Delta Cafés: Muito mais do que café

CadernosNotícias
Marketeer
12/01/2026
09:50
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Antes de ser uma tendência, a sustentabilidade já fazia parte do ADN da Delta Cafés. Entre legado, inovação e impacto, a marca mostra como transforma valores em estratégia e prática diária.

Num momento em que a sustentabilidade deixou de ser um eixo reputacional para se afirmar como um factor de competitividade, a Delta Cafés continua a posicionar-se como uma referência nacional na integração dos princípios ESG no core do negócio. Com uma herança marcada pela visão humanista de Rui Nabeiro, o grupo tem vindo a transformar esse legado em estratégia, práticas concretas e impacto mensurável, ao longo de toda a cadeia de valor.

Nesta entrevista, Rita Nabeiro, administradora executiva do Grupo Nabeiro-Delta Cafés, explica o que significa, na prática, afirmar que a sustentabilidade “está no ADN” da empresa. Da economia circular à descarbonização, da inovação à responsabilidade social, passando pelo apoio aos pequenos produtores de café e pelos desafios globais associados às alterações climáticas, a responsável traça um retrato claro de como é gerir crescimento, reputação e propósito num contexto cada vez mais exigente para as marcas.

Na Delta Cafés, a sustentabilidade “está no ADN”. Que significado dão a essa afirmação e como asseguram que ela se traduz em acção no vosso dia-a-dia?

A história da Delta Cafés foi construída pela visão empreendedora e profundamente humanista do meu avô e fundador, Rui Nabeiro. Ele projectou para a empresa a sua forma de estar na vida: humana, solidária, sóbria e muito comprometida com as pessoas e a sua terra. Ou seja, muito antes da sustentabilidade corporativa ser uma tendência de mercado ou um imperativo formal para as empresas, o tema já fazia parte da nossa forma de estar e tornou-se intrínseco à nossa cultura corporativa. Esta visão forte e inegociável vinda do líder passou para todos os colaboradores, até porque o meu avô sempre esteve próximo da operação e das pessoas.

Fomos pioneiros na responsabilidade social em Portugal e uma das primeiras empresas a conquistar uma certificação nesta área – a Certificação em Responsabilidade Social (norma SA 8000), em 2002. Mais tarde, fomos das primeiras a publicar relatórios de sustentabilidade, por convicção, não por obrigação. Fomos evoluindo com sustentabilidade económica, assegurando que colaboradores, parceiros e clientes crescem connosco, e hoje, naturalmente, esta visão estende-se ao vector ambiental, onde temos vindo a transformar a nossa operação para a acção climática e para a descarbonização. Neste caminho, sentimos que o compromisso é colectivo e tem o contributo de todos. Somos cerca de 3800 colaboradores e cada um tem um papel directo na concretização dos objectivos globais, incluindo transversalizar a sustentabilidade, seja na área industrial, comercial, financeira, logística, inovação ou recursos humanos.

A criação da Direcção de Sustentabilidade foi um passo importante para alinhar negócio, estratégia e ESG.

Em 2024, o Merco (Monitor Empresarial de Reputação Corporativa) apontou o grupo como a empresa mais responsável em Portugal, nas vertentes Ambiente, Social e Governação. Qual o impacto deste reconhecimento?

Hoje, há um enorme escrutínio das empresas e não basta dizer que “somos”; temos de trabalhar para continuar a ser e a merecer a confiança depositada em nós. Este reconhecimento enche-nos de orgulho, reforça ainda mais o nosso compromisso com a sustentabilidade e traz muita responsabilidade para continuarmos em frente na transição verde e justa, mesmo num momento mais complexo e difícil para estes temas globalmente.

Queremos continuar a liderar pelo exemplo e assumimos a responsabilidade de inspirar e de partilhar o nosso conhecimento e práticas com o mundo empresarial, apoiando a nossa cadeia de fornecimento a fazer esta transição connosco.

No domínio ambiental, têm assumido projectos de economia circular – como a reutilização de materiais e uniformes ou a gestão responsável de resíduos. Como é que estas iniciativas se incluem na estratégia global?

A iniciativa de transformação das fardas em mantas, realizada em parceria com a ToBeGreen, teve um carácter simbólico e mostra que todos os passos na descarbonização do negócio contam. As fardas não são, obviamente, um resíduo relevante da nossa operação, mas existem e, por isso, devemos encontrar soluções para o seu tratamento em fim de vida. Temos como meta o encaminhamento de 100% de resíduos directos da operação para reciclagem ou valorização, um compromisso que nos desafia a repensar processos, materiais e destinos de fim de vida. Com esta acção, evitámos o envio de mais de uma tonelada de resíduos têxteis para aterro, o que corresponde à redução de cerca de 1224 kg de emissões de CO₂eq.

