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Serviço público de… design

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11/04/2026
20:02
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Opinião de Mafalda Matos, Head of Design and Events na Guess What

A RTP apresentou a sua nova identidade visual, em que o antigo símbolo desaparece e a sigla passa a assumir o centro da imagem do grupo. Esta mudança tem desencadeado uma reação pública que dificilmente pode ser ignorada.

À primeira vista, trata-se de uma discussão sobre design, esse conceito quase místico que pode ser traduzido em formas, cores, legibilidade ou adaptação ao digital. No entanto, a intensidade da reação sugere que o debate ultrapassa o plano estético. Falamos da relação entre um meio com quase 70 anos de história e os seus múltiplos públicos. Mas, afinal, o que está realmente em causa?

A RTP não é uma marca comum. É a marca fundadora da televisão em Portugal. De 1957 a 1992, ano em que surgiu o primeiro canal privado, a RTP foi o único canal à volta do qual o país se juntava para ver notícias, entretenimento, debates presidenciais ou jogos de futebol.

A evolução das linguagens visuais não ocorre isoladamente. A simplificação, a versatilidade e a adaptação a múltiplas plataformas tornaram-se critérios dominantes no design contemporâneo. Muitas instituições têm seguido esse caminho, aproximando-se de uma estética mais minimalista e funcional. A nova identidade da RTP insere-se, em larga medida, nessa tendência global.

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É precisamente neste cruzamento que a controvérsia ganha significado. Por um lado, a necessidade de atualização num ecossistema mediático em rápida transformação; por outro, a expectativa de continuidade associada a uma instituição de serviço público. A tensão entre modernização e preservação não é nova, mas torna-se particularmente visível quando o objeto em causa possui uma forte carga identitária.

Acresce à discussão a questão financeira, já levantada noutras ocasiões, como quando o Governo alterou o seu logótipo em 2023, numa decisão revertida pelo executivo seguinte. Tratando-se de um operador de serviço público, financiado direta e indiretamente pelos contribuintes, qualquer decisão que envolva recursos suscita, inevitavelmente, escrutínio.

Independentemente do valor exato associado à mudança, o simples facto de existir um custo levanta perguntas sobre oportunidade: era esta uma intervenção prioritária? Que critérios sustentaram a decisão? E de que forma foi essa decisão justificada perante o público? Independentemente da avaliação estética da nova identidade, a forma como estas decisões são conduzidas e comunicadas influencia decisivamente a sua receção. Num contexto de crescente exigência de transparência, processos percebidos como fechados tendem a gerar desconfiança e contestação.

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A polémica em torno da nova identidade gráfica da RTP não se esgota, portanto, na sua dimensão visual. Funciona como um espelho de dinâmicas mais amplas: a relação entre inovação e memória, entre estratégia institucional e expectativa pública, entre decisão técnica e significado coletivo.

Talvez por isso, mais do que procurar uma resposta definitiva sobre a adequação da mudança, importa reconhecer o que este episódio revela. Um logótipo, aparentemente um detalhe, tornou-se um espaço de convergência de questões culturais, institucionais e sociais. E isso, por si só, já o torna significativo.




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