A profissionalização do bluff

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04/07/2026
11:00
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Por Teresa Verde Pinho, Associate Creative director na TBWA\Chiat\Day New York

Há um lema cujo sucesso me intriga. Muita gente repete-o com um orgulho que me surpreende. Como se fosse um provérbio milenar. Como se tivesse sido gravado numa pedra sagrada algures entre o Monte Sinai e Silicon Valley. Refiro- me ao fake it until you make it, o equivalente profissional de “logo se vê”.

Mas percebo o sucesso da máxima.

Aliás, percebo-o tão bem porque também já entrei em reuniões a perceber muito menos do que deixava transparecer. Acenei com a cabeça quando devia ter feito perguntas. Disse “sim, claro”, quando a resposta honesta era “não faço ideia do que acabaste de dizer”. E sobrevivi. Às vezes, até fui recompensada por isso. Pior: às vezes saí dessas reuniões convencida de que tinha feito a coisa certa.

Talvez seja precisamente por isso que a frase é tão popular.

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Não porque as pessoas sejam preguiçosas. Pelo menos, não todas. Nem porque não queiram aprender. Mas porque têm medo. Medo de parecer incompetentes. Medo de ficar para trás. Medo de serem a única pessoa na sala a admitir que não percebeu. E porque, sejamos honestos, o fake it until you make it funciona. Pelo menos durante algum tempo.

A confiança impressiona. A dúvida, nem por isso. Quem fala com convicção costuma receber mais atenção do que quem faz perguntas. E quem parece saber exactamente o que está a fazer avança muitas vezes mais depressa do que quem tem a honestidade inconveniente de admitir que ainda está a aprender.

O problema é que ninguém faz bluff apenas uma vez. E quando fingir saber se torna hábito, deixamos de aprender, de pedir ajuda e de reconhecer os nossos próprios limites.

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A partir daí, começa a acontecer uma coisa curiosa.

As reuniões enchem-se de especialistas em parecer especialistas. Fazer perguntas torna-se mais embaraçoso do que dar respostas erradas.

Pouco depois, alguns desses especialistas passam a ensinar, julgar e aconselhar. E as opiniões passam a viajar muito mais depressa do que o conhecimento que supostamente as sustenta.

A colaboração degrada-se. O respeito mútuo dá lugar ao teatro. E muitas duplas criativas acabam desequilibradas: uma pessoa a fazer o trabalho, a outra a recolher os aplausos e a aparecer nas fotografias.

E, por último, há talvez uma consequência ainda mais triste para quem vive de ideias: muitas delas acabam por nunca chegar onde podiam, não porque fossem más, mas porque foram parar às mãos de quem sempre soube parecer competente antes de aprender a sê-lo.

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Talvez por isso desconfie cada vez mais das pessoas que parecem ter resposta para tudo.

As mais competentes que conheci raramente eram assim. Faziam perguntas. Pediam ajuda. Mudavam de opinião. Diziam “não sei” com uma frequência quase desconfortável. Talvez seja por isso que acabaram por saber mais do que os outros.

Artigo publicado na edição n.º 359 de Junho de 2026




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