Marcas para sempre

Inês Veloso
Directora de Marketing e Comunicação da Randstad

Não chores. Os homens não choram.

Não tenhas medo. Porque o medo bloqueia. Afinal vai tudo ficar bem…

Mas mesmo que (não) fique, quem te disse para não sentires? Quem te disse para não inundares o dia de lágrimas, não porque estás triste, mas apenas porque o sentes? A gargalhada que se solta entre os dentes e ecoa na sala. A opinião que é tua, que não é de todos, mas que se senta à mesa.

Sentir.

Sentir cada letra da existência, ter um propósito, fazer-se ouvir mesmo no silêncio.

Porque igual não por coincidência mas por conveniência é existir sem marcar, sem ocupar espaço e pedir licença para respirar. Deixar que a vida tome conta do destino, sem ambição, sem planos. Emoções contidas num coração que não explode, numa existência que se confina, não por medo, mas porque se esquece do seu valor. E um dia o tempo passou e um dia tudo acabou.

As marcas não podem simplesmente apagar a luz, porque o budget foi reduzido, porque os festivais foram adiados, porque os abraços foram cancelados. As marcas têm de ser humanas, mais imperfeitas do que perfeitas, mais próximas e reais, porque ser humano é muito mais do que um planeamento cheio de certezas. É falar com o logótipo, é relacionar com o copy, é ouvir e estar. É lidar com a incerteza, a insegurança e todos os “ins” que nos torturam em ciclos e que combatemos durante a nossa existência.

Temos [as marcas] de estar mais hoje do que ontem. Tenho de ser quem fui, mesmo que não consiga estar em todos os espaços, mesmo que não haja brindes ou eventos, porque a nossa relação tem um propósito, não era apenas um caso de uma noite, amigos coloridos que se cumprimentam em festas. O que nos une é mais do que um momento.

Num ano em que os planos se fazem à semana, não podemos esquecer o que fica e o que não mudou. Os nossos clientes, os nossos seguidores, os nossos colaboradores, as nossas pessoas, tu e eu. E podemos ter medo, podemos chorar e rir, assumir as nossas convicções e aprender a viver nesta nova realidade, sem saudosismos e com a responsabilidade de garantir que o amanhã vai ser melhor do que o hoje. Parar de discutir se é digital ou real, chamar “novo” normal como se nos ilibasse de ter um papel activo, discutir o que vai ser sem assumir um papel para que seja mesmo.

Vamos desenhar estratégias para os canais que nos aproximam, mantendo sempre o distanciamento. Ter o tom de voz humano com a coragem de não parar de fazer, impedindo que o contexto leve a melhor e que a nossa existência se apague nele, no que não se sabe, nos números e na antevisão pessimista ou em formato arco-íris.

É preciso reconhecer o medo e a coragem, exigir responsabilidade e entregar compromisso, confiar de forma contagiosa. Criar emoções, provocar sensações e apaixonar. E se apenas existimos não somos marcas, somos empresas, fornecedores, trabalhos que vivem no horário de expediente até ao dia em que a luz se apaga.

Chora, vais-te sentir melhor.

Também tenho medo, mas nunca estivemos tão juntos.

Artigo publicado na Revista Marketeer n.º 288 de Julho de 2020

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