“Sabemos da nossa responsabilidade enquanto embaixadores da marca ‘vinho português'”, Augusto Brumatti, head sommelier do Vila Vita Parc

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Sandra M. Pinto
26/02/2026
11:00
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O reconhecimento chegou em grande estilo: Augusto Brumatti, head sommelier do Vila Vita Parc, foi distinguido como “Sommelier do Ano” pela Revista de Vinhos, reforçando a reputação do resort como um verdadeiro destino vínico em Portugal.

Por Sandra M. Pinto



Numa entrevista exclusiva, Brumatti partilha o significado deste prémio, a importância do trabalho coletivo da sua equipa de 16 sommeliers e revela a abordagem por trás da curadoria de vinhos em mais de 10 restaurantes do Vila Vita Parc. Entre diversidade de garrafas, harmonizações sofisticadas e experiências enogastronómicas únicas, o sommelier fala também sobre o papel dos resorts na formação de profissionais e na promoção da cultura vínica portuguesa.

Como se sente ao receber o título de “Sommelier do Ano” e ver a sua equipa reconhecida com prémios de grande prestígio?
Receber o título de “Sommelier do Ano” é uma enorme honra e motivo de orgulho. Sinto que é um momento muito positivo no meu percurso profissional, uma verdadeira sensação de dever cumprido. Ao mesmo tempo, traz uma grande responsabilidade e dá-me ainda mais motivação e energia para os próximos anos. Este ano começou da melhor forma para a nossa equipa. Além de mim, o João Wiborg, sommelier do restaurante Ocean, também foi distinguido como Sommelier do Ano pela Mesa Marcada. Este reconhecimento reforça o nosso compromisso, no Vila Vita Parc, com a excelência do nosso projeto de vinhos.

Que significado atribui estes prémios para o Vila Vita Parc e para a profissão de sommelier em Portugal?
O Vila Vita Parc tem sido, ao longo dos anos, reconhecido pela sua procura constante de excelência na hotelaria em Portugal, e no mundo dos vinhos não é diferente. Para mim, o maior significado destes prémios é a confirmação de que o trabalho bem feito, consistente e apaixonado, dá realmente frutos. Queremos continuar a investir e a dar cada vez mais ferramentas aos nossos Sommeliers, para que possam apresentar o que de melhor existe no mundo do vinho. O nosso objetivo é continuar a afirmar-nos como um verdadeiro destino vínico, não só em Portugal, mas também na Europa. O mundo dos vinhos e da sommellerie tem evoluído de forma muito positiva em Portugal, ano após ano, em todos os aspetos. É fundamental mantermos uma procura constante de formação e conhecimento, para elevar ainda mais este setor que é tão importante para nós. No Vila Vita, o vinho faz parte do nosso ADN, e vamos continuar a defendê-lo, valorizá-lo e elevá-lo como tal.

De que forma estas distinções refletem o trabalho coletivo da equipa de 16 sommeliers do resort?
O trabalho consistente da equipa, a boa comunicação e a formação contínua são a base do nosso serviço de vinhos. É isso que nos permite manter um padrão elevado e coerente. Vivemos um momento desafiante na hospitalidade, e acredito que o fator humano é essencial. Cuidar das nossas equipas, valorizá-las e apoiá-las é fundamental, porque quando as pessoas se sentem bem, isso reflete-se naturalmente no serviço prestado ao cliente.

Qual foi a sua abordagem ao assumir a curadoria vínica de mais de 10 restaurantes do Vila Vita Parc?
A nossa abordagem começa por perceber quem é o cliente Vila Vita e quais são as suas expectativas. A partir daí, procuro dar o meu cunho ao projeto, sempre com foco na identidade e na diversidade. Queremos que cada vez que os nossos clientes entrem num dos restaurantes do Vila Vita, encontrem um projeto de vinhos único, alinhado com a cultura e a gastronomia do espaço. O objetivo é oferecer diversidade de escolhas, equilibrando clássicos intemporais com novas tendências, desde produtores icónicos a produtores emergentes. Trabalhamos com grandes regiões, mas também com aquelas menos conhecidas, valorizando castas indígenas e vinhos com muita história. Afinal, a verdadeira beleza do vinho está na sua diversidade.

