Opinião de Jorge Remondes, Professor do ISCAP, Coordenador da Pós Graduação de Digital Content Marketing & Analytics da Porto Executive Academy
Durante muitos anos, o marketing digital centrou-se na rapidez. Desde vídeos de dez segundos, passando por outros conteúdos curtos, títulos apelativos, até aos algoritmos inteligentes, tudo foi concebido para chamar a atenção do público antes do próximo scroll. A ideia que prevaleceu por muito tempo foi a de que o conteúdo curto gerava mais alcance e mais reações. No entanto, hoje em dia verifica-se o oposto. As pessoas já não procuram apenas rapidez, procuram essencialmente profundidade e autenticidade.
O crescimento dos podcasts, das newsletters e dos vídeos mais longos põe à vista de todos uma grande transformação cultural. Com muita informação disponível, o conteúdo curto deixou de ser um fator de diferenciação e tornou-se cada vez mais ruidoso nas redes sociais e plataformas digitais. É um facto que a atenção não deixou de existir, mas deixou de ser oferecida gratuitamente.
Na comunicação de marketing, esta mudança representa muito mais do que uma simples alteração nos formatos de conteúdo. Trata-se, sobretudo, de uma mudança na relação entre as marcas e os seus públicos. Durante muito tempo, a comunicação digital privilegiou métricas básicas, como as visualizações e os gostos. O problema é que o alcance não significa influência e as visualizações não garantem confiança.
Hoje, o consumidor valoriza mais as marcas que explicam, contextualizam e sustentam as suas próprias ideias. Por exemplo, um podcast permite aprofundar os argumentos, mostrar o lado humano dos líderes e construir autoridade. Um vídeo mais longo transmite transparência e credibilidade. Uma newsletter frequente cria proximidade com o leitor. Estes formatos de conteúdo, são exemplos de como se pode conquistar a atenção do público, em vez de o interromper.
O paradoxo é bastante claro: quanto mais rápido se tornou o consumo de conteúdos digitais, mais valioso se tornou o tempo das pessoas. Ouvir uma conversa real demonstra interesse genuíno. Ler um artigo até ao fim mostra confiança em quem o escreve. Por isso, os conteúdos médios e longos
tornaram-se agora um ativo estratégico para um posicionamento correto e para a reputação das marcas.
Apesar desta evolução, o conteúdo curto não vai desaparecer. Vai continuar a ser relevante para a pesquisa, o entretenimento e a distribuição. Mas já perdeu o estatuto de ser a solução para tudo. O erro de muitas marcas foi acreditar, durante demasiado tempo, que comunicar menos era comunicar melhor, mas não, era apenas comunicar mais depressa.
As novas gerações digitais confirmam isso de uma forma muito clara. Passam várias horas por dia a consumir podcasts e a visualizar vídeos mais longos. Procuram experiências genuinamente humanas e mais próximas de uma conversa real. Por isso, a autenticidade passou atualmente a competir com a perfeição algorítmica.
Para os profissionais de comunicação e marketing, o desafio deixou de ser chamar a atenção do público em poucos segundos e passou a ser conseguir mantê-la por mais tempo. Isso exige que elaborem estratégias editoriais eficazes, mantenham consistência narrativa e determinação para aprofundar temas num ecossistema digital onde ainda prevalece a superficialidade.
A morte do conteúdo curto não significa o fim da rapidez. Significa, sobretudo, o regresso da relevância. E talvez seja essa a grande oportunidade do marketing e da comunicação digital nos nossos dias: voltar a gerir conteúdos que as pessoas não apenas veem, mas também escolhem ouvir.












