A família cresceu

O nascimento de um bebé corresponde a mudanças na vida dos seus pais. O que destacaria?

Temos, pois, dois adultos, duas pessoas com características próprias, que viveram os nove meses de gravidez com experiências individuais e que construíram um conjunto de expectativas sobre o que seria trazer o seu novo bebé para casa. E depois temos um bebé. E tudo o que irá decorrer no futuro tem a ver com este sistema e as suas dinâmicas próprias…

Sobre este tema recordo-me do pediatra e investigador Brazelton, que considerou o recém-nascido como “alguém” com identidade própria. Um ser competente, complexamente organizado, dotado de um conjunto de competências comportamentais e comunicacionais que lhe permite interagir com os outros (um ser social), capaz de influenciar as respostas que recebe do meio. Então, se antes havia uma díade (dois adultos), agora estamos frente a uma família de três (pelo menos), que é um sistema. Tem a ver com aquele pai, aquela mãe, aquele bebé. Descrevemos este bebé como competente e complexamente organizado, enfrentando um conjunto especialíssimo de novidades que correspondem à passagem de um meio intra-uterino, ligado à mãe pelo cordão umbilical, para um meio fora do útero, em que terá de lidar com um conjunto imenso de circunstâncias novas. Este bebé é bombardeado por estímulos que, como se conhece, são imprescindíveis para a “qualidade” do seu desenvolvimento, mas… são novidade! E estes pais (seja com o nascimento de um primeiro filho ou quando estes já existem) estão também a viver uma situação nova. E levamos tempo a habituarmo-nos às novidades!…

O nascimento de um bebé e a chegada a casa são uma fase de desafios para o bebé e também para os pais… De desafios e preocupações…

Quais as principais preocupações reveladas pelos pais quando estão a levar o bebé para casa?

Ao sair do hospital, onde há médicos, enfermeiros e outros profissionais que ajudam no que é necessário, nomeadamente nas novas tarefas de cuidar do bebé, os pais sentem-se muitas vezes sozinhos, sem terem quem responda às suas questões: o meu bebé é saudável? O meu bebé estará bem quando está a chorar? Assim, pais e mães descrevem a preocupação com a saúde e sobrevivência do bebé como estando bem patente desde o início, quando se vai para casa. Este é um dos grandes “temas” de preocupação: a saúde do bebé. O outro tema tem a ver com a qualidade/competência para dele cuidar. Poderia, talvez, traduzir isto em duas perguntas que pairam nas mentes das mães/pais (como tantas vezes me referem): e agora?!… Será que vou ser boa mãe/bom pai?

Todos os pais querem ser perfeitos, não é? Como é gerir a frustração/ /sentimentos da imperfeição na nova dinâmica familiar?

Sim, todos os pais querem ser perfeitos e tomar consciência de que se é responsável por outra vida pode ser bastante exigente. Claro que isto é muito importante para os pais e está associado a um redemoinho emocional. Estas emoções são intensas e, por vezes, parecem extremadas e contraditórias: amor, ansiedade, solidão, medos… Gosto de pensar nisto como paixão!… O bebé é capaz de “provocar” nos pais vulnerabilidades emocionais, mas, também, forças desconhecidas. Apaziguando os seus receios e preocupações, mãe e pai vão descobrindo as características únicas do seu bebé e começam a atribuir-lhes significado – “ele fica mais calmo quando toca ‘aquela’ música; vê-se bem que gosta…”. Agora já não falamos do bebé imaginado e “ideal” da gravidez. Com os pais está um bebé real. Como diz o professor Gomes-Pedro no seu livro “Pensar a Criança, Sentir o Bebé”: “Com a descoberta do bebé, aprendemos a descobrir o outro; porventura também um pouco de nós…”

Pode indicar alguns conselhos/ /recomendações para a adaptação dos pais à nova dinâmica ditada pela chegada do bebé?

Para além do que vamos estudando, da partilha entre profissionais que trabalham nesta área, tenho o privilégio de, ao longo dos anos, ter acompanhado pais e mães que “testaram” uma série de estratégias e que dão testemunho pessoal da sua utilidade.

Um dos “temas” mais referidos tem a ver com a preparação da chegada a casa com o novo bebé e dos dias que se seguem, no que diz respeito a algumas questões práticas:

• Berço e carrinho do bebé pronto, com os lençóis e a mantinha; zona de mudar as fraldas também pronta, com tudo o que será necessário;
• Roupas para o bebé lavadas e arrumadas (algumas mães referem que colocaram etiquetas nas gavetas, para que quem vier ajudar saiba o local de cada coisa);
• Frigorífico e congelador abastecidos – facilita muito ter as refeições preparadas ou adiantadas.

Alguns pais consideram útil limitar o número de visitantes e/ou as horas para visitas; alguns até treinam antes a forma simpática de explicar que no dia X a visita seria muito bem-vinda, mas que agora o bebé está a organizar as horas de sono e provavelmente mãe e bebé não poderiam estar disponíveis para os receber…

Quanto às pessoas próximas (família e amigos), estas vão adorar ajudar. Aproveitem mesmo! Compras, cozinhar, limpar ou realizar outras pequenas tarefas são coisas que podem delegar. Diversos pais referem que ter estas coisas organizadas e pensadas um mês antes da data prevista para o nascimento os deixa mais descansados… Na chegada a casa, mães e pais são um importantíssimo apoio um do outro e poderão ter de utilizar uma boa dose de “criatividade” para resolver algumas situações. Mas, principalmente, o bebé nasceu e está em casa, a família cresceu!

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