Soundsystem.

“Shut Up and Play the Hits” é o nome de um documentário sobre o fim desta banda nova-iorquina de dance-rock dos anos 2000 que, em 2011, no auge da sua popularidade, decidiu pôr um fim à sua existência e celebrar o feito com um último concerto no Madison Square Garden. O documentário é um resumo das três horas do espectáculo final e acompanha James Murphy, frontman e vocalista da banda, nesses dias.

James Murphy tem 52 anos agora. Foi uma estrela tardia mas com uma carreira longa: teve várias bandas sem sucesso quando tinha 20 anos, recusou escrever para a equipa inicial de Seinfeld por amor à música, foi produtor, é DJ, criou a editora DFA e só quando chegou aos trintas é que conseguiu ser estrela de rock.

No documentário, durante esses dias do funeral auto-imposto dos LCD, e que a própria banda descreve como “se é para fazer um funeral, que seja o melhor de sempre”, James Murphy hesita quando lhe perguntam qual foi o maior fracasso da sua vida. E responde, por fim, que talvez tenha sido acabar com os LCD antes do tempo, e tê-lo feito por medo do fracasso.

Não é curioso? Alguém dedicar metade da sua vida à música e desmantelar uma banda de sucesso só porque tem medo do fracasso?

Noutra entrevista, acrescenta ainda: “Quando eu tinha trintas, prometi que me retirava quando tivesse quarentas, e agora tenho quarenta. Se continuar a fazer o mesmo, começo a sentir-me um profissional. Já escrevi algumas das minhas melhores canções. Não me quero repetir. Qual é o próximo objectivo? Ter mais sucesso? O próximo objectivo agora será ganhar mais dinheiro, e isso não é assim tão interessante.”

Dei comigo a pensar como é comum lermos sobre como lidar com o fracasso, não nos faltam livros de auto-ajuda para isso, porque sabemos que as derrotas fazem parte da vida. Mas lidar com as vitórias também dá o seu trabalho e para isso há menos literatura. O que fazer depois de cumprirmos um objectivo muito desejado? O que acontece depois daqueles raros minutos em que saboreamos uma vitória?

Quando trabalhamos para uma meta e a alcançamos, o mais provável é substitui- la automaticamente por outra, quase sem saborear a conquista. Tentamos que a próxima meta seja diferente, que seja uma montanha mais difícil de subir, nem que seja para não nos aborrecermos. Gostamos de sentir o desafio e a dificuldade para nos sentirmos motivados. Não conheço motor mais potente, são as contrariedades que nos empurram para querer cumprir um objectivo. A mãe de todas as motivações é querermos algo que não temos.

Mas o que fazer depois de alcançarmos o que procurámos?

No caso dos LCD Soundsystem, e depois de decidirem separar-se, James Murphy trabalhou com outras bandas, escreveu música para filmes e abriu um bar de vinhos. Até confessar, em 2016, que nos últimos cinco anos tinha escrito muitas músicas novas e que por isso os defuntos LCD iam renascer, iam lançar um novo disco e iam voltar à estrada, por muito que isso decepcionasse aqueles que os tinham chorado no funeral de 2011.

Com o seu sentido de humor honesto, Murphy confessava: «Tive a sorte de começar esta banda já gordo e velho, por isso não corro o risco de agora virem dizer na internet “vejam só como eles eram novos na altura”. Sim, éramos mais novos, mas não éramos novos.» Talvez essa seja a melhor forma de superar a obsessão com as metas e a ganância infinita do sucesso. Tendo gosto pelo que se faz e praticar a leveza e a graça.

Artigo publicado na edição n.º 313 de Agosto de 2022

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