Fórum Marketeer: «O que é sustentável não deve ser mais caro»

A sustentabilidade está a mudar negócios e terá cada vez mais relevância económica, de bens e ambiental. No entanto, Pedro Miguel Silva, associate partner na Deloitte, explica que as empresas não podem ser consideradas sustentáveis se apenas cumprem as suas obrigações.

O responsável, que interveio no Fórum Marketeer “Quando a sustentabilidade muda os negócios”, que decorreu no Hotel Dom Pedro, em Lisboa, justificou esta afirmação referindo que as empresas necessitam de gerar valor com as práticas sustentáveis. «Cumprir os requisitos de sustentabilidade não é ser sustentável: é cumprir a lei. Para terem esse estatuto, é necessário fazer mais que as suas obrigações», explica.

Pedro Miguel Silva refere que as empresas devem mudar os seus mindsets, adoptando compliances como oportunidades, desenhando produtos, serviços e cadeias de valor sustentáveis, como novos modelos de negócio, criando, assim empresas «next-practice». O responsável destaca as empresas multinacionais, referindo que têm a oportunidade de fazer a diferença em prol da sustentabilidade, pois a relação que têm com o público permite que sejam os grandes agentes da mudança, promovendo valores como a inclusão, a diversidade ou a igualdade de géneros. «Se uma empresa está apenas preocupada com lucros, está somente a fazer gestão», vinca.

A concluir, Pedro Miguel Silva destacou a organização B Company, entidades que decidiram abandonar o seu plano A, mudando o rumo e as suas estratégias de forma a serem proactivas no campo da sustentabilidade.

A electricidade e o fim do plástico

O tema das B Company deu mote ao arranque da segunda parte do fórum, em que se encontrava precisamente a representante de uma destas empresas, a Unilever. Teresa Burnay, directora de Comunicação e directora de Marketing (Beleza e Higiene) da Unilever, reiterou que toda a política corporativa assenta na sustentabilidade e que «não há nenhum projecto que seja aprovado se não tiver valor acrescentado em termos de sustentabilidade».

Presente numa mesa redonda moderada por Maria João Vieira Pinto, directora de Redacção da Marketeer e Executive Digest, a profissional acrescentou que o propósito da empresa é “Make Sustainability a Common Place”, ou seja, tornar a sustentabilidade um lugar-comum. Além dos produtos que desenvolvem, a máxima está a ser aplicada também aos próprios escritórios e até à frota automóvel, ainda que esta última esteja oferecer mais resistência: a migração para veículos híbridos já começou mas o processo ainda não está concluído, uma vez que as infra-estruturas presentes no mercado não estão suficientemente preparadas para este tipo de opção de mobilidade.

Neste momento, Ricardo Tomaz, director de Marketing Estratégico e Relações Externas da SIVA, entra na conversa para reafirmar que este é um problema na adopção de automóveis eléctricos. Contudo, o carro do futuro terá mesmo de ser eléctrico, «não porque o consumidor peça mas porque vai ser preciso», a nível regulamentar e legislativo, por exemplo, tendo em conta as alterações climáticas e escassez de recursos. «Daqui a três anos, os níveis de CO2 vão ter de ser 30% inferiores aos de hoje», acrescenta o responsável, indicando ainda que a Volkswagen, uma das marcas do grupo, vende, actualmente, 100 mil carros eléctricos em todo o mundo; em 2025, terá de vender um milhão ou 1,5 milhões para cumprir as metas, o que representará 25% das vendas da insígnia.

De um mundo sem fumo devido à redução da utilização dos combustíveis fósseis para um mundo sem fumo de tabaco, Miguel Coleta, director de Sustentabilidade da Philip Morris International, garante que a empresa dona da Tabaqueira em Portugal está a fazer a sua parte. Já foram investidos mais de quatro mil milhões para acabar com o fumo, estando envolvidos cerca de 400 cientistas na investigação necessária para cumprir o objectivo. «O mundo está a mudar e existem forças poderosas que estão a alterar os negócios. As alterações climáticas não são teorias e as empresas que não perceberem isto não vão estar cá», alerta Miguel Coleta.

