Do Natal

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29/11/2025
19:09
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Do Natal

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Por Tiago Viegas, Partner da The Hotel

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E, de repente, é Natal. Enfim, bem vistas as coisas, já é Natal desde o final das campanhas de regresso às aulas, ali por alturas do 5 de Outubro – mais feriado, menos feriado.

Poder-se-ia mesmo argumentar, para efeitos estilísticos, que este texto já peca por tardio, no grande esquema das coisas.

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Mas como terão oportunidade de ler, não lhe faltarão (ao texto) outros pecados mais relevantes – e era capaz de apostar que a maioria nem sequer montou a árvore de Natal. Razão pela qual sugeria que, em vez de estarem para aí a lamentar o cronograma, me deixassem antes destilar um pouco de fel a propósito dos anúncios de Natal em Portugal.

Que, aqui entre nós que ninguém nos ouve, se parecem cada vez mais uns com os outros – e cada vez menos com os anúncios da John Lewis, com quem todos se queriam parecer mais.

Ou seja, hoje queria falar do Natal, da John-Lewinização do espaço publicitário natalício português – e, não menos importante, da irritação que isso me começa a causar. Que não é imensa, note-se; afinal de contas, é Natal e eu até sou um sentimentalão.

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Mas é alguma, ainda assim, e tem piorado de ano para ano.

Para os mais desatentos, a John Lewis é uma department store britânica (assim uma espécie de El Corte Inglés, mas, enfim, mesmo inglês) que, de 2007 a esta parte, tem marcado o início das festividades na indústria publicitária com o lançamento do seu anúncio de Natal. Aliás, se não conhecerem e não tiverem nada melhor para fazer (o que, visto que estão a ler isto, até são bem capazes de não ter), aconselho-vos a tirar alguns minutos e a espreitar o The Long Wait (Natal de 2011), o The Bear and the Hare (lançado no Natal de 2013) ou o Monty, the Penguin (que saiu no Natal de 2014), só para referir apenas alguns dos meus favoritos.

Uma campanha brilhante que, quando corre bem, é um misto de felicidade e nostalgia condensadas em 90 segundos, deixando os consumidores cheios de espírito natalício – e, em princípio, com uma vontade imensa de ir comprar presentes de Natal.

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De tal forma, aliás, que conseguiu inspirar toda uma geração de criativos e marketeers, por esse mundo fora, a quererem fazer uma campanha – ou anúncio – igual.

Acontece que fazer uma – ou um – John Lewis não é uma tarefa simples; a própria John Lewis, ano sim, ano nim, tende a não conseguir – e a fazer uma coisa que fica ali entre o irrelevante (na melhor das hipóteses) e o incompreensível (na pior).

Se a isto juntarmos uma predisposição natural para o dramalhão – cortesia, claro está, do Eça, da Florbela e do Pessoa, entre outros –, está explicada a reinterpretação, mais ou menos pungente, que as marcas portuguesas insistem em fazer, de há uns anos para cá, dos anúncios de Natal daquela marca inglesa. Como sou um sentimentalão, continuo a ligar a televisão na esperança (vã, mas ainda assim) de ver um João Luís digno de registo.

Mas uma coisa é ver se alguém acertou – outra é começar a saber, de antemão, que ninguém lá chegou, mais que não seja porque anda toda a gente ao mesmo, numa espécie de o-meu-deste-ano-é-ainda-mais-triste-que-o-teu-e-pa-ra-o-ano-ainda-vai-ser-mais-vais-ver.

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Aliás, a coisa está a ficar tão caricata que o bloco publicitário começa a parecer uma novela, dramalhão atrás de dramalhão (atrás de dramalhão, atrás de dramalhão), mas tudo sem grande – ou particular – convicção. E, o que é pior, sem grande interesse, sem grande relevância e, por vezes, sem grande noção – que é o que acontece quando as marcas, à falta de coisas relevantes para dizer, começam a enfiar umas causas sociais lá pelo meio, a ver se nos conseguem convencer.

Resta a Popota, que, apesar de andar a fazer o mesmo filme quase desde que nasceu, sempre vai dando para desenjoar.

A não ser que, para o ano, algum génio se lembre de tentar pôr a Popota a fazer- nos chorar.

Pelo andar da carruagem, não seria de espantar.

Artigo publicado na edição n.º 352 de Novembro de 2025






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