É com a convicção de que a internacionalização já deixou de ser uma ambição distante para se tornar uma condição de crescimento que a SPi entra numa nova fase, depois de ter reforçado recentemente a sua estrutura de liderança com a nomeação de Sofia Moura como chief operations & business officer e de Pedro Lopes como chief creative & strategy officer. A reorganização procura dar maior capacidade de resposta à expansão internacional e consolidar uma estratégia que a produtora vem a construir há quase uma década.
Para Sofia Moura, competir à escala global necessita muito mais do que boas ideias, exigindo uma combinação entre criatividade, excelência técnica e uma operação suficientemente robusta para responder à complexidade dos projetos internacionais, onde os modelos de financiamento, as coproduções e a gestão de parceiros são hoje tão determinantes como a qualidade das histórias. Em entrevista à Marketeer, a responsável defende que o verdadeiro desafio passa por encontrar o equilíbrio entre eficiência operacional e visão criativa, permitindo à produtora ganhar escala sem comprometer aquilo que considera ser o principal ativo: a capacidade de contar histórias relevantes e universais.
Essa visão é complementada por Pedro Lopes, para quem a internacionalização não implica diluir a identidade portuguesa, mas precisamente reforçá-la. O agora chief creative & strategy officer acredita que são as histórias profundamente enraizadas na cultura local, mas capazes de abordar emoções e temas universais, que melhor conseguem atravessar fronteiras. E num mercado transformado pelas plataformas de streaming, onde os espectadores descobrem ficção produzida em geografias cada vez mais diversas, a autenticidade torna-se, na sua perspetiva, uma vantagem competitiva e não uma limitação.
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O futuro da SPi, produtora de conteúdos como Codex 632 (Globoplay) ou Glória (Netflix) parece passar, assim, pelo desenvolvimento de propriedade intelectual própria, reforço de modelos de codesenvolvimento com equipas internacionais e aprofundamento de relações de confiança com parceiros de diferentes mercados. Mas depois de experiências de coprodução com países como Brasil, Espanha ou Islândia, a produtora acredita que o crescimento dependerá menos da geografia e mais da capacidade de antecipar tendências, estruturar modelos de financiamento sustentáveis e criar histórias que consigam dialogar com audiências globais sem perder a identidade que lhes dá origem.
Como se redesenha uma produtora para competir globalmente?
Sofia Moura (SM): Para se afirmar em qualquer mercado, uma produtora precisa, acima de tudo, de boas histórias. Mas isso, por si só, não basta. É fundamental reunir o melhor talento artístico e técnico e complementá-lo com uma operação eficiente, que permita ser competitiva, crescer e ganhar escala sem comprometer a qualidade do que entrega.
Quando passamos a competir à escala global, o nível de exigência aumenta significativamente. De repente, estamos lado a lado com as melhores produtoras do mundo, a disputar os mesmos projetos e as mesmas oportunidades. Isso obriga-nos a elevar continuamente a fasquia da criatividade, da excelência técnica e da eficiência operacional.
Acresce que os modelos de financiamento para viabilizar um projeto à escala global internacional são, regra geral, mais sofisticados e exigentes, o que torna essencial combinar visão criativa com uma forte capacidade de gestão.
Hoje, o sucesso de uma produtora depende precisamente desse equilíbrio: contar histórias que façam a diferença, rodear-se dos melhores profissionais e ter uma organização capaz de responder aos desafios de um mercado cada vez mais competitivo e global.
A internacionalização é mais uma ambição ou uma necessidade (para conseguir crescimento)?
SM: Competir num mercado global é naturalmente uma oportunidade de crescer, atingir novos mercados, desenvolver novos formatos, conquistar outras audiências. Mas só com uma enorme ambição se pode competir a essa escala.
Quais os principais objetivos, oportunidades e desafios desta nova fase?
SM: Encaro este desafio como uma oportunidade de dar continuidade a um caminho onde a SPi entrou há quase 10 anos, e onde temos conseguido mostrar a nossa capacidade e qualidade. Fomos pioneiros e inovadores, o que torna o desafio ainda mais exigente. Mas existem muitas oportunidades, o que nos obriga a sermos ainda mais eficientes, exigentes, criativos, competitivos.