O plano da Philip Morris passa por investir no desenvolvimento de alternativas que diminuam o risco para os consumidores e nas quais os mesmos estejam interessados, como é o caso do tabaco aquecido. Em apenas dois anos, a Philip Morris conseguiu que as alternativas sem fumo representassem 4% do total de produtos vendidos, estando à venda em apenas alguns países.

José Ataíde, antigo director de Sustentabilidade e actual responsável pela iniciativa Industry 4.0 da The Navigator Company, encara a questão da sustentabilidade sob o ponto de vista da floresta. Na sua opinião, o papel poderá substituir as embalagens de plástico e as árvores poderão ajudar no sector dos transportes através do biocombustível, por exemplo. E garante: «Temos floresta para isto tudo!»

José Ataíde deixa, ainda, uma visão menos radical  sobre o tema petróleo: «Não vamos conseguir acabar com o petróleo, mas há formas de equilibrar e de retirar o CO2 provocado pelo mesmo.» O responsável não acredita que seja possível substituir o petróleo por completo (pelo menos, não a médio-prazo) e que é importante encontrar mecanismos e processos para minimizar os seus malefícios para o ambiente.

A par do petróleo também o plástico é visto como um dos grandes problemas do século. Neste caso, Teresa Burnay avança que a Unilever tem uma meta bem definida para 2025: todo o plástico utilizado deverá ser reciclável, reutilizável ou compostável. Não é o fim do plástico, mas é o fim do plástico com o conhecemos.

E serão estas novas opções mais caras? A responsável da Unilever garante que, pelo menos, não deveriam ser: «O que é sustentável não deve ser mais caro, não deve ser um benefício extra. As empresas têm de se focar na redução de custos e não no aumento dos preços.» A Philip Morris fez precisamente isto, uma vez que os novos produtos sem fumo apresentam um custo semelhante ao tabaco tradicional.

O papel do Governo na Indústria do Futuro

720 milhões de euros. É este o valor global das dotações financeiras concedidas nos últimos 16 meses pelo Governo português, no âmbito do programa Indústria 4.0, em particular através do Compete 2020. O balanço foi feito por Ana Teresa Lehmann, secretária de Estado da Indústria, que encerrou o fórum organizado pela Marketeer.

De acordo com a secretária de Estado, mais de 80% das 60 medidas previstas no programa Indústria 4.0 – em áreas como a formação, tecnologia, financiamento ou internacionalização – já foram executadas ou estão em fase de execução. Com duração até 2020, o programa tem como objectivo, entre outros, permitir requalificar e formar mais de 20 mil trabalhadores na área de competências digitais.

A responsável destacou a importância deste projecto para as empresas nacionais, no sentido de apoiar a transição das mesmas para modelos de negócios mais sustentáveis. «A sustentabilidade não é uma moda, uma buzzword ou um chavão para ficar bem nos relatórios das empresas. É uma necessidade», alertou Ana Teresa Lehmann. «A sustentabilidade é competitividade, no sentido em que é fundamental para as empresas que querem estar na linha da frente. Gera reputação, fideliza, protege o ambiente e aumenta a satisfação dos trabalhadores», reiterou.

Além do Indústria 4.0, a secretária de Estado citou ainda outros projectos liderados ou apoiados pelo Governo que têm como objectivo acelerar a criação da “Indústria do Futuro”. É o caso do PAEC – Plano de Ação para a Economia Circular, que tem ajudado indústrias como a têxtil ou a do calçado a acelerarem processos de economia circular; do Shoe Future, um projecto de formação profissional para a fileira do calçado; ou do Projecto Interface, que procura estreitar relações entre o mundo empresarial e a ciência. «A 4.ª revolução industrial é sustentável – baseia-se na inovação, na eficiência, na robotização, automação e tecnologias limpas», concluiu Ana Teresa Lehmann.

Texto de Daniel Almeida, Filipa Almeida e Rafael Paiva Reis

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