Como equilibra a diversidade de vinhos portugueses e internacionais para criar uma identidade vínica única para o resort?
A nossa proposta é, sem dúvida, oferecer ao cliente a possibilidade de ter um pouco de todo o mundo na carta de vinhos. Ao mesmo tempo, temos plena consciência da nossa responsabilidade enquanto embaixadores do vinho português, sobretudo porque a maioria dos nossos clientes vêm de fora. Levamos essa missão com muita seriedade e procuramos garantir que todas as regiões de Portugal estejam bem representadas. Talvez este seja o desafio mais simples de concretizar, porque a nossa oferta é ampla e diversificada. Queremos continuar a apostar nessa riqueza e, acima de tudo, assegurar que cada cliente encontre na nossa carta vinhos de grande qualidade, escolhidos com critério e paixão.

A Cave de Vinhos do Vila Vita Parc alberga mais de 11.000 garrafas. Como decide quais vinhos integrar e quais saem da seleção? Procuramos, antes de mais, qualidade. Depois, é fundamental garantir diversidade, falamos de diferentes países, regiões, castas, produtores e estilos, entre outros critérios que enriquecem a nossa oferta. É igualmente importante compreender o nosso público-alvo e a identidade de cada outlet, para perceber o que faz sentido em cada espaço. Trabalhamos com vinhos em diferentes faixas de preço, desde opções mais descontraídas para o dia a dia até garrafas únicas e raras, capazes de proporcionar momentos verdadeiramente especiais.

De que forma o vinho contribui para a experiência enogastronómica global do hóspede?
O vinho é uma parte fulcral da enogastronomia. Encontrar equilíbrios, criar boas harmonizações e contar histórias através do vinho são aspetos essenciais deste trabalho. É importante ter sempre presente que um vinho pode elevar um prato, equilibrá-lo e acrescentar-lhe contexto e identidade. No final, o grande objetivo é criar experiências únicas, onde comida e vinho caminham lado a lado, em perfeita sintonia.

Pode partilhar algum exemplo de como um vinho específico ajuda a contar uma história ou criar ligação emocional com os clientes?
Posso partilhar o vinho que considero com maior valor histórico e que reflete Portugal em uma garrafa: o Vinho do Porto, proveniente da primeira região viníca demarcada do mundo, data a 1756. É um vinho que carrega séculos de história, e cuja os  produtores continuam a preservar métodos tradicionais transmitidos de geração em geração. No Vila Vita, temos uma seleção única de Vinhos do Porto, incluindo rótulos datados de vários anos, permitindo que os nossos clientes escolham um vinho do seu ano de nascimento, tornando assim a experiência mais pessoal e emocional.

Como integra as cartas de vinhos com os menus dos diferentes restaurantes do resort, considerando estilos de cozinha variados?
Ao integrar as cartas de vinhos, começo sempre por compreender os sabores, os estilos e a identidade de cada cozinha. Também tenho em conta a imagem e o posicionamento do restaurante, seja mais casual ou fine dining. Com base nessas referências, desenho cartas que façam sentido dentro desse contexto e procuro sempre acrescentar um conceito claro. Pode ser algo mais direto e intuitivo, como uma carta 100% dedicada a vinhos italianos num restaurante italiano, ou uma abordagem mais abrangente, como uma seleção de vinhos do mundo acompanhada por uma proposta sólida de sakês num restaurante asiático. Todas estas nuances são cuidadosamente consideradas para que cada espaço seja verdadeiramente único e tenha uma oferta de vinhos alinhada com a sua proposta gastronómica.

De que forma incentiva a formação contínua da sua equipa de sommeliers e a atualização face às tendências do setor?
Vivemos um momento na hospitalidade em que nem todos os jovens querem seguir esta área. No mundo dos vinhos, porém, existem fatores muito positivos: além da componente teórica e da exigência do serviço, há também a vertente mais “lúdica” de conhecer regiões, produtores e as suas histórias. Existe uma dimensão de paixão muito forte, que acaba por cativar quem entra neste universo. No Vila Vita Parc, fazemos questão de receber produtores semanalmente no nosso espaço para provas e momentos de partilha com a equipa. Conhecer as pessoas que estão por trás das garrafas e ouvir as suas histórias, cria uma ligação mais profunda com os vinhos da carta, não apenas profissional, mas também pessoal.
Além disso, na época baixa organizamos viagens de equipa a regiões vínicas, como forma de reforçar o espírito de grupo e aprofundar conhecimentos. São momentos de aprendizagem e de união, mas também um verdadeiro privilégio, porque as regiões onde nascem grandes vinhos são, quase sempre, das mais bonitas.