“Não existem fronteiras para uma boa história. Quando existe uma visão criativa sólida e os parceiros certos, o mundo é o limite”
Quais são hoje as maiores barreiras à internacionalização de conteúdos portugueses?

SM: Criar histórias relevantes, diferenciadoras e universais é sempre o ponto de partida. Mas o verdadeiro desafio que permite que estas ganhem vida, está em reunir os parceiros certos e encontrar os modelos de financiamento mais adequados a cada projeto. Isso exige, muitas vezes, uma grande capacidade de adaptação e criatividade na forma como se estruturam as coproduções, se combinam diferentes fontes de financiamento e se conciliam interesses distintos. É um exercício exigente, mas essencial para tornar viáveis projetos ambiciosos e garantir que chegam ao público com a qualidade que idealizámos.
Que mercados internacionais estão no radar da SPi?
SM: O nosso percurso demonstra precisamente essa capacidade de trabalhar em contextos muito distintos. Já coproduzimos com mercados tão diferentes como o Brasil, a Islândia e Espanha, o que prova que sabemos adaptar-nos a diferentes culturas, modelos de produção e formas de financiamento. No fundo, acreditamos que não existem fronteiras para uma boa história. Quando existe uma visão criativa sólida e os parceiros certos, o mundo é, verdadeiramente, o limite.
Como é possível equilibrar eficiência operacional com criatividade?
SM: Há uma certa ideia de que as áreas criativas viajam longe, sem se preocuparem com os custos e a eficiência do negócio, mas isso não é verdade. É um exercício de definição estratégica e boa gestão em que todas as áreas criativas, operacionais e de negócio têm de estar envolvidas. Esta atual estrutura reflete isto mesmo, e permitirá trabalhar com ainda maior antecipação e planeamento, rigor.
Que tipo de parcerias internacionais são prioritárias?
SM: Naturalmente, os países com os quais partilhamos afinidades culturais e históricas surgem como parceiros mais evidentes. No entanto, muitas das melhores oportunidades encontram-se noutras geografias. É aí que entra a criatividade: na capacidade de desenvolver histórias que sejam universais, mas que, ao mesmo tempo, tenham relevância e ressoem junto dos públicos de cada mercado. Por isso, não fechamos portas a nenhum país. O importante é encontrar os parceiros certos e os modelos de financiamento adequados, construir projetos que façam sentido para todos os envolvidos.
“Portugal reúne condições para ser relevante não apenas como destino de produção, mas sobretudo como origem de histórias capazes de dialogar com audiências globais”
Como se constrói uma identidade criativa global a partir de Portugal?
Pedro Lopes (PL): Constrói-se, antes de mais, assumindo uma identidade própria. Nunca acreditámos que o caminho passasse por reproduzir modelos já consolidados, nomeadamente o norte-americano. A verdadeira diferenciação está na capacidade de contar histórias que nascem da nossa realidade cultural, mas que abordam questões profundamente humanas e, por isso, universais.
Costumo dizer que tudo começa com uma boa história, bem contada. Parece uma ideia simples, mas tornou-se ainda mais relevante num mercado em que o público tem acesso a uma oferta praticamente ilimitada. Num contexto de enorme concorrência, a originalidade continua a ser o principal fator de diferenciação, mesmo quando trabalhamos géneros que têm convenções consolidadas.
Isso implica investir seriamente no desenvolvimento. Na SPi sempre considerámos que esta é uma fase estratégica. Um guião sólido é o elemento que determina muitas das restantes decisões criativas. Podemos reunir um excelente elenco, os melhores realizadores, uma direção de fotografia e uma direção de arte irrepreensíveis, ter elevados valores de produção, mas sem uma narrativa consistente dificilmente conseguiremos criar uma obra capaz de gerar envolvimento emocional e permanecer na memória.
Ao mesmo tempo, construir uma identidade criativa implica investir nas pessoas. Ao longo dos anos procurámos trabalhar com autores consagrados, mas também com as novas gerações, promovendo a renovação de ideias e de linguagens. Essa aposta no talento e na criação de relações de confiança tem sido fundamental para afirmar a SPi como parceiro de desenvolvimento em projetos internacionais.
