Opinião de Ivo Gomes, CEO da MOB Agency
Durante décadas, o bom gosto foi um luxo no marketing. Era a cereja em cima do bolo de quem já dominava as ferramentas. Era o extra que separava o bom profissional do excecional.
Hoje, as ferramentas dominam-se sozinhas. O bolo está a desaparecer. Sobra só a cereja, que afinal era o que importava.
A IA democratizou a competência. Qualquer pessoa, em qualquer ponto do mundo, pode produzir copy aceitável, design aceitável, estratégia aceitável, em poucos minutos, por poucos euros.
O nível médio do trabalho subiu. E ao subir, deixou de ser vantagem.
Não é preferência pessoal. Não é ter olho bonito. É julgamento sob incerteza. Não se prova, não se justifica em reunião, e não cabe num dashboard. É bom gosto. E é, neste momento, o ativo mais valioso que um profissional de marketing pode ter. A resposta antipática é que não se aprende em curso nenhum.
Treina-se com tempo, exposição e atenção. Vê-se muito, consome-se durante muitos anos, com a cabeça ligada. Copia-se com honestidade. Falha-se com método. Viaja-se. Vive-se. Está-se perto de pessoas com bom gosto durante o tempo suficiente para perceber porque é que decidem o que decidem. Não há atalho. Não há bootcamp. Não há prompt mágico que substitua dez mil horas a olhar para campanhas, marcas, embalagens, sites, anúncios, capas de álbuns, filmes, séries, restaurantes.
Gosto muito de uma frase de Kobe Bryant, que disse que para se tornar melhor em basquetebol, tornou-se estudante do mundo.
A maior parte das pessoas vê. Quase ninguém repara. E é por isso que o bom gosto se está a tornar tão raro. Não porque seja difícil de adquirir, mas porque exige um tipo de paciência que está em extinção. Numa cultura que valorizou output, o trabalho silencioso de absorção parece tempo perdido. Não tem entregável. Não cabe num relatório semanal. Não se mete num portfólio. Mas é o que separa quem vai ter relevância nos próximos dez anos de quem vai ser substituído pela próxima atualização do modelo.
Isto são boas notícias para quem já o tem.
Durante muito tempo, esta indústria viveu de uma cumplicidade silenciosa. O cliente ou diretor da empresa do cliente queria meter o gosto pessoal dele. O profissional aceitava, apesar de se queixar nos bastidores, porque era mais fácil executar do que defender.
Não falta muito para chegarem os dias em que o cliente paga para alguém escolher melhor.
Bom gosto deixou de ser luxo. Passou a ser sobrevivência.












