Debate: Viver mais e com mais qualidade

Cadernos
Daniel Almeida
16/06/2026
09:32
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Décadas de investigação na indústria farmacêutica contribuíram para o aumento significativo da esperança de vida. Agora, o grande desafio para a indústria passa por alinhar a longevidade com o envelhecimento com qualidade de vida

Nunca, como hoje, vivemos tanto tempo. A esperança média de vida à nascença em Portugal ronda os 81,49 anos, de acordo com os dados mais recentes do Instituto Nacional de Estatística (INE), relativos ao triénio 2022-2024. A indústria farmacêutica, através do seu investimento contínuo em investigação científica e do lançamento de terapêuticas inovadoras, afirma-se como uma das principais responsáveis pelo aumento da longevidade, havendo estudos que concluem que a inovação ao nível dos medicamentos acrescentou 10 anos à esperança de vida nas últimas décadas. Contudo, se o aumento da longevidade é amplamente positivo para a sociedade, não deixa de representar um conjunto de desafios para o futuro e a sustentabilidade do sector da Saúde como um todo.

Hoje, existem, por exemplo, diversas patologias que têm muito mais incidência do que há uns anos. «Neste momento, temos terapêuticas como a hipertensão, o colesterol e a diabetes, entre outras, falando apenas do ambulatório, que representam mercados completamente díspares daquilo que eram há uns anos. Vende-se muito mais este tipo de medicamentos. E isso tem a ver com a idade», reflectem os participantes no mais recente pequeno-almoço debate da indústria farmacêutica promovido pela Marketeer.

Por outras palavras, esta é uma tendência que acaba por ser natural: ao mesmo tempo que vamos envelhecendo, o nosso sistema imunitário também vai enfraquecendo, o que explica o aumento das doenças crónicas, como as cardiovasculares e respiratórias. Assim como, acrescentam os responsáveis, existem hoje mais casos de cancro a serem diagnosticados e tratados do que no passado, o que leva a que as doenças oncológicas «tendam a evoluir para doenças crónicas».

Para acentuar esta tendência, Portugal posiciona-se hoje como o quarto país mais envelhecido do mundo e o segundo da União Europeia. Ora, para a indústria farmacêutica, a junção destes dois factores – o envelhecimento da população e o aumento da longevidade – representa um misto de oportunidades e desafios. O maior deles será o de contribuir para promover o envelhecimento activo e com mais qualidade de vida. «A longevidade acaba por estar alinhada com o propósito da indústria farmacêutica: melhorar a qualidade de vida das pessoas. À medida que a esperança média de vida aumenta, estamos cá mais anos, mas queremos passá-los com qualidade. E Portugal ainda não tem esse índice», reiteram.

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Nesse sentido, as oportunidades para a indústria farmacêutica são vastas e estendem-se a vertentes como a medicina de ambulatório, a prevenção, a suplementação ou a nutrição clínica. Todas estas áreas estão a crescer no mercado nacional, o que mostra uma maior preocupação dos consumidores com a sua saúde e bem-estar. E não são apenas as empresas da área da saúde que estão a fazer este movimento no segmento de consumer healthcare: há empresas exógenas ao sector que estão a entrar nesta área, através da alimentação, como são os casos da Nestlé, da Danone e das cadeias de retalho alimentar, que já apresentam uma oferta muito completa e diversificada.

Luísa Silva (Sanofi), Rui Rijo Ferreira (Recordati), Vanda Silveira (Angelini Pharma) e Vera Grilo (Medinfar) foram os responsáveis presentes no mais recente pequeno-almoço debate da indústria farmacêutica, que decorreu no hotel Vila Galé Ópera, em Lisboa.

Obesidade lidera mercado

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Os dados disponíveis sobre as vendas de produtos farmacêuticos no mercado nacional confirmam precisamente esta maior preocupação dos consumidores com a sua saúde e a prevenção. Desde logo, o dado mais notório continua a ser o aumento das vendas de produtos para combater a obesidade, que nos primeiros dois meses do ano «suportaram o crescimento do mercado farmacêutico», analisam os responsáveis ouvidos pela Marketeer. Ao todo, o mercado cresceu cerca de 8% em Fevereiro, face ao período homólogo do ano passado, mas se excluirmos o efeito dos medicamentos para combater a obesidade, o crescimento ficou-se pelos 3% (fonte: IQVIA).

