Revolução e contra-revolução

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17/11/2011
11:44
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Pedro PiresNo meu último artigo, escrito durante os motins de Londres, afirmei que a Levi’s teria reconsiderado a colocação do seu anúncio da campanha Go Forth, como medida de precaução por causa desses acontecimentos.

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Incluído na campanha de apoio aos pioneiros modernos, aqueles que na sua actividade conseguem influenciar e inspirar as comunidades onde vivem. Passada essa semana, o anúncio lá foi colocado no ar, prolongando os acontecimentos que tomaram conta das ruas de Londres e o metaforicamente espírito de proto­-revolução que paira sobre a Europa e o mundo ocidental (porque no Oriente, a revolução, embora televisionada, saiu mesmo para a rua).

Depois de Walt Whitman, cujos poemas são considerados o expoente máximo do espírito original do pioneiro americano, a Levi’s deu sequência à sua campanha com um poema de Charles Bukowski, que eleva a esperança a uma condição individual indispensável para o prazer pela vida e os outros.

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Para que o espírito de campanha não fosse apenas um exercício publicitário, a Levi’s trans­formou-o numa acção global de apoio aos pioneiros modernos, aqueles que na sua actividade particular conseguem influenciar e inspirar as comunidades onde vivem. Apoia indivíduos com uma ideia, contribuindo financeiramente e com logística para que ideias, como o financiamento anual de uma escola de crianças com sida na África do Sul, ou o combate à iliteracia nos EUA, possam ver a luz do dia. Mas antes da esperança, vamos dar um pouco de espaço ao cepticismo.

O que explica esta atracção irresistível da publicidade de moda pelo contrapoder, e que vai para além da frustração revolucionária dos criativos que a fazem, que vão compensando a sua falha de capacidade de influenciar o mun­do? O que explica este endeusamento de per­sonalidades alternativas que por certo não ar­ranjariam trabalho no universo corporativo das marcas que os promovem? O que conseguem estas marcas com a apropriação dos valores e da estética revolucionária, nessa capacidade que o capitalismo tem de transformar tudo num seu produto, numa sua forma de expressão?

Pode argumentar-se que é esta proprie­dade, que esvazia de sentido e conteúdo o que toca, que faz da publicidade a principal arma do sistema económico em que vivemos. O ca­pitalismo precisa de temas, de conteúdo a par­tir do qual se criem movimentos de consumo, e de adesão. Vive de alimentar a sociedade de utopias e imagens com as quais precisamos de nos identificar para conseguirmos identificar o nosso lugar no mundo. Todos sabemos isto, ou pelo menos desconfiamos. Quem pretende en­tão enganar uma marca como a Levi’s? Uma das maiores organizações económicas mundiais, que terá tudo a perder com revoluções, apela à rebelião e à autodeterminação, quando nos seus sonhos todos vestimos o mesmo. Hmmmm, há qualquer coisa de forçado aqui.

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A contra-revolução seria, neste caso, a re­cusa do público em utilizar os seus produtos, na medida em que descobriria uma intenção eco­nomicista, na criação de tais narrativas. Mas o que sucede é o contrário. Uma vez criadas, as campanhas e as imagens que as compõem estabelecem-se enquanto obras artisticamente executadas, e representem ou não um produto, que por milagre passa a incorporar esses valo­res, elas representam-se a si próprias enquanto edifícios ideológicos e manifestos estéticos. E isso acaba por seduzir o céptico crítico que há em nós.

E esta é a minha ingénua visão da esperança.

A verdade é que estes exercícios podem ser usados para o que quisermos. Embora reflexo do capitalismo, a publicidade é uma construção que, embora imperativa a maior parte das ve­zes, é também interpretativa. Como diria Paul Smith, podemos encontrar inspiração em todo o lado. E é esse o caso que me interessa, porque a verdade é que uma imagem não tem dono. Ela é propriedade de quem a vê. E pode ser utiliza­da para qualquer finalidade, tenhamos nós ca­pacidade de a recontextualizar. E este é o lado revolucionário a que não resistimos. A imagem é revolucionária em si. E é a essa construção for­mal a que aderimos e não ao que analiticamente ela poderá representar. São os seus signos que seguimos, não a sua semântica.

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Há vários anos que Vhils deixa pelo mundo as imagens que o habitam gravadas nas paredes degradadas de edifícios ou muros, atribuindo personalidade ao inanimado e uma nova di­mensão à expressão street art. O seu estilo ori­ginal e característico, pioneiro e ousado valeu­-lhe, além do reconhecimento mundial, um convite da Levi’s, para assinalar a sua presença na última Bread & Butter de Berlim.

E quando vejo a campanha da Levi’s e a utilização da arte de um português com talen­to, para homenagear pioneiros modernos da cidade de Berlim, vejo um trade off, que não sendo equilibrado e justo, vai permitindo que as tais “marginalidades” encontrem o seu lu­gar no mundo, que, no processo de potenciar o seu produto num momento ideologicamente delicado, as marcas compram o seu passapor­te, dando visibilidade a quem tem capital junto das massas. E isto é sinal de um sistema que, embora desequilibrado, vai conseguindo criar espaços para que todos tenham uma voz.

Vhils foi revolucionário no que já conse­guiu, emergindo das margens de uma arte já de si marginalizada, de um país periférico para espaços de culto do mundo do branding e da moda, sem perder as características essenciais da sua arte. Foi nisto que nos quiseram fazer acreditar até hoje. A essência do capitalismo é um sistema onde um indivíduo é igual a uma revolução. Mas a verdade é que o seu truque foi sempre saber responder a essa afirmação com outra pergunta. Contra quem?

Na falta de uma resposta clara, resta-me in­centivar a arte. Go forth, Vhils.






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