O grosso dos nossos resíduos directos da operação está relacionado com a torrefacção e embalamento de café, embora tenhamos outro portefólio no grupo que não é café, como é o caso do vinho e dos equipamentos de hotelaria. Temos, assim, vários projectos de valorização dos resíduos directos, que envolvem diferentes parceiros e indústrias, com o aproveitamento da cascarilha (uma sobra natural do processo de produção), da sarapilheira das sacas de café verde e até do plástico das cápsulas de café. Relativamente ao desperdício de materiais de embalagem, temos medidas de eficiência industrial para os reduzir ao máximo e reencaminhar para reciclagem.

No âmbito da economia circular destacamos o caso da Nãm, empresa que transforma a borra do café, recolhida nas máquinas de vending myBreak Delta Cafés, em cogumelos. Todos os anos, são transformadas cerca de 60 toneladas de borras de café em 40 toneladas de cogumelos. Com uma distribuição local, os cogumelos percorrem em média apenas 15 km até serem entregues aos clientes da restauração, em comparação com os 1500 km típicos para a distância entre produtor e consumidor, na Europa. O excedente de produção transforma- se em fertilizante e retorna à terra. De acordo com os relatórios de impacto da Nãm, já foram eliminadas mais de 140 toneladas CO2eq desde 2019, o equivalente à captura de CO2 de 2600 árvores anualmente – sensivelmente o tamanho de 3,5 parques do Jardim da Estrela em Lisboa.

Na cadeia de fornecimento de café, a Delta Cafés integra redes internacionais de promoção da sustentabilidade junto de pequenos produtores. Como avaliam os progressos alcançados e que desafios persistem?

Desde 2018, fazemos parte do Internacional Coffee Partners (ICP), uma iniciativa presente em 13 países, que reúne oito empresas europeias de café comprometidas com um futuro mais próspero para mais de 92 mil famílias produtoras. O ICP actua em várias frentes: oferece técnicas de plantação para aumentar a produtividade, financia equipamentos e promove formação sobre margens e preços, garantindo melhores condições de negócio. Além disso, trabalha para que as mulheres tenham iguais oportunidades.

Estamos comprometidos com o apoio aos pequenos produtores, que representam 85% da produção global de café. Um exemplo é o projecto Impossible Coffees, que nasceu para capacitar e promover o acesso de pequenos produtores ao mercado, através da Delta, e apoiá-los socioeconomicamente. Ou seja, damos apoio técnico para que desenvolvam as suas produções de café, tornando-as mais resilientes e com critérios de qualidade, para terem um negócio mais competitivo, assegurando e aumentando o rendimento da cultura de café.

A inovação tem sido central na estratégia ambiental da Delta Cafés. Quais as prioridades nessa área e de que forma estão a reduzir a pegada ambiental na cadeia de valor?

A inovação é central em todas as áreas do Grupo Nabeiro. No caminho para um negócio de menor impacto ambiental, a inovação permite-nos introduzir novas tecnologias, processos e soluções que reduzem a utilização de recursos virgens e/ou aumentam a eficiência dos mesmos, reduzem emissões e promovem um modelo de negócio mais circular. É através dela que testamos novos materiais, redesenhamos embalagens, desenvolvemos equipamentos mais eficientes, fazemos a transição energética, identificamos oportunidades de redução do impacto ambiental em toda a cadeia de valor e desenvolvemos novos produtos e modelos de negócio.

Actualmente, 60% da energia que usamos é de fontes renováveis, 22% da nossa frota é eléctrica e 99% dos resíduos directos da operação são reciclados e valorizados. Temos vários projectos de economia circular implementados e em piloto, e um foco muito grande na reciclabilidade das embalagens, incluindo o ecodesign.

Monitorizando a nossa pegada de carbono anualmente, sabemos em concreto de onde vêm as nossas emissões e grande parte está, naturalmente, ligada à produção agrícola de café (45%), o que nos obriga a olhar e a colaborar com a nossa cadeia de fornecimento. As embalagens (17%) e outros materiais usados na operação (14%) têm um peso muito relevante e devemos actuar sobre eles; também as emissões provenientes do uso dos nossos produtos são relevantes (14%). Estas áreas estão identificadas como prioritárias da nossa actuação.

No plano social, destacam-se projectos como a associação Coração Delta, focados em emprego, formação e intervenção comunitária. Pode dar exemplos de impacto junto das comunidades?

É um privilégio testemunhar o impacto transformador que as acções do Coração Delta têm gerado na comunidade, tendo impactado, nos últimos 20 anos, mais de 54 mil pessoas. Esta associação actua nas áreas da educação, saúde, solidariedade e inovação social e um dos projectos mais relevantes é o Centro de Talentos Alice Nabeiro, que presta apoio a crianças e jovens dos três aos 12 anos. Trata-se de um espaço educativo que fomenta a criatividade e a imaginação, onde as crianças e jovens desenvolvem as suas capacidades sociais e intelectuais, mas também o seu espírito empreendedor. Já impactou mais de 900 crianças.

