Eles são os novos artesãos: Casa Bohemia

Casos & EstratégiasFacebook
Maria João Lima
08/08/2026
16:05
Casos & EstratégiasFacebookNegócios
Maria João Lima
08/08/2026
16:05
Eles são os novos artesãos: Casa Bohemia

Partilhar

A história da Casa Bohemia escreve-se de idas e vindas, partidas e chegadas. De Paris, do Algarve e de Lisboa. É entre este triângulo que nasce o projecto que hoje ocupa um pequeno atelier com espaço para workshops, onde Katia Coelho e Aureliano Aleluia dão forma e odor a velas, sprays e sabões que desenvolvem em nome próprio e para espaços como Casa Mãe, +351, Villaextramuros e Lisbon Insiders.

Escolha a Marketeer como fonte preferida no Google Escolher ›

Katia Coelho nasceu em Paris, filha de pais portugueses (algarvios), e aí viveu até aos 42 anos, apesar de aos 17 anos se ter apaixonado por Lisboa, onde conhecia muita gente e que visitava com regularidade. Movia-se no mundo da moda, mas com a gentrificação de Paris começou a perder o encanto pela cidade que sempre adorara. Em 2014, com duas filhas (uma delas com um ano), decide mudar-se para Lisboa.

Conhecera Aureliano Aleluia em 1998 no Algarve, onde tiveram um breve romance de Verão (ela com 16, ele com 19 anos). Apesar de viverem ambos em França, perderam o contacto durante anos e quando Katia Coelho vem para Portugal, já separada do pai das suas filhas, reencontram-se (Aureliano estava em Portugal desde os 20 anos, tendo trabalhado na banca e em turismo) e a história continuou o seu curso. Hoje são uma equipa na vida e na Casa Bohemia.

Continue a ler após a publicidade
Continue a ler após a publicidade

Na verdade, o projecto inicial da Casa Bohemia era restaurar a casa da avó de Katia, no Algarve, e fazer uma casa aberta. «Queria pôr o foco na região sem ser só a parte turística; ser outra coisa», diz enquanto confirma que, pelo histórico familiar de ambos, têm grande apego ao Algarve. Mas o projecto teve que ficar em pausa. «Não sabemos se vamos conseguir fazer. O projecto está aprovado e a ideia é linda, mas é complicado porque a área é muito grande e tem armazéns que queremos transformar em casa. São investimentos muito grandes.»

Katia Coelho nunca foi mulher de estar parada e quis sempre colocar a mão na massa em tudo o que fazia. E foi o que aconteceu com aquilo para que a Casa Bohemia evoluiu. Com uma formação feita para aprender a pirâmide olfactiva no sul da França, tinha tudo preparado para avançar com o lançamento das velas Casa Bohemia (design do rótulo, etiquetas, papel escolhido), quando a grande pandemia global colocou o mundo em casa. Recusando-se a parar, criou uma conta de Instagram, «apesar de não termos muitos seguidores, os que temos são orgânicos», começou a fazer fotografias com os protótipos que tinha e foi assim que começaram a chegar as primeiras encomendas, que eram respondidas a partir de casa. Pediam uma, duas, três velas até que, num determinado dia, chegou o pedido do hotel São Lourenço do Barrocal, o primeiro que se enquadrou na área de parcerias.

Com o passa-palavra a funcionar, as vendas foram crescendo (na produção Katia passou a contar com Aureliano que, segundo diz, é ainda mais picuinhas na atenção a todos os detalhes) e começaram a ter as primeiras lojas a vender produtos Casa Bohemia que, hoje, são o canal que responde pelo grosso das vendas, a par do espaço próprio perto das Amoreiras, em Lisboa.