Quais são as inovações recentes no serviço de vinhos que implementou no resort e que se destacam para os hóspedes?
As inovações que mais se irão sentir passam por uma aposta reforçada em mais opções de vinhos a copo e por cartas com estilos e características bem definidos. Quero que os clientes sintam que cada carta de vinhos do resort tem uma identidade e um conceito próprio. A intenção é proporcionar uma experiência vínica rica e diversa dentro do Vila Vita, algo verdadeiramente diferenciador e único em Portugal.

Como lida com a crescente exigência dos clientes em termos de vinhos, experiências sensoriais e harmonizações?
Lidamos com a exigência de forma muito positiva, porque sabemos que os nossos clientes esperam sempre o máximo de nós. Temos consciência de que colocamos a fasquia elevada na qualidade da oferta e no cuidado com que recebemos cada cliente, e é precisamente isso que nos motiva a manter um padrão de excelência em tudo o que fazemos. Adaptar é algo contínuo e indispensável na hospitalidade, e no mundo dos vinhos não é diferente. Os mercados evoluem, a oferta cresce e a qualidade é cada vez maior. Para estarmos sempre preparados para as exigências dos clientes e na vanguarda da hotelaria em Portugal, a chave é a pesquisa constante. Estou sempre a provar vinhos de diferentes estilos, a visitar restaurantes e a acompanhar novas tendências a nível internacional. Só assim consigo trazer novidades e experiências diferenciadoras aos nossos hóspedes, que chegam até nós com referências de todo o mundo.

Que aprendizagens da sua experiência em restaurantes como Fortaleza do Guincho, Alma ou 100 Maneiras trouxe para a estratégia do Vila Vita Parc?
Todos os espaços por onde passei trouxeram-me aprendizagens fundamentais para a posição que ocupo hoje. Posso destacar o rigor técnico e o serviço clássico da Fortaleza do Guincho, a consistência, resiliência e forte espírito de equipa do Alma, e a irreverência e criatividade do 100 Maneiras. Essa diversidade de perspetivas e valores ajudou-me a construir uma visão mais ampla e completa do nosso mercado. Procuro trazer essa riqueza e complexidade para as experiências que criamos e para o trabalho com a equipa, com a ambição de elevar o nosso projeto vínico a novos voos.

Como vê a evolução da profissão de sommelier em Portugal nos próximos anos e o papel de resorts como o Vila Vita Parc nesse contexto?
Acredito que, nos últimos anos, o mercado dos vinhos em Portugal tem registado um crescimento muito positivo, e os sommeliers fazem claramente parte dessa evolução. A formação e o know-how estão cada vez mais sólidos nos nossos espaços, e a qualidade dos vinhos disponíveis no mercado continua a aumentar. Além disso, surgem novos importadores e rótulos de várias partes do mundo, o que nos dá mais ferramentas e mais oportunidades para elevar o nosso trabalho. Nesse sentido, o Vila Vita é quase um “parque de diversões” para um sommelier. Trabalhamos com vinhos de diferentes estilos e origens, o que nos permite oferecer uma experiência muito rica ao cliente. Ao mesmo tempo, proporciona aos nossos profissionais uma verdadeira visão global do vinho, promovendo um conhecimento mais completo e um crescimento consistente para quem quer evoluir na área.

Que conselho daria a jovens sommeliers que desejam alcançar excelência e reconhecimento nacional?
Não darei conselhos, pois cada percurso é único, mas posso partilhar alguns valores e atitudes que me ajudaram a chegar até aqui: Personalidade, Fé, Humildade, Respeito, Formação, Consistência, Resiliência, Pesquisa, algum Sacrifício, trabalhar com os melhores, ouvir mais e falar menos, e nunca desistir. Estes são alguns dos pilares que moldaram o meu caminho e que continuam a guiar a minha profissão e vida.

 




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