Relevantes são, também, as iniciativas de apoio à população sénior, baseadas na prática de Voluntariado de proximidade em parceria com as organizações locais de solidariedade social, como a campanha “É Tempo de Ajudar”, uma iniciativa que mobiliza voluntários e a comunidade em geral para apoiar idosos em situação de vulnerabilidade, através da doação de produtos de higiene. Esta iniciativa já se realiza há 12 anos, a nível nacional e em parceria com as lojas Intermarché, e tem vindo sempre a crescer.

A expansão internacional está em curso. Como conciliam este crescimento com os compromissos ESG da empresa?

A nossa internacionalização é uma prioridade estratégica com o objectivo claro de alcançar o Top 10 mundial, assente no cumprimento rigoroso da estratégia, da governance e dos valores do grupo. A sustentabilidade, enquanto pilar fundamental, é por isso orientada por políticas corporativas aplicáveis a todas as geografias, complementadas pelo respeito pelas normas locais e pelos nossos Princípios Orientadores de Negócio, assegurando a aplicação transversal das políticas ESG.

Num contexto global em que este tema é incontornável, a nossa actuação reflecte a natureza do nosso negócio. Enquanto marca de café, com aquisição de café verde e torrefacção próprias, sempre fomos sensíveis à diversidade de geografias e contextos das origens da nossa matéria-prima, maioritariamente localizadas no coffee belt da América Latina, África e Ásia. Além disso, assumimos, sempre, a responsabilidade social perante as comunidades onde actuamos.

Que mecanismos internos têm para assegurar que as práticas de sustentabilidade, responsabilidade social e ética empresarial são integradas na cadeia de decisão da empresa?

Neste momento, temos uma Direcção de Sustentabilidade e Propósito para apoiar a jornada de sustentabilidade do grupo, em temas de conformidade legal ESG, descarbonização, economia circular e inovação verde, literacia e cultura ESG e responsabilidade social.

Temos uma Comissão de Ética e Compliance e partilhamos um Código de Ética e de Conduta, que estabelece o conjunto de princípios, valores e regras de actuação de todos os colaboradores em matéria de ética profissional.

Olhando para o futuro, quais os riscos ESG que enfrentam e como se preparam para eles?

As alterações climáticas têm impacto directo no futuro da agricultura do café, na estabilidade das comunidades produtoras e na resiliência da nossa cadeia de abastecimento.

Sabemos, por exemplo, que o café arábica representa 60% da produção mundial de café e que é extremamente sensível ao clima – com um aumento da temperatura acima ded 1,5 a 2°, prevê-se um risco de quebra de produção de 50%. Sabemos, também, que 80% da produção global de café é proveniente de 25 milhões de pequenos produtores. Para metade deles, o café é a principal fonte de rendimento e 22% vivem abaixo do limiar da pobreza. Estes dados reforçam os riscos associados às interrupções na cadeia de abastecimento, comprometendo a disponibilidade da matéria-prima e provocando danos em activos e infra-estruturas, impactando o preço do café e até a própria continuidade das operações.

As regulamentações ESG estão a tornar-se cada vez mais rigorosas, exigindo adaptação rápida para evitar sanções e garantir o negócio. Mas não se trata apenas de evitar multas, é uma questão de acesso a mercados, reputação corporativa e competitividade global, essencial para o negócio. É, assim, essencial a capacitação dos colaboradores para estas temáticas e, nesse sentido, temos um plano de literacia para partilha de conhecimento e aumento de competências sobre os temas ESG, facilitando a incorporação da sustentabilidade nas várias equipas e operações da empresa.

Que mensagem deixaria aos profissionais de marketing e à comunidade empresarial portuguesa, sobre o que significa gerir um negócio com “responsabilidade social e sustentabilidade” como parte do seu core business?

A trajectória da Delta Cafés demonstra que, quando o negócio está assente em valores autênticos e em práticas consistentes e responsáveis, consegue criar impacto, reputação e impulsionar o negócio. Hoje, somos muito mais do que uma marca de café líder de mercado, sabemos contar histórias que mobilizam, criar valor e inspirar confiança.

A sustentabilidade tornou-se um factor imperativo para consumidores e empresas, e é importante saber transformar uma narrativa local em legado global, mantendo a coerência e transparência entre o que se faz e o que se comunica. Acredito que gerir um negócio com responsabilidade é encarar o futuro com respeito pelas gerações vindouras e pela nossa casa comum.

Este artigo faz parte do Caderno Especial “Sustentabilidade e Responsabilidade Social”, publicado na edição de Dezembro (n.º 353) da Marketeer.




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