Continue a ler após a publicidade

«Fazemos questão de não estar em muitos sítios. Em Lisboa estamos n’A Vida Portuguesa e num espaço no Chiado. No Porto estamos na Flórida, no Mercador (Rua das Flores) e na Good Things, que são lojas bem afastadas umas das outras. Depois estamos na Comporta, em Almancil e em Olhão (numa concept store)», contam em conversa com a Marketeer, salientando que são sempre lojas de topo, com um posicionamento premium. «O nosso acaba por ser um produto que é dispendioso», justifica. Fora do País, a marca está em lojas em Itália, na Islândia e em França (em vários locais devido à facilidade de Katia no meio).

No que toca a vendas online, apesar de reconhecerem que o site apresenta algumas lacunas (de programação e funcionalidade, levando a que muitas visitas não se convertam em vendas, uma vez que têm privilegiado a parte estética e editorial), é também para França que vendem grande parte do que é expedido, apesar de também terem muitos pedidos para os EUA, o Reino Unido e já terem vendido para o Japão e a Austrália. Katia Coelho dá o exemplo de uma encomenda de 80 velas que tiveram de uma empresa de produção de moda de Nova Iorque, que vai oferecer velas Casa Bohemia num evento.

«É engraçado, feitas em Lisboa para oferecer em Nova Iorque.» E nessa lógica de B2B têm respondido a pedidos de empresas, como a Visa (para a Web Summit), o Grupo Louis Vuitton, que fez um pedido para um evento da Givenchy, ou um condomínio em Vilamoura, que pediu 1000 velas, e de particulares, como casamentos ou outras celebrações, em que compram grande quantidade para oferecer a amigos. Mas venha de onde vier o pedido, uma coisa é certa: a marca e o nome Casa Bohemia estão sempre lá. Sempre. «Nós não enchemos velas. Podemos ter rótulos criativos e diferentes, mas sempre com o nosso nome. Nunca perdemos a nossa identidade.»

Continue a ler após a publicidade

Hoje, não são apenas velas que saem das mãos destes artesãos. Actualmente, têm as velas (as que mais vendem são as de 220 gramas, mas também têm de 380 gramas e outras maiores), sprays aromáticos, sprays para a cama e sabão líquido. Além disso, têm porta-velas de pedras portuguesas (usando sobras de pedras de outros trabalhos).

No atelier (perto das Amoreiras) disponibilizam um sistema de refill em que os clientes podem deixar o suporte da vela para limpar e reencher (sendo o valor mais acessível do que uma vela nova; a nova custa 48 euros, o reenchimento 26 euros) com o mesmo aroma inicial (porque o barro é poroso e fica sempre o cheiro). «Sentimos essa necessidade, uma vez que temos clientes que usam bastantes velas e seria desperdício do barro», explicam, salientando que já estão a aplicar o mesmo sistema de refill no caso dos sprays.

A produção varia em função daquilo que os clientes mais estão a procurar, mas em média são feitas cerca de 250 velas por mês, abrangendo os vários tamanhos. «É tudo feito à mão, por nós, aqui no atelier», asseguram, com excepção da olaria, em que contam com uma pessoa do Algarve e uma de Leiria. «Inicialmente, fazíamos só com uma pessoa do Algarve, mas esteve doente e percebemos que não podíamos depender só de uma pessoa.» No entanto, não é fácil encontrar quem trabalhe com barro branco. E apesar de terem tentado arranjar uma segunda pessoa no Algarve, apostando em respeitar a origem da marca, não conseguiram e acabaram por dividir as encomendas entre o Algarve e Leiria. «Fazem formatos diferentes.»

