A economia do ruído

CadernosNotícias
Marketeer
19/06/2026
09:03
CadernosNotícias
Marketeer
19/06/2026
09:03

Partilhar

Por: Catarina Tomaz, Directora de Marketing dos centros VIA Outlets em Portugal

Há um desconforto que já não conseguimos ignorar: todos sabemos que este modelo está esgotado, mas continuamos a alimentá-lo.

A economia da atenção deixou de ser apenas uma lógica de mercado para se tornar uma condição cultural. Tudo disputa o mesmo activo escasso: o nosso foco. E, no meio dessa disputa, perdemos densidade.

O paradoxo é claro: nunca tivemos tantos canais, mas raramente tivemos tão pouca escuta. Nunca produzimos tanto conteúdo, mas com tão pouco impacto real. E, ainda assim, insistimos. Porquê? Porque continuamos presos a modelos de crescimento assentes em volume. Os budgets pedem mais. As métricas pedem mais. E a resposta automática é simples: aumentar o ruído.

Mas há aqui um ponto ainda mais estrutural e menos discutido. As métricas em que assentamos muitas decisões estão desajustadas da realidade actual.

Continue a ler após a publicidade

Segmentações rígidas, indicadores como o NPS, lógicas de alcance como GRP ou a obsessão por views – modelos pensados para um contexto menos complexo – continuam a ser usados quase por inércia.

Não porque sejam os melhores, mas porque são os que existem. E porque parar para os repensar implica tempo. Tempo esse que não temos, porque é preciso fechar o mês, cumprir o plano, entregar volume.

Curiosamente, o próprio mercado começa a reconhecer essa limitação.

Continue a ler após a publicidade

Crescem as discussões sobre a dificuldade dos modelos tradicionais de brand tracking explicarem mudanças reais de performance ou de ligarem métricas de marca a resultados de negócio. Mas, mesmo com essa consciência, pouco muda.

E depois há os exemplos do dia-a-dia. Dizem-nos que o formato que melhor funciona são vídeos de três segundos. Melhor funciona? Ou apenas gera mais métricas quantitativas? Mais views, mais números para reports. Mas o que fica? O que é lembrado? Confundimos performance com impacto. E, nesse processo, afinamos tudo para o algoritmo, afastando-nos das pessoas.

Entramos, assim, num ciclo difícil de quebrar: usamos métricas que simplificam a realidade para decidir mais rápido… e contribuímos para um sistema que exige decisões cada vez mais rápidas e menos reflectidas.

E talvez por isso o ruído não seja apenas excessivo. É cada vez mais indiferenciado. O problema já não é só a quantidade, é a monotonia. Filmes construídos para gerar emoção acabam por soar todos ao mesmo. Já não distinguimos quem está a comunicar. Apenas reconhecemos o padrão.

Quando todas as marcas procuram os mesmos códigos, deixamos de ter posicionamento para ter redundância.

Continue a ler após a publicidade

Num mercado onde tudo parece relevante, pouco verdadeiramente se destaca.

E, no entanto, há sinais de ruptura.

Em várias conversas, surge a mesma conclusão: este ritmo é insustentável. Fala-se, ainda que em surdina, da necessidade de abrandar. Mas a ideia parece quase utópica.

Num contexto onde todos gritam, onde estará o “blue ocean”?

Este artigo faz parte da edição de Maio (n.º 358) da Marketeer.




Notícias Relacionadas

Ver Mais