Filhos preferidos

OpiniãoLinkedin
Marlene Gaspar, diretora geral da LLYC
10/09/2026
20:02
OpiniãoLinkedin
Marlene Gaspar, diretora geral da LLYC
10/09/2026
20:02
Filhos preferidos

Partilhar

Opinião de Marlene Gaspar, diretora geral da LLYC

Escolha a Marketeer como fonte preferida no Google Escolher ›

 

As minhas filhas dizem-me para não as comparar. E têm razão. Não há nada pior do que uma mãe dizer: “A tua irmã faz isto ou aquilo…”. A comparação é uma coisa tramada. Mesmo quando começa com boas intenções, acaba quase sempre por criar uma competição que ninguém pediu.

Continue a ler após a publicidade
Continue a ler após a publicidade

No MEO Kalorama, Mr. Entertainment, a.k.a. Robbie Williams, ao apresentar os seus filhos, ironizou com a ideia de ter um favorito. A piada funcionou porque todos percebemos o absurdo da comparação e, ao mesmo tempo, reconhecemos uma coisa muito humana: podemos relacionar-nos de formas diferentes com pessoas de quem gostamos da mesma forma.

E dei por mim a pensar nos meus LLMs. O meu “mai velho”, o ChatGPT, chegou primeiro. Foi com ele que fui mãe de primeira viagem nestas andanças. Experimentei, expliquei, corrigi, insisti. Fui-lhe dando contexto, exemplos e instruções. Fui dizendo o que gosto, o que não gosto, o que quero que questione e o que prefiro que não faça. Já conhece algumas das minhas manhas e manias. E isso nota-se. Há coisas que lhe digo de determinada maneira porque já sei que vai perceber. Noutras, nem preciso de explicar tanto. Há uma linguagem que fomos construindo.

Depois chegou o outro. E tive uma sensação estranhamente familiar: é preciso começar quase tudo outra vez. Explicar o que quero, como quero, o que não quero. Dar contexto, corrigir, voltar atrás, mostrar exemplos. Não é pior. É diferente.

Continue a ler após a publicidade

E esta distinção interessa-me porque percebi que não tenho propriamente um LLM preferido. Tenho um com quem falo melhor sobre umas coisas e outro com quem me entendo melhor noutras.

Uso um mais no meu campo pessoal, onde há espaço para dúvidas, contradições e vulnerabilidades. Com o outro, a relação é mais profissional. Conhece melhor determinadas dimensões do meu trabalho, a forma como penso e aquilo que procuro quando estou a tomar uma decisão.

E isto, afinal, também acontece com as pessoas. Há pessoas com quem tudo flui. Outras com quem precisamos de parar, explicar melhor, mudar a linguagem ou dar mais contexto. Não significa necessariamente que uma seja melhor do que a outra. Pode significar apenas que encontrámos mais depressa uma forma de comunicar.

Continue a ler após a publicidade

E talvez confundamos demasiadas vezes compatibilidade com competência.

Nas equipas, isto é particularmente evidente. Se uma pessoa responde bem à nossa forma de liderar, comunicar ou decidir, é fácil concluirmos que é mais alinhada, mais competente ou simplesmente “mais fácil”. E, quando isso não acontece, podemos cair na tentação de pensar o contrário. Mas talvez nem sempre seja assim.

A mesma forma de liderança pode funcionar muito bem com uma pessoa e precisar de ser ajustada com outra. Há quem precise de mais contexto, quem responda melhor a maior autonomia, quem pense melhor quando é desafiado e quem precise de tempo para organizar uma resposta.

O problema começa quando transformamos aquilo que funciona com algumas pessoas numa fórmula para todas as outras.

Continue a ler após a publicidade

Porque menos fricção não significa necessariamente melhor resultado. Às vezes, alguém que nos obriga a explicar melhor uma ideia também nos obriga a pensá-la melhor.

A Inteligência Artificial está a tornar isto particularmente evidente. Quando trabalhamos com um LLM, percebemos rapidamente uma coisa que já devíamos saber há muito sobre os humanos: não basta ter informação. É preciso haver comunicação. Podemos ter duas pessoas brilhantes numa sala e uma ideia extraordinária morrer porque ninguém conseguiu explicá-la bem.

Má comunicação acaba com muita coisa boa. Até com uma boa tecnologia.

Quando “ensinamos” um LLM a trabalhar connosco, damos exemplos, corrigimos, explicamos contexto, dizemos “não é isto, é aquilo”, mostramos o que valorizamos e ajustamos a linguagem. E, pouco a pouco, a interação muda. Não porque a máquina se tenha tornado nossa amiga, mas porque aprendemos a comunicar melhor com ela.

E talvez seja precisamente aqui que pessoas, liderança e Inteligência Artificial se cruzem: a qualidade da relação não depende apenas de quem está do outro lado. Depende também da nossa capacidade de perceber como comunicar, dar contexto e adaptar a forma como trabalhamos.

Não falamos da mesma forma com um filho, um colega, um cliente ou um amigo. E também não comunicamos exatamente da mesma forma com diferentes LLMs.

Ainda não pus os meus LLMs em competição. Quanto mais trabalho com eles, menos me interessa saber qual é o melhor. Interessa-me mais perceber com qual consigo fazer melhor determinada coisa — e porquê.

Um dá-me uma resposta que encaixa imediatamente. Outro obriga-me a explicar melhor a pergunta. E talvez seja precisamente aí que esteja a parte mais humana desta história.

Não estamos apenas a escolher máquinas. Estamos a aprender a relacionar-nos com elas. E, pelo caminho, talvez estejamos também a perceber melhor a forma como nos relacionamos uns com os outros.

As minhas filhas continuam a dizer-me para não as comparar e talvez tenham razão.

A pergunta, afinal, talvez não seja “Qual é o teu LLM preferido?” mas sim “Com quem consegues falar melhor para aquilo de que precisas?”






Notícias Relacionadas

Ver Mais