No fundo, construir uma identidade criativa global a partir de Portugal não significa produzir histórias que pareçam internacionais. Significa criar histórias profundamente portuguesas na sua identidade, mas universais naquilo que dizem sobre a condição humana.
Acredito que Portugal reúne hoje condições para desempenhar um papel cada vez mais relevante neste contexto internacional. Não apenas como destino de produção, mas sobretudo como origem de histórias capazes de dialogar com audiências globais. Os produtores independentes estão muito conscientes dos desafios, acredito que o poder político também esteja a aprender com exemplos de sucesso, como a nossa vizinha Espanha, porque a competitividade também se faz através de uma visão estratégica para o sector.
O que faz com que uma produção portuguesa tenha potencial para “viajar”?

PL: A universalidade da premissa, julgo que é fundamental. Contar histórias que podem ser locais, mas que têm apelo internacional, conseguem ser descodificadas, existem elementos de nos liguem emocionalmente, independentemente da geografia e da língua. Não quero com isto dizer que não existe uma facilidade maior para a ficção em língua inglesa, mas, atualmente, a capacidade de circular internacionalmente pode vir a depender menos da origem geográfica do que da força da sua proposta narrativa.
Nos últimos anos verificou-se uma mudança estrutural na forma como o público consome conteúdos. As plataformas de streaming habituaram-nos a descobrir histórias produzidas em países que anteriormente não tínhamos acesso e por isso pouco sabíamos da sua ficção. Por isso, as histórias que melhor viajam, são aquelas que assumem plenamente a sua identidade cultural. Paradoxalmente, num mercado global, a autenticidade tornou-se uma vantagem competitiva. O que as estaçõees de televisão e as plataformas procuram são olhares singulares sobre o mundo, e eu acredito que podemos ser originais e ter audiência.
Como se articula a criatividade com a estratégia de longo prazo?
PL: Hoje é impossível pensar a criatividade sem uma visão estratégica. A sustentabilidade de uma produtora depende da capacidade de desenvolver vários projetos em simultâneo, em diferentes fases de maturação, criando um pipeline que permita responder às oportunidades do mercado, sem depender do sucesso imediato de um único título.
Esse investimento deve centrar-se sobretudo no desenvolvimento de propriedade intelectual. Num setor cada vez mais competitivo, desenvolver conteúdos originais é um ativo estratégico. Ao mesmo tempo, o próprio processo criativo tornou-se mais internacional. Muitas das séries que desenvolvemos resultam de modelos de codesenvolvimento, envolvendo writers’ rooms compostas por autores de diferentes nacionalidades. Essa diversidade enriquece a escrita, amplia as referências criativas e aumenta naturalmente o potencial de circulação internacional dos projetos.
Apesar de estarmos sediados em Lisboa, há uma crescente internacionalização dos processos de desenvolvimento, com coproduções mais ambiciosas, equipas criativas multiculturais e modelos de financiamento cada vez mais colaborativos. Este foi um caminho que demorou alguns anos, em que tivemos de estabelecer relações de confiança, pelo que acredito que as produtoras que terão maior relevância nos próximos anos serão aquelas que conseguirem equilibrar visão criativa, estratégia empresarial e capacidade de construir parcerias internacionais duradouras.
Que principais tendências se vão afirmar num futuro próximo no setor?
PL: Falamos muito sobre tendência, mas, quem procura replicar aquilo que está a resultar no presente chega inevitavelmente tarde, porque entre o início do desenvolvimento de uma série e a sua estreia decorrem frequentemente dois ou três anos.
O verdadeiro desafio consiste em estar atento à realidade, antecipar mudanças sociais, conhecer os hábitos de consumo das diferentes gerações e estar disposto a arriscar, não nos deixarmos dominar completamente pelos dados, apesar deles serem importantes para medirmos os riscos. Na minha opinião, continuaremos a assistir a uma forte procura por géneros com grande capacidade de circulação internacional, como o thriller e o policial, no entanto, acredito que o principal fator diferenciador continuará a ser a singularidade da ideia e a qualidade da execução.
Produtora portuguesa SPi reforça liderança para acelerar expansão internacional












