Num mercado a borbulhar com novos conceitos gastronómicos e, felizmente, com cada vez mais influências de todo o mundo, será natural que nos passem ao lado alguns restaurantes de boa e honesta cozinha típica portuguesa e mediterrânea. Deixamos, desde já, o disclaimer: o Saldanha Mar é, para nós, um desses casos.
Mesmo estando localizado, há quase 20 anos, numa das artérias mais movimentadas de Lisboa, nunca tínhamos tido a oportunidade de entrar e provar o que tem para oferecer. O que, à partida, tem as suas vantagens, porque, como se costuma dizer, a ignorância pode ser uma benesse. No nosso caso, permitiu-nos ir de espírito aberto e estômago disponível para conhecer a nova carta do restaurante, que estreia este mês.
Mas comecemos por dar a conhecer o espaço. Inserido no DoubleTree by Hilton Lisbon – Fontana Park (Rua Eng Vieira da Silva, 2), o Saldanha Mar é um restaurante dedicado a peixe e marisco. Abriu portas em 2007, quando foi inaugurado o hotel Fontana Park, e assim se manteve mesmo quando este foi convertido, sete anos depois, numa unidade DoubleTree by Hilton, a primeira com chancela da cadeia norte-americana na capital portuguesa. Um primeiro sinal de confiança em como algo de bom saía daquela grelha.
A mesma confiança é transmitida subliminarmente através do design do espaço. Ao contrário do que costumamos ver nos restaurantes especializados em peixe e marisco, no Saldanha Mar não há amplas vitrines à entrada a ostentar o produto do dia, aquários a borbulhar com crustáceos que já têm o destino traçado ou motivos decorativos que apenas contribuem para o barulho visual. Aqui, o design é limpo e minimalista, quase nórdico, com o branco a dominar a sala e a convidar o sol a entrar, uma rica garrafeira, um balcão aberto que permite espreitar o que se passa na grelha – alimentada a carvão 100% biológico – e poucos, mas elegantes, apontamentos que nos transportam para o mar. Quase como que a deixar que seja a gastronomia a falar mais alto.
E foi à mesa que o mar nos chegou e levou – sem grande resistência da nossa parte – para conhecermos a nova carta assinada pelo chef Fábio Leonardo, ao leme do Saldanha Mar há cerca de dois anos. Antes, passara pela cozinha do Evolution, também na zona do Saldanha. Começámos pelo couvert, composto por manteiga dos Açores (moldada em forma de sardinha), azeitonas marinadas (de forma exemplar, diríamos), azeite da Quinta da Boeira (excepcional) e um pão alentejano que nos fez ir ao cesto, uma e outra vez, para carregar de manteiga e molhar no azeite.
A entrada, essa, dividiu-se em três momentos. O primeiro, a salada de bacalhau do avô João, em homenagem ao prato que o avô do chef Fábio Leonardo comia todos os dias ao… pequeno-almoço! Fresca e leve, com a textura ideal e o tempero no ponto, provou ser um dos pratos em destaque na nova carta – e que, provavelmente, cai mesmo bem em qualquer altura do dia. Seguiram-se duas opções de marisco: camarão Pil Pil, envolto num molho generoso e equilibrado, não demasiado picante (um ponto a favor, na nossa opinião); e lingueirão na brasa ao natural, que pode soar a um prato mais simples, mas excede (e muito) as expectativas.
O momento mais aguardado do almoço, o da apresentação do prato principal, chegou com pompa e circunstância quando um dos elementos da equipa do restaurante se aproximou da mesa com uma travessa com um robalo de dimensões generosas, divido e servido no momento. Para acompanhar, um sortido de feijão verde, batatinhas, cenoura, ovo cozido e grelos salteados, além de um belo arroz de limão e lingueirão. Sem grandes surpresas, por esta altura, o peixe estava confeccionado na perfeição, soltando-se facilmente com o garfo e desfazendo-se na boca. Sendo que não resistimos a regar generosamente com um molho à Bulhão Pato, em particular, que nos foi confiado, a par de um molho de manteiga e outro de tomate, igualmente dignos de registo.
Nota ainda para a frescura do robalo apresentado, o que não foi propriamente uma surpresa, mas mais uma confirmação. Ou não fossem muitos dos peixes servidos à mesa do Saldanha Mar seleccionados diariamente no mercado Açucena Veloso (antigo mercado 31 de Janeiro), mesmo à frente da esplanada do restaurante. Uma aposta na produção local levada ao extremo.
O almoço haveria de terminar na esplanada, onde fomos presenteados com uma oferta variada de fruta da época, doces e ainda um irresistível licor com assinatura da Gin Lovers. O final perfeito para uma refeição simples (no bom sentido) e genuína, num espaço despretensioso que comprova que não é preciso reinventar a roda na cozinha – às vezes, basta fazer bem feito.
Por isso, dizemos de forma categórica: no Saldanha Mar, há ir e voltar!
Texto de Daniel Almeida
*O jornalista escreve segundo o Antigo Acordo Ortográfico














