Insectos comestíveis estão a ganhar terreno em Portugal

Serão os insectos o futuro da alimentação? Algumas empresas, incluindo em Portugal, acreditam que sim, dando ainda mais força à orientação da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO). Esta entidade sugere que os insectos sejam integrados nas refeições enquanto fonte de proteína, ajudando a reduzir o consumo de carne e peixe.

O tema será debatido na conferência que a Portugal Insect está a organizar no âmbito do Dia Mundial do Insecto Comestível, marcada para o próximo sábado, dia 26, na Nova School of Business and Economics. A Portugal Insect é uma associação criada em Maio do ano passado e que junta os produtores e transformadores portugueses de insectos, contando actualmente com 12 associados.

Rui Nunes, presidente da direcção da Portugal Insects, explica à Marketeer que ainda não é legal comercializar insectos para alimentação humana em Portugal, mas garante que são já várias as empresas interessadas em seguir por este caminho. Em antecipação da conferência do próximo fim-de-semana, o responsável revela como se está a desenvolver este mercado no País.

Em que fase está a utilização de insectos na alimentação em Portugal?

De momento ainda não é permitida a comercialização de insectos para alimentação humana em Portugal, mas ainda assim, este aspecto não demoveu algumas empresas de aceitarem o desafio de desenvolver produtos para entrarem no mercado logo que possível.

Qual é o enquadramento legal?

A utilização de insectos na alimentação humana está abrangida pelo Regulamento UE 2015/2283 (novos alimentos). De acordo com este Regulamento, um novo alimento só pode ser introduzido no mercado da UE depois da Comissão Europeia tomar uma decisão, baseada num parecer da EFSA. Esse processo é desencadeado pela submissão de um dossier onde o operador económico terá que demonstrar a segurança do novo alimento para os futuros consumidores.

Infelizmente, este enquadramento legal criou situações de excepção que foram aproveitadas por alguns países da UE – quanto a nós, de forma abusiva – para se anteciparem na entrada no mercado. Temos por isso, neste momento, uma UE a duas velocidades. Enquanto os operadores de alguns países desenvolvem e comercializam os seus produtos livremente, os dos restantes – onde Portugal se inclui – investem em desenvolvimento, sem poder nesta fase obter qualquer proveito com a comercialização.

Os insectos são o futuro da alimentação?

De acordo com o paper “Edible insects: Future prospects for food and feed security, editado pela FAO em 2013, pode dizer-se que são uma fonte alternativa de proteína animal com um potencial muito grande para fazer parte da nossa dieta regular. Isto porque, também segundo a FAO, os insectos têm um perfil nutricional muito interessante, dado o seu alto teor proteico e, simultaneamente, têm um impacto ambiental muitíssimo mais baixo que as fontes de proteína animal a que estamos habituados, como por exemplo a vaca, o porco ou o frango.

Quais são os insectos mais utilizados na alimentação?

Estão identificadas mais de 2000 espécies de insectos comestíveis. De entre estes, têm sido escolhidos os que representam o melhor compromisso entre o perfil nutricional e a facilidade de produção industrial. Destacam-se várias espécies de grilos, a larva do besouro (Tenebrio molitor) e os gafanhotos.

Quais são os principais desafios?

São três os grandes desafios que se colocam ao sector:

  • a reacção adversa dos consumidores, uma vez que todos fomos educados a olhar para os insectos como contaminantes e não como alimentos. A Portugal Insect tem organizado ou participado em eventos de sensibilização do público em geral, para a reintrodução dos insectos em alimentação humana. O Dia Mundial do Insecto Comestível é um exemplo desses eventos;
  • as barreiras legais, que a Comissão Europeia tarda em resolver de forma justa para todos os países da UE;
  • o ganho de dimensão, que permita um efeito de escala e a consequente redução dos preços de mercado.

 

Já existem marcas a olhar para esta alternativa e a desenvolver produtos?

Na sequência do paper da FAO, têm surgido projectos um pouco por toda a Europa e América do Norte focados na incorporação de insectos em alimentos processados.

Portugal não é excepção, havendo produtos prontos para entrar no mercado, embora no nosso caso – e contrariamente a vários países da UE – essa entrada aguarde ainda a luz verde da Comissão Europeia.

Onde podemos comer insectos em Portugal?

Dado o enquadramento legal europeu, não é ainda possível comer insectos em Portugal. Nas acções de sensibilização/divulgação que a Portugal Insect tem promovido ou para as quais tem sido convidada, temos disponibilizado gratuitamente insectos e alimentos com insectos para degustação dos participantes. Esta disponibilização só é, no entanto, possível mediante autorizações pontuais e absolutamente excepcionais,por parte da Direcção-Geral de Alimentação e Veterinária.

Apesar de indicarem que é proibida a comercialização, já foram conhecidos casos de marcas a vender insectos (como topping de gelados, por exemplo). Como explicam isto?

Assumindo que se referirão ao topping lançado em 2019 pela MyIced, tanto quanto sabemos já não está disponível. Sublinhamos que a MyIced é um dos participantes na sessão de degustação que decorrerá no evento de dia 26, pelo que os seus gelados com topping de Tenebrio molitor poderão ser aí experimentados de forma legal, ao abrigo da autorização excepcional concedida pela DGAV para o evento.

A associação conta com quantas empresas neste momento?

A Portugal Insect conta actualmente com um total de 12 associados, das quais 9 correspondem a projectos de natureza empresarial. Admitimos, no entanto, que haja outros projectos, que não integram ainda a Portugal Insect. E isto porque somos regularmente contactados por quem pretende iniciar-se na produção de insectos para alimentação humana ou animal.

Qual é o valor deste mercado?

Estando a abertura do mercado nacional ainda a aguardar luz verde da Comissão Europeia – o que significa que não há trocas comerciais – estamos, portanto, perante um sector em nascimento.

Para termos uma noção da dimensão global expectável, há projecções de consultoras internacionais que apontam para um mercado global de insectos comestíveis (somente na vertente da alimentação humana) que atingirá entre 700 e 1000 milhões de dólares entre 2023-2024.

Portugal tem condições particularmente vantajosas para ser um produtor relevante, tendo em conta, por um lado, as nossas condições climatéricas (vantagem face a países mais a Norte) e, por outro, a nossa credibilidade em matéria de segurança alimentar (vantagem face aos países orientais).

Texto de Filipa Almeida

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