E falando nas origens, na produção dos sabões é utilizado azeite do Algarve de um lagar, em São Brás, de onde é a família paterna de Katia. Também o papel é português, tal como os sacos, que são de algodão biológico. «Gostamos muito de tudo o que seja português», sublinha Aureliano Aleluia, mas não conseguem que seja tudo proveniente de Portugal. A cera de soja é polaca e os perfumes chegam-lhes do sul de França, de Grasse. «No início, quando fiz as minhas pesquisas, tentei encontrar fragrâncias com a mesma qualidade em Portugal e não consegui», justifica Katia. «Como não encontrei, trabalhamos com um perfumador no sul de França, uma família de pai e filho, que desenvolve os perfumes para nós. Ou seja, eu digo-lhe o tipo de figo que quero, um figo um pouco verde, e eles mandam amostras até chegarmos ao que queremos. A partir daí temos uma olfateca, isto é, uma base de cheiros. E com essa base de cheiros eu desenvolvo combinações.» Essas combinações são as receitas que, depois de desenvolvidas, são cumpridas à risca para não haver alterações nos produtos a que os clientes se habituam. «O Aureliano tem um livrinho de receitas dos perfumes que eu criei e as receitas estão bem guardadas», garante Katia Coelho.

Continue a ler após a publicidade

Entre essas receitas estão também as desenvolvidas a pedido de outras marcas, de que é exemplo o hotel de Lagos, Casa Mãe. Kátia Coelho conta: «Tinham já um cheiro para os produtos de corpo, que é feito só com produtos locais. Queriam uma vela que tivesse o mesmo cheiro ou que fosse parecido. Mandei-lhes a vela de figo. A responsável respondeu que tinha crescido em frente à Diptyque no Boulevard Saint-Germain, em Paris, e que a nossa vela de figo era muito melhor do que a deles. Estudei o cheiro dos produtos que já tinham na Casa Mãe e desenvolvi um cheiro parecido. A partir daí tornou-se o cheiro deles e nós vendemos no atelier.» Também no caso da marca +351 foram contactados pela responsável, que lhes passou o que pretendia da vela e Katia fez nascer a receita. «Em geral, as colaborações, que têm um peso de cerca de 10% no volume de negócios, surgem porque nos contactam a pedir, nunca fomos proactivamente à procura. Até porque não temos tido tempo.»

Melhorar a experiência do sono

A mais recente parceria da Casa Bohemia foi com a Momo, marca portuguesa de roupa de cama e de banho em bambu. «Andávamos à procura de uma marca que complementasse a experiência do sono e o ritual do slow living e relax», conta Filipa Guimarães, co-fundadora da marca. «Encontrámos a Casa Bohemia, associada a muita qualidade e que completava esta ideia do slow living», acrescenta Gil Dias, co-fundador da Momo. Daí a marcarem uma data para se conhecerem e para um workshop foi um passo a que se seguiu a criação do aroma Momo x Casa Bohemia e o seu nome: Somnia 1.0. «Adoro o processo da escolha dos nomes e vejo o impacto que tem para as pessoas. Há clientes que, na indecisão por cheiros, escolhem pelo nome. O nome tem quase tanto impacto como o cheiro», assegura Katia Coelho.

A fundadora da Casa Bohemia explica que no caso do Somnia 1.0, o cheiro desenvolvido é à base de mimosa, portanto floral, mas não enjoativo, tendo notas de cheiro a bebé. Primeiro, escolheram o cheiro e só depois o nome. «Fizemos uma pesquisa em redor do sono. Somnia dá para perceber e 1.0 porque foi pensado nas várias fases do sono e deixa a porta aberta para novas edições», explica. Enquanto isso, o co-fundador da Momo salienta que com esta vela querem criar memórias olfactivas relacionadas com a criação dos espaços com os têxteis da marca. «Espaços que tragam harmonia, serenidade, calma e leveza. As velas são lindas e o aroma é muito bom.» Filipa Guimarães acrescenta que a ideia é perfumarem todas as encomendas com o cheiro da Momo, juntando uma breve informação a dar a conhecê-lo. Desta forma a Momo consegue entrar em casa das pessoas e dar a conhecer o seu cheiro, algo que de outra forma seria difícil por terem venda exclusivamente online. Para já, as velas podem ser compradas no site da Momo e, de futuro, poderá vir a ser lançado o spray para a cama.»

Este artigo faz parte da edição de maio (n.º 358) da Marketeer






Notícias Relacionadas

Ver Mais