Os números explicam-se por uma performance abaixo do esperado no mercado OTC (over-the-counter, ou medicamentos de venda livre), particularmente em áreas como os produtos de Inverno ou para a dor. Em contrapartida, os suplementos multivitamínicos e medicamentos digestivos apresentaram uma tendência de crescimento.

A boa performance dos multivitamínicos, em particular, deve-se ao facto de as pessoas estarem cada vez mais informadas e terem cada vez mais acesso a touchpoints. Como consequência, querem investir em prevenção e querem produtos que se adaptam às suas necessidades específicas. «Os laboratórios têm a missão de, junto dos profissionais de saúde, poderem esclarecer e informar, porque têm a ciência e a credibilidade por trás. Há farmácias que já têm áreas de venda dedicadas à vida activa, o que torna a longevidade ainda mais interessante para as farmacêuticas, numa perspectiva de conseguirem alavancar tudo o que está relacionado com este tema», frisam os participantes.

Mas não é só na área dos OTC que estas tendências representam, para a indústria, oportunidades de trabalhar a prevenção de uma forma distinta em relação ao passado. No caso da vacinação, por exemplo, os laboratórios têm hoje a oportunidade (e o dever) de abordar temas como a vacinação dos 0 aos 100 anos, ou seja, das vacinas que funcionam para todas as gerações. «Temos, hoje, um programa nacional de vacinação muito forte para as crianças, com mais de 90% de cobertura, mas cada vez há mais pedidos para a prevenção ao nível da zona, da pneumonia, há de vacinas da gripe que começam a ser adaptadas para pessoas a partir dos 60 anos…», exemplificam os responsáveis do sector ouvidos pela Marketeer.

Outra área de potencial crescimento é a diabetes. Sendo esta uma doença que pode ter uma componente genética associada, hoje qualquer pessoa já pode fazer um rastreio que lhe permite prever, com alguns anos de antecedência, se pode vir a ser afectada. Além disso, já existem medicamentos no mercado que atrasam o aparecimento da doença entre três e cinco anos. «Além dos benefícios claros para a saúde dos consumidores, é uma oportunidade para proteger a sustentabilidade do Sistema Nacional de Saúde», reforçam.

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Da mesma forma, há avanços notórios, nos últimos anos, ao nível da inovação na área das doenças respiratórias crónicas, como a doença pulmonar obstrutiva crónica (DPOC), asma, bronquite ou alergias, que estão a crescer junto da população. Em todas estas áreas terapêuticas, e não só, há potencial de crescimento para a indústria farmacêutica.

As oportunidades do e-Commerce

À volta da mesa do Vila Galé Ópera, os responsáveis da indústria lembram que há outros factores que podem vir a impactar o crescimento do mercado farmacêutico nos próximos anos. É o caso do e-Commerce e da nova vaga de imigração.

Começando pelo primeiro, o comércio digital representa uma oportunidade óbvia para a indústria, que tem neste canal uma margem de progressão enorme, ou não representasse, neste momento, apenas cerca de 5% do mercado nacional de consumer healthcare (fonte: IQVIA). Não obstante, há categorias onde o e-Commerce já tem um peso relevante, nomeadamente nas áreas de personal care, como dermocosmética ou suplementação, mas também de produtos ligados à sexualidade, como a disfunção eréctil.

Alguns dos players representados à mesa não têm plataformas de e-Commerce próprias, mas tratam de toda a comunicação no meio digital e trabalham depois com parceiros na parte da distribuição. Sendo que a vertente da comunicação é, aqui, fundamental, porque, em muitas destas categorias, as pessoas encomendam os produtos online e não sabem a origem, a qualidade ou segurança dos mesmos. «A quantidade de produtos a que as pessoas têm acesso através do e-Commerce, e que não cumprem normas de qualidade – muitas vezes nem sabemos o que está dentro das embalagens –, é um risco para a saúde pública», alertam os responsáveis. «Se nós, enquanto indústria farmacêutica, não estivermos a dominar de forma científica e credível, que é o nosso papel, corremos o risco que as Temu da vida, que não entregam tanta confiança, dominem o digital e se apropriem do negócio», reiteram.

