Portugal enfrenta riscos climáticos cada vez maiores. Só com soluções inovadoras e colaboração será possível proteger comunidades e garantir uma resposta eficaz às catástrofes.
Portugal enfrentou uma sequência inédita de tempestades. Várias depressões consecutivas atingiram o País, colocando distritos sob alerta laranja – e vermelho, nalgumas regiões – e trazendo consigo chuva intensa, ventos fortes, agitação marítima e inundações. Estradas cortadas, deslizamento de terras, quedas de árvores e a água dos rios a invadir ruas e avenidas foram relatos frequentes. O cenário contou ainda com o degelo da neve na Serra da Estrela, resultando na subida dos rios Mondego e Zêzere. O fecho de escolas, cortes de energia e telecomunicações, assim como serviços de transporte condicionados, culminaram na declaração de situação de calamidade pelo Governo.
A repetição destes episódios reforça uma realidade preocupante: Portugal integra um dos hotspots mundiais das alterações climáticas. Os incêndios de 2025, que assolaram especialmente a zona Centro, deixaram solos desprotegidos, incapazes de reter a água, agravando ainda mais as consequências das tempestades. A fragilidade de infra-estruturas do País perante eventos meteorológicos extremos é ilustrada pelos enormes prejuízos económicos, desafios à mobilidade e os casos de isolamento que ocorreram em determinadas regiões.
A região do Mediterrâneo é das mais vulneráveis às alterações climáticas, aquecendo a uma taxa 20% superior à média global. Portugal vive uma crescente frequência de fenómenos extremos. Em Agosto de 2023, 97% do território português foi afectado por seca, com 46% em condições severas ou extremas. Além das secas persistentes, aumentam as cheias e a subida do nível do mar, ameaçando não só o litoral, mas também as zonas urbanas e rurais.
As consequências económicas são expressivas. Entre 1980 e 2023, Portugal registou perdas de 13,461 mil milhões de euros associadas a eventos climáticos extremos. O Banco Central Europeu alerta para o elevado risco físico a que está exposto o sector bancário português, com largos impactos para a economia nacional e para as comunidades mais vulneráveis.
Os níveis do mar estão a aumentar ao longo dos 2600 km da costa portuguesa. As projecções apontam para uma subida de 0,4 metros até 2100, mesmo em cenários moderados. Estuários como o Tejo, o Sado, a Ria de Aveiro e a Ria Formosa enfrentam elevado risco de inundações e erosão, com consequências socioeconómicas para as comunidades locais.
Este cenário é reforçado pelo Global Risks Report 2026. Num contexto global, os riscos ambientais dominam as preocupações a longo prazo. De acordo com o relatório, metade dos dez riscos mais graves para os próximos dez anos são ambientais, embora nem sempre sejam priorizados por governos ou líderes empresariais no curto prazo. Ainda assim, o clima extremo permanece no topo das preocupações para a próxima década.
As infra-estruturas críticas já estão a ser desafiadas. Redes eléctricas, infra-estruturas costeiras e hospitais enfrentam pressões crescentes de eventos climáticos extremos. A produção de energia hidroeléctrica também enfrenta desafios: as inundações podem causar danos às infra-estruturas e as secas severas podem interromper o fornecimento de energia. As cidades marítimas, como Lisboa, mas também Singapura, Jacarta ou Manila, ficam particularmente vulneráveis a inundações e subida do nível do mar, prejudicando cadeias de abastecimento e inclusivamente os mercados financeiros.
«Só quando reconhecermos que os riscos globais estão interligados e agirmos de forma integrada, conseguiremos construir a verdadeira resiliência de que as nossas economias e sociedades dependem. Ao compreender que ameaças como o clima, a sustentabilidade financeira, as tensões geopolíticas ou a disrupção tecnológica impactam simultaneamente os mesmos sistemas essenciais, tornamo-nos capazes de criar respostas mais robustas e eficazes», adianta José Coutinho, Chief Underwriting Officer na Zurich.
Em prol das comunidades
O sector segurador reconhece a necessidade de uma abordagem integrada à gestão de risco, especialmente perante a lacuna entre perdas económicas e a cobertura de seguros. Apenas uma parte minoritária dos prejuízos é actualmente coberta, reforçando a urgência de soluções abrangentes.
Para a Zurich, a resposta passa por uma visão holística de gestão de risco e promoção da resiliência climática. A prevenção, mitigação de riscos e resiliência operacional tornam-se essenciais para proteger clientes, empresas e comunidades. Avaliações de risco locais, estratégias de adaptação e colaboração multissectorial são pilares da actuação responsável.
A resiliência é vista como a capacidade das comunidades de manter os seus objectivos sociais, económicos e ambientais, mesmo perante adversidades climáticas. Não se trata apenas de recuperar de catástrofes, mas sim de construir as bases que permitem às comunidades viver, aprender e prosperar. Construir resiliência traz uma série de benefícios: protege vidas, minimiza perdas económicas e cria espaços urbanos mais sustentáveis. Este esforço também promove a equidade social ao dar prioridade aos grupos mais vulneráveis – como crianças, mulheres e famílias de baixos rendimentos –, garantindo que a adaptação fortaleça não só os sistemas, mas sobretudo a justiça e a igualdade social.
Medidas de resiliência passam por liderança comunitária, colaboração entre sectores público e privado, e adaptação de modelos que fortaleçam desde bairros até cidades inteiras. É crucial integrar a resiliência no planeamento urbano, transformar projectos-piloto em estratégias globais e garantir recursos para tornar essa transformação uma realidade.
A construção de cidades e comunidades mais resilientes exige a antecipação dos riscos, o investimento em soluções inovadoras e a sensibilização para a importância da prevenção e da adaptação. O sector segurador é um parceiro fundamental, mas é indispensável reforçar parcerias público-privadas para acelerar a recuperação após catástrofes
Resposta a catástrofes
A criação de um Fundo de Catástrofe robusto surge como medida urgente para Portugal. O seguro, apesar de essencial, é insuficiente perante a escala dos riscos climáticos. Um fundo colaborativo, alimentado pela parceria entre seguradoras e o sector público, poderá garantir resposta rápida, apoio à reconstrução e estabilidade social e económica. A definição de uma protecção abrangente para eventos catastróficos, capaz de responder a fenómenos com impactos que ultrapassam a capacidade das abordagens tradicionais de seguro, passou a ser uma prioridade.
Reconstruir a cidade de Lisboa após um sismo semelhante ao de 1755 pode custar até 10 mil milhões de euros. Com uma exposição ao risco tão elevada, o País necessita de uma solução inovadora e colaborativa, capaz de assegurar a protecção financeira e a resiliência necessária para enfrentar desafios futuros. Só com uma resposta rápida, concertada e robusta – incluindo a criação de um Fundo de Catástrofe –, Portugal estará verdadeiramente preparado para enfrentar as novas realidades climáticas, ao mesmo tempo que promove a estabilidade, o crescimento económico e a justiça social.
Este artigo faz parte do Caderno Especial “Seguros”, publicado na edição de Fevereiro (n.º 355) da Marketeer.














