Vacinar ou não vacinar…

Por Rui Rijo Ferreira, Marketing director da Jaba Recordati

Acredito que muitos de nós neste momento se interrogam sobre quando irão ser chamados para serem vacinados. Se deverão aceitar ser vacinados ou não, ou qual é a vacina que lhes será proposta. Não tenho as competências para poder aprofundar o tema de uma forma rigorosa e científica, nem é esse o meu propósito. Apenas partilho a forma como, enquanto profissional de marketing farmacêutico e cidadão, entendo este tema.

O primeiro ponto que quero destacar é o facto de neste momento já existirem vacinas desenvolvidas e a serem distribuídas à população. O tempo recorde em que foram investigadas, desenvolvidas, produzidas e aprovadas resultou de um esforço concertado entre a indústria farmacêutica, centros de investigação e as autoridades políticas e administrativas. Sem esta concertação de esforços seria impossível no espaço de um ano termos vacinas.

Agora que temos as vacinas a serem administradas, passamos para uma discussão diferente. Estarão as companhias farmacêuticas a explorar selvaticamente esta necessidade, gerando lucros imensos? Por outro lado, serão as vacinas seguras, uma vez que foram desenvolvidas “à pressa”?

Segundo o “British Medical Journal”, companhias como a Janssen (Johnson&Johnson), a AstraZeneca ou a Moderna assumiram clara e publicamente que encararam todo o processo de desenvolvimento como um projecto não lucrativo, comprometendo-se a praticar um preço “pandémico” que cobrisse os custos. No caso da AstraZeneca e da Moderna, reservaram-se ao direito de vir a gerar lucros apenas na fase pós-pandemia. Todas receberam apoios financeiros externos, quer de fontes governamentais, quer de instituições privadas. Apoios que obrigavam as companhias a contrapartidas, funcionando muitas vezes como pré-reservas, uma vez o produto disponível. Por exemplo, a União Europeia, que financiou o projecto desenvolvido pela Universidade de Oxford e a AstraZeneca, segundo o BMJ, conseguiu um preço para esta vacina significativamente inferior ao do Reino Unido ou dos Estados Unidos.

Terão as vacinas sido desenvolvidas à pressa? O tempo foi indubitavelmente o principal condicionante no processo de desenvolvimento, alguns projectos foram abandonados por as companhias envolvidas considerarem que não conseguiriam desenvolver em tempo útil as respectivas vacinas. Foram mais rápidas aquelas que se serviram de tecnologias já existentes, ou porque já as tinham “in house”, como a Janssen, que recorreu a tecnologias já utilizadas para a vacina para o Ébola, ou porque se associaram a outras entidades que tinham essas tecnologias, caso da Astra com a Universidade de Oxford, ou da Pfizer com a BioNTech, que recorreram a uma tecnologia que se baseia na forma como o próprio vírus gera as instruções genéticas para o desenvolvimento da “spike protein”, utilizando o RNA, no caso da Moderna e da Pfizer, ou o ADN, no caso da AstraZeneca. Uma vez seleccionados os produtos, todo o processo de desenvolvimento foi cumprido, os timings foram comprimidos, é certo, mas não se deixaram de seguir todos os passos. Até mesmo a Sputnik V, desenvolvida pelo Gamaleya Research Institute of Epidemiology and Microbiology na Rússia, que foi a primeira a ser utilizada, embora na altura não tivesse toda a fase de estudos completa, hoje tem todo o processo completo e por isso tem vindo a ser avaliada nas agências ocidentais do medicamento. Estou por isso confiante que de uma forma geral as vacinas são seguras. No entanto, todos sabemos que qualquer medicamento tem riscos.

Na “gíria” do marketing farmacêutico costumamos dizer, se um produto não tem riscos é porque não funciona. Até o placebo tem efeitos secundários.

Por outro lado, uma coisa são os efeitos secundários detectados em estudos que nos permitem identificar aqueles que são significativos, outra coisa é o resultado da utilização massiva na população, que nos permite identificar os eventos raros. Estes só são detectáveis com um sistema de farmacovigilância contínua e a sua incidência deverá ser balanceada com os benefícios.

Artigo publicado na edição n.º 297 de Abril de 2021

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