Dia Mundial da Rádio: “Num mundo dominado por algoritmos, a rádio continua a ser humana e de confiança”

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Rafael Ascensão
13/02/2026
10:00
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Esta sexta-feira assinala-se o Dia Mundial da Rádio, numa altura em que o setor enfrenta vários desafios e uma transformação acelerada, marcada pela digitalização, fragmentação das audiências e pressão das grandes plataformas globais. Ainda assim, para Luís Mendonça, presidente da direção da Associação Portuguesa de Radiodifusão (APR), a rádio mantém intactos os seus principais atributos: proximidade, credibilidade e serviço público.

“Num contexto dominado por algoritmos e excesso de informação, a rádio continua a ser um meio humano, direto e fiável, que acompanha os cidadãos no quotidiano”, sublinha o responsável.

Num ecossistema mediático cada vez mais disperso, Luís Mendonça identifica assim como principais mais-valias da rádio a proximidade com os ouvintes, o imediatismo e a acessibilidade universal, assim como a capacidade de companhia e a forte ligação às comunidades, sobretudo a nível local e regional.

Mas apesar destas caraterísticas e da resiliência do meio, o setor enfrenta desafios estruturais que vão desde a fragmentação das audiências, à “concorrência desigual” com plataformas digitais globais, a pressão sobre as receitas publicitárias e a “necessidade de investimento tecnológico num contexto económico exigente”.

“A rádio tem mostrado resiliência, mas o investimento está aquém do potencial do meio”, admite o presidente da APR, apontando a transferência de verbas publicitárias para plataformas digitais internacionais como um dos principais fatores. Ainda assim, sustenta, continua a ser “um meio eficaz e com excelente relação custo-benefício”.

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A aposta no digital

Nos últimos anos, as rádios portuguesas têm vindo a reforçar a sua presença no digital, apostando em streaming e podcasts. Um dos marcos mais relevantes ocorreu no início de 2025, quando as rádios associadas da APR passaram a estar disponíveis de forma híbrida através da plataforma DTS AutoStage, tecnologia que “combina a emissão tradicional com funcionalidades digitais avançadas, permitindo que as estações preferidas dos ouvintes estejam disponíveis em qualquer ponto do país, sem interrupções”, explica o responsável.

E graças a um acordo entre a APR e a norte-americana Xperi, as rádios portuguesas puderam aderir gratuitamente a esta tecnologia, que permite alternar automaticamente para a transmissão online sempre que o sinal tradicional falha, garantindo continuidade de escuta em qualquer ponto do país.

Para Luís Mendonça, este foi um passo decisivo na modernização do setor, embora reconheça que persistem constrangimentos, nomeadamente a falta maior capacidade de investimento e um melhor acesso a dados e métricas e apoios específicos, sobretudo para as rádios de proximidade.

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Em relação ao crescimento dos podcasts, este não é encarado como uma ameaça à rádio linear. “São complementares”, afirma o presidente da APR, explicando que enquanto a rádio mantém vantagens claras no direto, na atualidade e na companhia diária, os podcasts alargam a oferta e permitem captar novos públicos.

Mas também a inteligência artificial começa a marcar presença no setor, sobretudo na automatização de processos, análise de dados e apoio à produção. Contudo, Luís Mendonça não tem dúvidas: “A IA é uma ferramenta de apoio, mas não substitui o papel humano, a criatividade nem a responsabilidade editorial”.

Um enquadramento regulatório desajustado

Numa análise ao enquadramento regulatório, a APR considera que o setor continua excessivamente condicionado e restringido, com o seu presidente a defender uma maior equidade regulatória e fiscal face às plataformas digitais e a simplificação de obrigações consideradas desajustadas à realidade económica das rádios.

Entre as medidas prioritárias para garantir a sustentabilidade da rádio, Luís Mendonça destaca apoios à transição digital, valorização dos conteúdos produzidos pelas rádios — muitas vezes utilizados por plataformas sem retribuição — e programas de incentivo à produção local.

No caso das rádios locais, Mendonça sublinha a urgência de aprovar a medida 26 do Plano de Ação para a Comunicação Social, que prevê a valorização das rádios locais e a sua inclusão no regime de transmissão do “Direito de Antena” em todas as eleições, e não apenas nas autárquicas.

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A rádio, na verdade, continua a desempenhar um papel determinante na coesão social e territorial. “Em muitas regiões é o principal — ou único — meio de proximidade, fundamental para a identidade local, a informação de serviço e a resposta em situações de emergência”, sublinha Luís Mendonça.

Contudo, o presidente da APR alerta para fragilidades estruturais preocupantes. “As rádios continuam a não estar ligadas à Proteção Civil e isso é decisivo para termos um país mais coeso, mais solidário, a verdade é que quando a rádio foi necessária, tanto no apagão do dia 28 de abril de 2025, como nos recentes acontecimentos ocorridos na zona centro do país, ela, muitas das vezes, não esteve disponível para dar apoio às populações, porque, a esmagadora maioria das rádios não tem um sistema de geradores”, explica.

“No início dos anos 2000 foi iniciado um plano para instalar geradores nas rádios portuguesas, um processo que se iniciou mas que nunca foi concluído. É urgente retomar esse plano”, acrescenta.

No que diz respeito às rádios locais em concreto, estas enfrentam desafios específicos, essencialmente relacionadas com fragilidade económica, limitações de escala e dificuldades de investimento, pelo que para o responsável é essencial criar apoios estruturados, flexibilizar regras e reforçar a digitalização e a formação.

Mas, ainda assim, a visão para a próxima década é otimista, com Luís Mendonça a antever uma rádio mais multiplataforma e tecnologicamente evoluída, mas fiel à sua essência. “A rádio continuará a ser um meio relevante e profundamente humano”, conclui.




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