Por outro lado, o aumento da população imigrante em Portugal representa também uma oportunidade para as empresas farmacêuticas, que passam a ter acesso a mais 1,5 milhões de consumidores, segundos os dados do Relatório de Migração e Asilo 2024, produzido pela AIMA – Agência para a Integração, Migrações e Asilo. Para estas empresas, «não há distinção entre consumidores portugueses ou estrangeiros», pelo que «o aumento da população é sempre uma oportunidade».

Ainda assim, os responsáveis ouvidos pela Marketeer lembram que há uma parte dos imigrantes, particularmente os europeus, que prefere fazer os seus tratamentos fora de Portugal. Isso acontece, ou porque não têm confiança no sistema de saúde português – «sem qualquer justificação» –, ou porque os tratamentos são mais baratos no seu país de origem. Certo é que as empresas que têm marcas globais no seu portefólio, com maior reconhecimento, poderão beneficiar mais facilmente.

O desafio da literacia

Durante o pequeno-almoço debate, houve ainda tempo para discutir um tema que já é estrutural para o sector e que ganha maior preponderância nos tempos actuais: a literacia em saúde. Actualmente, já não é só ao “Dr. Google” que os consumidores pedem respostas sobre os seus problemas e dúvidas relacionados com a saúde, mas também aos chatbots de inteligência artificial.

Para os responsáveis presentes no debate promovido pela Marketeer, o surgimento da inteligência artificial generativa veio acelerar essa tendência dos consumidores procurarem respostas mais imediatas, mas que nem sempre são as mais válidas ou adequadas. «Há também aqui uma parte geracional. Se calhar os consumidores mais velhos não vão a esses canais, mas os mais novos tendem a desvalorizar mais o farmacêutico e a valorizar o ChatGPT. Se, daqui a uns anos, não tivermos uma comunicação na internet limpa – que vai ser muito difícil –, vai ser um problema», advertem.

Do lado da indústria farmacêutica, a resposta tem de continuar a passar por promover acções de literacia em saúde, povoando o espaço digital de informação credível e acessível. Porém, muitas dessas acções são promovidas de forma individualizada ou em conjunto com apenas alguns parceiros (como associações de doentes ou as Ordens) e acabam por não ter a visibilidade e o efeito desejados. Nesse sentido, é imperativo encontrar outras soluções. «Fazemos acções altamente válidas, mas que não deixam de ser muito fragmentadas e atomizadas. Até que ponto é que esta parte da literacia não deveria estar agregada nas competências de stakeholders maiores e mais abrangentes? Porque naturalmente a indústria tem um papel relevante, mas, se continuar a agir de forma isolada, nunca conseguirá ter um papel mais forte», sublinham os responsáveis, sugerindo que «tem de haver órgãos maiores e que se associem ao Estado que promovam a literacia em saúde de uma forma mais massiva».

Além disso, acrescentam, os profissionais de saúde têm um papel relevante na literacia e devem adaptar-se a um consumidor que é mais exigente e informado. A indústria farmacêutica tem feito esse papel, por exemplo junto dos médicos e farmacêuticos, no sentido de os dotar de ferramentas, não só na parte do conhecimento científico, mas da comunicação com o paciente. Mas esse trabalho tem de começar pelas faculdades, que devem actualizar-se ao nível formativo. «Hoje, qualquer um de nós pesquisa primeiro na internet e depois é que vai ao médico, já informado. O doente já não é passivo. E muitos profissionais de saúde ainda não estão sensibilizados para lidar com este perfil de doentes», concluem.

Este artigo faz parte do Caderno Especial “Saúde”, publicado na edição de Maio (n.º 358) da Marketeer.




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