Como a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa integra ESG no coração da sua missão, para uma estratégia de futuro com impacto e assente na inovação.
Com mais de cinco séculos de história, a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa (SCML) prova que tradição e inovação não são antagónicas. Pelo contrário. Da integração transversal dos critérios ESG à aposta no empreendedorismo social e no jogo responsável, a instituição secular está a reposicionar o seu papel no contexto socioeconómico nacional. Com um novo ciclo estratégico de sustentabilidade em fase de reestruturação e aprofundamento, a SCML reforça o compromisso de integrar a sustentabilidade no centro da sua operação, assumindo uma visão de longo prazo e procurando afirmar-se como um actor relevante e activo no ecossistema de empreendedorismo de impacto social em Portugal.
Nuno Comando, director da Casa do Impacto, o hub de empreendedorismo social da SCML, explica como a sustentabilidade está a ser integrada no centro da operação da instituição e reforça a ambição de aprofundar o papel da Santa Casa enquanto agente estruturante na promoção da inovação social, do investimento social estratégico e de respostas mais eficazes aos desafios que as comunidades enfrentam.
POLÍTICA DE SUSTENTABILIDADE
«A estratégia global de sustentabilidade e responsabilidade social da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa está intrinsecamente ligada à nossa missão centenária de promover o bem-estar e a inclusão social, sendo, na sua essência, a própria materialização dos Objectivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Agenda 2030 das Nações Unidas», afirma o responsável. É a partir desta base que a SCML integra critérios ESG (Ambientais, Sociais e de Governação) nos seus processos de decisão, desde a gestão de recursos até às parcerias institucionais, encarando a sustentabilidade como uma oportunidade para transformar modelos de actuação e reforçar o impacto social da instituição.
Este compromisso será formalizado num novo conjunto de objectivos estratégicos para a sustentabilidade da instituição. «Este plano encontra-se numa fase de reestruturação e aprofundamento da abordagem à sustentabilidade, assente numa Matriz de Materialidade que orienta as nossas prioridades », explica Nuno Comando, acrescentando que a implementação está prevista para o primeiro semestre de 2026.
A estratégia é, nesse sentido, estruturada em três eixos prioritários. «A Governança visa assegurar a continuidade da missão e gerir a instituição de forma ética e transparente, com foco na segurança da informação e na promoção de práticas de jogo seguras e responsáveis (jogo responsável).» O eixo Social prioriza «a qualidade e acessibilidade dos serviços, a diversidade e inclusão, o respeito pelos Direitos Humanos e o desenvolvimento das comunidades, além da promoção do voluntariado». Já o eixo Ambiental procura «proteger o meio ambiente, através da gestão de resíduos e da optimização de energia e emissões».
Enquanto entidade empregadora de cerca de 6000 profissionais e com impacto directo em comunidades vulneráveis, a SCML contribui activamente para vários ODS, nomeadamente a erradicação da pobreza (ODS 1), a saúde de qualidade (ODS 3) e a redução das desigualdades (ODS 10). A adesão aos 10 Princípios do UN Global Compact, desde 2018, bem como a participação em redes nacionais e internacionais, reforça esta visão de sustentabilidade integrada no núcleo da actividade da instituição.
INVESTIMENTO SOCIAL ESTRATÉGICO
O investimento social sempre foi um pilar da actuação da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, adaptando-se, ao longo dos séculos, às necessidades emergentes da sociedade. «A missão da Santa Casa tem sido de investimento social constante para fazer face aos desafios e necessidades que os tempos vão impondo à comunidade», sublinha Nuno Comando.
Hoje, esse investimento assume novas formas e modelos, alinhados com uma lógica de impacto, inovação e medição de resultados. Um dos exemplos mais representativos desta evolução é a Casa do Impacto, o hub de empreendedorismo social da SCML, criado em 2018 e que já acelerou mais de 480 startups. «Até ao momento, a Casa do Impacto já disponibilizou 3,4 milhões de euros para apoio de projectos inovadores », apoiando uma nova geração de empreendedores que desenvolvem soluções nas áreas da educação, emprego, habitação acessível, saúde mental, inclusão social e ambiente, entre outras.
Para além do programa de incubação da Casa do Impacto, onde as candidaturas estão abertas em permanência, decorre actualmente a segunda fase do Triggers, um programa de aceleração que estimula a geração de novas ideias e a sua transformação em soluções sustentáveis. Integrado no Consórcio Connect, o programa conta com o apoio de parceiros como a Galp, EDP, Crédito Agrícola e 3XP Global, envolvendo ainda a Universidade Nova de Lisboa e a Universidade Católica Portuguesa.
Paralelamente, a SCML deu um passo decisivo na estruturação do seu apoio a iniciativas externas, com a aprovação de um novo regulamento de atribuição de apoios e patrocínios. «Através da iniciativa Apoiar Mais, o novo processo garante maior eficiência, transparência e controlo financeiro, e alinha a atribuição de apoios com a missão e critérios ESG», refere.
