Suplementos merecem atenção

Em 2016, quase 30% da população ingeriu suplementos alimentares. Um número surpreendente (ou talvez não), que justifica a aposta cada vez maior das empresas farmacêuticas nesta categoria. Este foi um dos temas em discussão no debate organizado pela Marketeer.

Texto de Daniel Almeida

Foto de Paulo Alexandrino

Os consumidores portugueses estão cada vez mais preocupados com a sua saúde e bem-estar, tendência que se revela no número de pessoas que praticam desporto, no boom do consumo de alimentos biológicos e superalimentos, mas também de suplementos alimentares. No ano passado, 2,7 milhões de portugueses (ou 26,6% da população) usaram suplementos alimentares, de acordo com o Inquérito Alimentar Nacional e de Actividade Física.

O estudo, promovido por um consórcio liderado pela Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, conclui ainda que as mulheres (31,5%) recorrem mais a este tipo de produtos do que os homens (21,5%), e que o cálcio foi o micronutriente mais ingerido pelos seniores, enquanto a vitamina D foi o mais tomado pelas crianças.

Apesar da forte concorrência de empresas não farmacêuticas, a indústria farmacêutica não está alheia ao fenómeno e várias são as companhias que, hoje, têm no seu portefólio suplementos alimentares – alguns deles bem conhecidos do público em geral, em virtude de um forte investimento em marketing e publicidade – que servem como complemento à oferta de produtos não sujeitos a receita médica. Como consequência, a farmácia e a parafarmácia deixaram de ser espaços dedicados em exclusivo à venda de medicamentos para passarem a ter uma oferta alargada na área do bem-estar pessoal (suplementos, dermocosméticos, entre outros).

«Antigamente, o suplemento alimentar era mais usado para dar resposta a algumas carências que tínhamos [no organismo]. Hoje, têm uma função diferente: prolongar o bem-estar e saúde», afirmam os participantes no pequeno-almoço debate organizado pela Marketeer, acrescentando que «os suplementos conseguiram encontrar o seu espaço no mercado e chegar a vários targets».

Ainda segundo os responsáveis, as perspectivas do aumento do peso da população sénior na pirâmide demográfica portuguesa levarão a uma constante inovação e investigação nesta área dos suplementos alimentares.

Dina Heliodoro (Johnson & Johnson), Miguel Fernandes (Pfizer), Patrícia Gouveia (Janssen), Pedro Martins (Novartis) e Sofia Freire (Angelini) foram os responsáveis presentes no VIII pequeno-almoço debate da Marketeer sobre o estado da indústria farmacêutica em Portugal, que decorreu no Hotel The Vintage House, em Lisboa. Em cima da mesa estiveram outros temas que estão a provocar mudanças no mercado, como a regulamentação nas áreas da comunicação/eventos e investigação, ou as compras centralizadas de medicamentos no circuito hospitalar.

Impacto das compras centralizadas

A centralização das compras de medicamentos é um dos temas na ordem do dia e que promete mudar a face da indústria farmacêutica em Portugal. Por recomendação do Ministério da Saúde, os hospitais públicos estão a reforçar a compra colectiva de grandes quantidades de medicamentos, em determinados grupos terapêuticos, com o intuito de reduzir as despesas do Estado. Na prática, a compra de medicamentos passa a assemelhar-se a um leilão, em que é aberto um concurso e vence a empresa farmacêutica que apresentar a melhor proposta.

O tema não é novidade, mas tem vindo acentuar-se este ano. «Foram adjudicados alguns concursos, pelo que há uma série de produtos que já estão centralizados. Até ao final do ano, não vamos receber mais concursos, procedimentos nem consultas de preços por parte dos hospitais [para esses medicamentos]. A menos que as quantidades acabem», esclarecem os participantes no debate da Marketeer.

O novo sistema pretende tornar a compra de medicamentos no mercado hospitalar mais eficiente. Porém, acaba por colocar maior pressão sobre as empresas que vencem os concursos públicos: «Já há experiências neste processo de centralização que estão a correr mal. Na escolha de um produto único, a empresa tem de garantir o abastecimento total do mercado, e nem todas têm capacidade de produção para, de um dia para o outro, começar a fornecer. Já houve casos, por exemplo, de medicamentos genéricos que foram adjudicados, em que a empresa não tinha a quantidade necessária para fornecer», comentam os responsáveis.

Nesse sentido, este sistema – que não é exclusivo do mercado português – pode ameaçar a própria actividade destas empresas mais pequenas e forçar uma maior concentração do mercado. Por outro lado, irá obrigar as companhias a desenvolverem, cada vez mais, produtos inovadores e que sejam exclusivos no mercado. Hoje, cerca de 70% das vendas no segmento hospitalar correspondem a produtos exclusivos.

Nova Lei do Medicamento não convence

Outro tema que tem causado apreensão no mercado prende-se com a nova Lei do Estatuto do Medicamento. Publicada a 6 de Janeiro em Diário da República (decreto-lei n.º 5/2017) e em vigor desde Fevereiro, a nova lei proíbe, em traços gerais, que as empresas farmacêuticas patrocinem acções de natureza científica – como sejam congressos, acções de formação ou investigação científica – em hospitais ou outras entidades do Sistema Nacional de Saúde (SNS).

A decisão surpreendeu o mercado, até pela celeridade com que foi anunciada e implementada. E pese embora não afecte aquilo que é a actividade normal do delegado de informação médica, para os responsáveis presentes no debate da Marketeer o tema ainda carece de explicações por parte do Ministério da Saúde, até para que se possa aferir a sua verdadeira motivação. «Se isto decorre da necessidade de transparência, de combater os conflitos de interesse e [garantir] que os médicos não têm qualquer tipo de influência no momento em que têm que fazer uma prescrição, não é proibindo as coisas que se vai impedir de fazer isso, mas sim aumentando a transparência», defendem os participantes.

De acordo com os mesmos, aquilo que vai acontecer é que as empresas farmacêuticas, na impossibilidade de realizarem um congresso médico, por exemplo, num hospital público – prática até agora corrente no sector -, vão passar a realizar o mesmo tipo de eventos em hotéis ou noutros espaços capacitados para tal. Em alternativa, há a possibilidade de o hospital em questão pedir autorização ao Ministério da Saúde para acolher este tipo de eventos. Contudo, ainda não há uma comunicação oficial sobre quem, no Ministério, ficará com esse pelouro.

No caso do financiamento à investigação clínica, o sistema é semelhante, isto é, será necessária autorização por parte do Ministério. Antigamente, as empresas farmacêuticas negociavam directamente com o director de serviço, o médico ou outro profissional que solicitasse financiamento para a realização de um estudo ou ensaio científico. A partir de agora, o contrato passa a ser assinado entre a empresa farmacêutica, o investigador e o conselho de administração do hospital, com o objectivo, especulam os participantes, de controlar exactamente qual o valor investido. Para os responsáveis ouvidos pela Marketeer, este sistema acaba por ser redundante, uma vez que já existe «a plataforma da transparência, onde são públicos todos os cêntimos que nós investimos numa actividade destas». Então, «qual a diferença em relação ao que já acontecia?», questionam.

Artigo publicado na edição n.º 250 de Maio de 2017.

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