“Identidade não é uma imagem, é um sistema”: o novo ADN visual do Alkantara Festival 2026

EntrevistaFacebook
Sandra M. Pinto
07/08/2026
16:05
EntrevistaFacebookLinkedin
Sandra M. Pinto
07/08/2026
16:05
“Identidade não é uma imagem, é um sistema”: o novo ADN visual do Alkantara Festival 2026

Partilhar

Numa altura  em que as marcas culturais competem por relevância num ecossistema cada vez mais global e visual, o design assume um papel central na forma como festivais se posicionam, comunicam e constroem identidade. Mais do que uma camada estética, é hoje um território estratégico onde conceito, narrativa e experiência se cruzam.

Escolha a Marketeer como fonte preferida no Google Escolher ›

Por Sandra M. Pinto

É neste cenário que surge o trabalho de João Castro, do The Royal Studio, e Ana Resende, do Ana Resende Studio, responsáveis pela identidade gráfica do Alkantara Festival 2026. Com uma abordagem que privilegia o design enquanto sistema vivo, em constante diálogo com a programação e com o contexto contemporâneo, os dois criativos têm vindo a consolidar uma linguagem visual que ultrapassa o registo convencional e afirma o festival no panorama cultural, nacional e internacional. Nesta entrevista, exploramos de que forma o design pode funcionar como extensão da curadoria artística, como se constrói consistência sem perder capacidade de reinvenção e qual o papel da identidade gráfica na criação de uma marca cultural verdadeiramente distintiva.

Continue a ler após a publicidade
Continue a ler após a publicidade

De que forma a identidade gráfica do Alkantara Festival contribui para a construção de uma marca cultural distintiva?
A identidade não foi pensada como uma imagem fixa, mas como um sistema — o que, em si, sintetiza a dimensão relacional da associação e demonstra a sua evolução na dimensão programática do Festival. Ao construir a identidade a partir de um princípio estrutural (o rizoma, a rede, a coexistência de vozes) em vez de um conjunto de regras gráficas fechadas, conseguimos que a marca comunique aquilo que o Alkantara inicia — um lugar de encontro entre disciplinas e geografias — e não apenas aquilo que o Alkantara expõe. É essa coerência entre conceito e forma que torna a marca reconhecível e identitária no panorama cultural internacional.

Que papel assume o design no posicionamento do festival a nível nacional e internacional?
O design funciona enquanto bandeira e como assinatura de autoria e institucionalidade. Um festival com uma programação internacional, que dialoga

João Castro, do The Royal Studio

com artistas e instituições de várias geografias, nutre uma linguagem visual que seja reactiva à altura dessa ambição. O sistema gráfico do Alkantara comunica em diálogo com a contemporaneidade e em rigor tipográfico, o que ajuda a posicionar o festival ao lado de referências internacionais e reforça, também dentro de Portugal, a perceção do Alkantara como uma raiz cultural de novos ciclos e expressões.

Continue a ler após a publicidade

Como têm equilibrado consistência de marca com reinvenção ao longo das várias edições?
A consistência não está fixada numa cor, num tipo de letra ou numa composição — longe de um manual fixo, está na estrutura: a letra K como dispositivo aberto, âncora e charneira, assinatura e origem, capaz de acolher interpretações muito diferentes sem perder a sua identidade nuclear. É essa lógica de “sistema com regras, não de imagem fechada” que nos permite reinventar a cada edição — passando por fases mais experimentais (2021–2023, com fotografia, textura e matéria) e fases de maior contenção formal (a partir de 2024) — sem que o público deixe de reconhecer que está perante o Alkantara.

Que elementos visuais funcionam como assinatura reconhecível do festival?
A vincada matriz modernista com composições que radicalmente a tensionam e o elemento central é a letra K, entendida não como um logótipo fechado mas como uma estrutura aberta e agregadora. É esse ícone — e a lógica de sistema que ele torna possível — que atravessa todas as edições e funciona como assinatura, mesmo quando a linguagem visual à sua volta muda radicalmente de uma edição para a outra.

A evolução da identidade responde a uma estratégia definida ou à programação anual?
Às duas coisas, de forma articulada. Existe uma estratégia de longo prazo — construir um sistema em permanente evolução, capaz de reforçar o reconhecimento institucional do Alkantara sem o encapsular — mas essa estratégia realiza-se, edição após edição, em diálogo direto com os universos conceptuais sugeridos pela programação. Não são a identidade e a programação a competir por protagonismo; a estratégia é precisamente criar uma estrutura flexível para que a programação anual possa, em palco e acção, ser agente e intérprete.

Continue a ler após a publicidade

De que forma a identidade gráfica contribui para a experiência global do festival?
A identidade é muitas vezes o primeiro ponto de contacto do público com o festival. Uma identidade que comunica multiplicidade, colaboração e abertura prepara o espectador para o tipo de experiência que vai encontrar: um festival multidisciplinar, plural, onde disciplinas e geografias se cruzam. Nesse sentido, o design não é funcional — é já o corpo e o primeiro gesto da programação.

Ana Resende, do Ana Resende Studio

Como adaptam o sistema visual aos diferentes pontos de contacto, do digital ao físico?
Enquanto sistema aberto, de regras editoriais e sensoriais, o dispositivo gráfico construído a partir da letra K, da paleta cromática, da gravidade, tensão, e escala, adapta-se com naturalidade a diferentes suportes — cartazes, publicações impressas, sinalética, redes sociais, website. Cada suporte impõe as suas próprias condições (imposição, tempo de leitura, interação), mas a lógica estrutural do sistema garante que, seja qual for o ponto de contacto, o público reconhece que está perante a mesma identidade.

O design é pensado também como extensão da narrativa artística do festival?
Sim, e essa é talvez a ambição mais importante do projeto. Não trabalhamos a identidade como um veículo aplicado à programação depois de esta estar definida, mas como uma linguagem que dialoga com os universos conceptuais de cada edição — memória, identidade, herança, o corpo e as suas fronteiras, entre outros temas que atravessam a curadoria. O design procura, assim, ser uma extensão coerente do pensamento artístico do festival.

Como se articula o trabalho entre os estúdios criativos e a direção do festival?
A colaboração já vai em sete anos, o que permite um grau de confiança e proximidade naturais e horizontal. Trabalhamos em diálogo próximo com a direção artística e de comunicação do Alkantara ao longo de todo o processo — desde a leitura da programação de cada edição até às decisões finais de aplicação. É esse acompanhamento contínuo, edição após edição, que torna possível manter um sistema coerente a longo prazo, evolutivo entre gramáticas individuais de cada atelier, e colaborativo nas dimensões narrativas, poéticas, conceptuais, e, por fim, gráficas.

Continue a ler após a publicidade

Que desafios surgem ao traduzir um programa multidisciplinar numa linguagem coerente?
O maior desafio é evitar duas armadilhas opostas: por um lado, uma identidade demasiado rígida, que force toda a diversidade da programação — dança, teatro, performance, cinema — a caber numa expressão única; por outro, uma identidade tão flexível que se dilua e deixe de ser reconhecível. A resposta que encontrámos foi desenhar não uma imagem, mas um organismo — um sistema com regras claras e gestualmente abertas para que cada edição, e cada disciplina dentro dela, encontre o seu próprio espaço de expressão sem comprometer a coerência evolutiva do Alkantara.

 






Notícias Relacionadas

Ver Mais