No início de 2026, arrancou uma call piloto focada na Área Metropolitana de Lisboa e em três eixos estratégicos: educação e capacitação, inclusão de grupos vulneráveis e saúde mental e prevenção. Dirigida a entidades da economia social sem fins lucrativos, esta iniciativa prevê a atribuição de apoios até 10.000 euros, a medição de outputs concretos de impacto e a participação em workshops de capacitação. «As aprendizagens desta fase experimental permitirão aperfeiçoar o modelo e lançar calls temáticas», reforça Nuno Comando.
INOVAÇÃO COM PROPÓSITO
«A inovação, numa organização com 527 anos de existência, tem e terá sempre um papel que influencia profundamente a sua actuação no território.» Na Santa Casa, a inovação é entendida como um valor estruturante e um objectivo estratégico, assumindo uma dimensão tecnológica, social e organizacional.
Ao nível tecnológico, está a ser percorrido um caminho de adopção de ferramentas que permitem optimizar a gestão de recursos, aumentar a eficiência dos processos e monitorizar consumos energéticos e hídricos. Este esforço inclui projectos de desmaterialização e desburocratização das operações, bem como iniciativas de transformação digital nas áreas da Acção Social e da Saúde.
No plano social, a inovação manifesta-se através de programas de empreendedorismo, iniciativas de inovação interna e da promoção do voluntariado enquanto ferramenta estratégica de impacto social, complementando o trabalho desenvolvido no terreno e reforçando a capacidade de resposta da instituição.
Organizacionalmente, a inovação traduz-se no reforço da governance, com a criação do Gabinete de Compliance para promover ética, transparência e boas práticas, bem como na implementação de planos de diversidade e inclusão. «A Segurança da Informação é um tema material prioritário», sendo suportada por programas de formação obrigatória e anual em protecção de dados e cibersegurança.
INCLUSÃO E GESTÃO DE RECURSOS
A Misericórdia de Lisboa desenvolve a sua Política para a Diversidade e Inclusão através de Planos de Acção, procurando contribuir para uma organização mais diversa e inclusiva. A abordagem é holística e proactiva, centrada no apoio a populações vulneráveis e na criação de oportunidades equitativas. A SCML é signatária da Carta Portuguesa para a Diversidade, promove a acessibilidade aos seus serviços e plataformas digitais, e desenvolve iniciativas de emprego inclusivo, como a Valor T, que apoia a empregabilidade e integração profissional de pessoas com deficiência a nível nacional.
Na vertente ambiental, a SCML adopta uma abordagem preventiva, centrada na preservação dos recursos naturais, na eficiência energética e hídrica e na gestão de resíduos. As principais medidas incluem a substituição progressiva da iluminação por tecnologia LED, a instalação de sistemas solares fotovoltaicos, a monitorização em tempo real dos consumos de água e a transição digital para reduzir o consumo de papel e eliminar plásticos de utilização única. Este compromisso é reforçado pela adesão a iniciativas externas, como a Lisboa E-Nova e o Compromisso Lisboa Capital Verde Europeia – Acção Climática Lisboa 2030.
JOGOS SANTA CASA: MISSÃO SOCIAL
A missão social da Santa Casa está indissociavelmente ligada às receitas geradas pelos Jogos Sociais do Estado. «Entendemos o jogo sobretudo como uma actividade lúdica, que permite ao apostador sonhar com uma vida diferente e que lhe possibilite a concretização dos seus objectivos», explica Nuno Comando, sublinhando que «cada aposta materializa um apoio efectivo a alguém que necessita».
Num mercado cada vez mais competitivo, os Jogos Santa Casa assumem-se como um operador responsável por excelência, com uma política de jogo responsável assente na continuidade e na melhoria contínua. «Ao longo desse tempo, sucessivas medidas têm vindo a ser gradualmente implementadas, muitas das quais são pouco visíveis para o público em geral, mas têm consequências positivas para a prevenção de fenómenos de jogo problemático», enaltece.
Esta política inclui formação de colaboradores e mediadores, boas práticas no desenho e comunicação dos jogos, mecanismos de protecção e autoprotecção nos canais digitais, informação transparente sobre riscos e regras, campanhas de sensibilização e apoio psicológico a pessoas com comportamentos de jogo problemático.
Para Nuno Comando, o futuro dos Jogos Santa Casa passa por reforçar o seu papel social e sustentável. Programas como o Impulso – Bolsas de Educação Jogos Santa Casa, que apoia atletas olímpicos, paralímpicos e atletas académicos, ilustram esta visão de longo prazo, onde o investimento na educação e na preparação de um futuro pós-carreira é visto como um elemento essencial do impacto social e do caminho que a instituição pretende seguir.
«O grande desafio é que o retorno à sociedade se mantenha e que os Jogos Santa Casa se continuem a afirmar como uma marca socialmente responsável», conclui o director da Casa do Impacto, o hub de empreendedorismo social da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa.
Este artigo faz parte da edição de Fevereiro (n.º 355) da Marketeer.














