As notas contam, mas não contam tudo

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Opinião de Ricardo Galrito, diretor criativo e criador de conteúdos e projetos para crianças e família

O final do ano letivo está a chegar e, com ele, chegam também as notas das nossas crianças e adolescentes. É uma altura, naturalmente, de ansiedade. Para muitos pais, para muitos filhos, para muitas famílias. Depois de meses de aulas, testes, trabalhos, cansaço, esforço, distrações, descobertas, falhas e vitórias, uma parte importante do ano parece ficar resumida a uma escala: de 1 a 5, de 1 a 20, de Insuficiente a Excelente.

Não é pouco. Para uma criança ou para um adolescente, ver o percurso de nove meses traduzido numa classificação pode trazer orgulho, alívio, frustração ou medo. Para os pais também. A escola é importante. O esforço importa. A forma como cada um atravessa um ano letivo é significativa.

Mas não será mesmo por isso que talvez faça sentido aliviar um pouco o peso que colocamos nesse momento? Não para desvalorizar as notas, nem para fingir que não têm importância, mas para as lermos com a medida certa. As pautas dizem alguma coisa, claro. As notas não aparecem desligadas de tudo. Fazem parte de uma avaliação, muitas vezes acompanhadas pelo olhar dos professores, por observações sobre o percurso, por sinais de evolução ou dificuldade, de participação ou desinteresse. Mas continuam a ser o reflexo possível de uma etapa, num determinado momento, dentro de um determinado contexto com muitas variáveis.

Podem revelar esforço, dificuldade, insegurança, maturidade, falta de método, bloqueio, entusiasmo ou cansaço. Às vezes revelam muito. Outras vezes, revelam menos do que parece. Mas quase nunca revelam a criança no seu todo. Porque cada aluno chega à pauta com a sua própria história vivida. Com o seu contexto familiar, emocional, social e cognitivo. Com o seu ritmo de aprendizagem e crescimento. Com a sua forma de absorver. Com as suas inseguranças, os seus interesses, as suas capacidades e as suas circunstâncias.

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Há adolescentes que serão artistas e que hoje precisam de aprender química, mesmo que a química não venha a decidir o seu futuro. Há crianças que poderão vir a ser empresários e que talvez nunca precisem propriamente de ser bons a desenho, mas que agora, nesse exercício, trabalham atenção, rigor, motricidade e paciência. Há músicos para quem as ciências podem ajudar a compreender melhor o som e a acústica, mesmo que não sejam as ciências a mudar o caminho que hão de seguir. Há atletas para quem a aptidão física pode ser mais determinante do que a física, sem que isso retire valor ao conhecimento, à cultura e ao pensamento.

O problema não está nas notas. Está no peso que lhes damos.
Quando uma criança traz notas máximas, é caso para celebrar. O esforço merece reconhecimento. A disciplina, a responsabilidade e a capacidade de trabalho têm de ser valorizadas. Mas quando isso não acontece, é importante perceber que aquele resultado só a define e só se torna a coisa mais impactante na vida da criança se nós o deixarmos.

Quando comparamos, pressionamos ou fazemos sentir que falhou enquanto pessoa, estamos a confundir desempenho com identidade. E essa confusão pode pesar muito mais do que uma classificação negativa. Uma criança pode precisar de melhorar, de estudar mais, de organizar melhor o tempo, de pedir ajuda, de repetir, de insistir. Pode precisar de ouvir que podia ter feito melhor. Mas não precisa de sentir que vale menos por não ter
conseguido.

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Até porque as crianças e os adolescentes já vivem com essa pressão dentro deles. Crescem num mundo de montras permanentes, de vidas aparentemente perfeitas, de corpos perfeitos, de sucessos imediatos, quase instantâneos e de comparações constantes. Não precisam que lhes acrescentemos mais peso.

A minha filha adolescente traz, frequentemente, Excelente e Muito Bom nos testes. Talvez por isso, quando aparece um Satisfaz — mesmo que venha acompanhado de Bastante — tenha dificuldade em aceitar que a palavra quer dizer precisamente isso: satisfaz. É isso mesmo: não sendo um resultado excelente ou muito bom, é um resultado satisfatório. Pode ser melhorado, tem margem para isso, mas não é uma derrota. É o retrato de um desempenho, num momento concreto.

Mas cá em casa também se viveu o contrário. O mais velho, de 17 anos, teve dificuldades no primeiro módulo de Matemática e teve uma nota muito baixa. Não por falta de empenho. Ele tentou, trabalhou, insistiu. Mas não estava a conseguir. Percebemos que, naquele caso, transformar o problema num excesso de responsabilidade ou culpa individual só aumentaria a frustração e seria contraproducente. Por isso, fizemos do problema dele um problema de todos. Apoiámos, acompanhámos, insistimos na solução com ele. Teve de repetir três vezes. Mas, à terceira, conseguiu um 13.

Não me parece que esse 13 alguma vez venha a definir o seu caminho, nem no basquetebol, para onde se encaminha com seriedade, nem na área de multimédia, que está a estudar. Mas acredito que a forma como atravessou aquela dificuldade ficará. A persistência, o valor do apoio, a noção de que falhar não é acabar, de que repetir não é perder, de que insistir é a resiliência necessária para ultrapassar dificuldades, de que pedir ajuda também faz parte de crescer. Certo é que não voltou a ter negativa a Matemática.

Somos sempre resultado de circunstâncias. Ortega y Gasset escreveu que “eu sou eu e a minha circunstância”. Na escola, isso também é verdade. Os resultados escolares não vivem fora da vida. São influenciados por ela. Pelo momento da criança, pela família, pela saúde emocional, pela relação com os professores, pelo ambiente em casa, pela maturidade, pelo medo, pela confiança, pela forma como cada um aprende.

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Por isso, no fim do ano letivo, talvez a pergunta não deva ser apenas: “Que notas tiveste?”
Talvez também devamos perguntar: “Como foi o ano?”
“O que foi mais difícil?”
“Onde te superaste?”
“Onde precisas de ajuda?”
“De que te orgulhas?”
As notas contam. Não vale a pena fingir que não contam.
Mas não nos contam tudo.

Avaliam uma etapa. Não definem uma criança. Têm valor, mas não medem os seus valores, a sua bondade, a sua inteligência, a sua sensibilidade, a sua coragem, o seu futuro e, acima de tudo, a sua qualidade humana.
E talvez seja essa uma das tarefas mais difíceis de quem educa: ajudar uma criança a levar a escola a sério, sem a fazer acreditar que as notas de 1 a 5, de 1 a 20 ou de Insuficiente a Excelente têm o poder de dizer quem ela é.

 






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