Opinião de Marlene Gaspar, diretora geral da LLYC
A aprendizagem automática, ou machine learning, é um ramo da Inteligência Artificial que permite aos computadores aprender sem serem explicitamente programados para cada tarefa. Em vez de seguirem instruções rígidas, recebem dados, identificam padrões, ajustam comportamentos durante o treino e generalizam esse conhecimento para situações novas. O seu desempenho depende da qualidade e da representatividade dos dados e pode degradar-se quando a realidade se afasta daquilo com que foram treinados..
Ultimamente tenho suspeitado que me estou a transformar numa dessas máquinas. Recebo informação, observo padrões, faço correções, (de)testo hipóteses! Volto a testar. E repito o processo, em permanente iteração.
A diferença é que, ao contrário da Inteligência Artificial, continuo a precisar de me divertir com o que faço. E de ir de férias, rir com amigos e colegas no trabalho. Não tenho estudos para o que aqui vou defender, mas já dou por mim a trabalhar diariamente com dois cérebros. O meu (que espero que se conserve em paz e com saúde, por muito, muito tempo) e o outro. Sim, eu já tenho outro. O cérebro artificial. Curiosamente, nenhum dos dois está (de)terminado. Estamos ambos em aprendizagem contínua. A diferença é que eu pensava que era eu quem estava a treinar a máquina. Começo a suspeitar que ela também me está a treinar a mim!
Todos os dias aprendo novas formas de perguntar, de estruturar pensamento, de organizar ideias, de acelerar processos. E, sem dar por isso de forma explícita, comecei também a adaptar a forma como raciocino.
Já me apanhei a pensar em prompts sem estar a escrever prompts. Já me apanhei a decompor problemas em etapas como se estivesse a dar instruções a um modelo. Já me apanhei a pedir versões alternativas de ideias dentro da minha própria cabeça. Vou do “wow” ao “credo” em milésimos de segundos. É fascinante e ligeiramente perturbador.
Porque esta evolução acontece a uma velocidade que desafia qualquer comparação. Se calhar está aqui o que poderia conseguir fazer o Usain Bolt parecer quase lento quando comparado com o ritmo a que a Inteligência Artificial evolui.
Aquilo que aprendemos hoje pode estar ultrapassado daqui a uma semana. Aquilo que parecia impossível há seis meses é hoje banal. E aquilo que hoje nos impressiona poderá parecer ingénuo daqui a um ano. Talvez por isso seja tão difícil perceber onde começa e acaba a máquina.
Durante anos, quando queríamos elogiar alguém particularmente competente, dizíamos: “És uma máquina.” E era um enorme elogio. Significava eficiência, capacidade, consistência e produtividade.
Hoje temo que a expressão tenha ganhado um significado novo. Quando dizemos que alguém é uma máquina, já não sabemos se estamos a elogiar uma pessoa ou a compará-la literalmente com uma tecnologia. E talvez essa seja uma das transformações mais interessantes que estamos a viver.
Pela primeira vez, o cérebro humano deixou de ser o único sistema capaz de produzir conhecimento, criar soluções ou gerar ideias à escala. Tem agora companhia, tem concorrência em algumas tarefas e ainda tem parceria noutras. E é precisamente nessa parceria que reside a maior oportunidade.
Porque a verdadeira questão não é se a Inteligência Artificial é melhor do que nós. A verdadeira questão é o que acontece quando trabalhamos juntos. Temos o cérebro humano e vamos tendo o cérebro artificial. Ambos erram à sua maneira: o humano por enviesamento ou distração; o artificial por alucinação! E, ainda temos um terceiro espaço que nasce da interseção entre ambos. E é aqui que eu quero acreditar que a magia acontece. É aí que a criatividade se sobrepõe, que traz valor. Não no humano isolado. Não na máquina isolada. Mas naquilo que conseguem construir em conjunto.
Até já dou por mim a sentir falta de algumas características que os primeiros modelos tinham. Eram excessivamente simpáticos, submissos, concordavam com quase tudo e tinham sempre um elogio a dar. A minha máquina tornou-se mais crítica, menos submissa, menos opinativa, logo mais desafiante. E, curiosamente, isso agrada-me, mas como sou humana, tenho sempre de criticar qualquer coisa, e já me queixei a ela – já foste mais atenta, já me trataste melhor. Qualquer dia também a canso!
Sarcasmos à parte, embora eu seja fã do estilo, o pensamento crítico continua a ser uma competência exclusivamente humana, como também é a Inteligência Emocional. Talvez por isso a questão mais importante não seja tecnológica.
Neste caminho, estamos a transformar-nos numa nova espécie profissional e pessoal, a espécie híbrida. Neste caso, o que produzimos atualmente não é totalmente humano, não é totalmente artificial. Seremos uma humanartificial? Sei que a palavra (ainda) não existe, mas já estou a criar a designação da espécie de ser que me estou a tornar.
E se isso acontecer, espero não perder algumas coisas pelo caminho, principalmente o sentido: o crítico, o de humor, o de orientação. Não apenas para saber para onde vou, mas para continuar a escolher onde e como quero lá chegar. Porque a tecnologia pode acelerar-nos. Mas não substitui os nossos critérios.
Pode ampliar capacidades, mas não substitui valores. Pode ajudar-nos a decidir, mas não decide. O verdadeiro desafio da Inteligência Artificial não é tecnológico. É ético, é humano e cultural.
Não se trata de travar a evolução, nem de a negar, nem de a temer. Trata-se de a abraçar com princípios, códigos de conduta, espírito crítico, crítico, crítico e responsabilidade.
Afinal, estamos a ensinar máquinas a pensar e convém não esquecer aquilo que nos ensinou a nós. E é com esta consciência que temos de liderar as nossas equipas, processos, metodologias e regras de forma transparente e consciente.
E se esta reflexão não estiver totalmente fundamentada, como canta o Rag’n’Bone Man: I’m only human after all. I’m only human after all. Don’t put the blame on me.
*Este texto foi revisto e editado com o apoio de IA, respeitando o estilo e a ortografia definidos pela autora












