O papel do profissional da Comunicação na pandemia

Por Isabel Clemente, sócia-fundadora da Priori – Comunicação & Propósito

A pandemia do novo coronavírus leva-nos a pensar de imediato na missão e no empenho dos profissionais de saúde. Levanta questões relacionadas com a travagem da economia. Coloca em destaque ainda embates geopolíticos que podem reescrever a globalização. A esse cenário juntam-se pensadores da diplomacia, política e de outras ciências humanas. É certo que a divulgação das notícias diárias sobre a Covid-19 evidencia a importância do jornalismo profissional, que vem batendo recordes de audiência mundo afora. Esse é o grande debate público apresentado pela pandemia.

Mas qual o papel de um consultor de comunicação durante uma crise tão grave quanto a que vivemos? O que se passa no interior das organizações? O que torna ainda mais relevante o papel de profissional de comunicação agora?

Antes de propor caminhos e formas de usar as redes sociais a fim de divulgar o que quer que seja, antes de responder a demandas específicas ou escrever um press release, precisa de fazer perguntas para encontrar soluções e antecipar problemas. Essa etapa é fulcral para fortalecer a história que se quer contar e ainda mais relevante quando se procura maximizar o impacto social das iniciativas lançadas para mitigar os danos da pandemia.

Cabe ao profissional de comunicação garantir a coerência e a eficácia da mensagem que se quer transmitir, o que passa necessariamente pelo questionamento das decisões tomadas e das negligenciadas. Ele (ou ela) também será o (a) repórter particular da empresa.

Como um cão farejador, esse ou essa profissional permitirão que a organização pense naquilo que lhe poderia escapar, identificando as lacunas de uma narrativa feita também de acções, e não só de palavras. Mais do que dados e algoritmos recolhidos no mundo exterior, a investigação interna realizada pelo profissional da comunicação oferecerá caminhos a serem desbravados.

Nunca foi tão importante fazer a pergunta certa e a observação criativa no momento adequado, sendo ferramentas de luta importantes no campo de batalha de onde uns sairão mais inteiros do que outros.

Muitas vezes, a leitura de um livro, de um artigo de opinião bem fundamentado e até de uma crónica de humor inteligente leva-nos a considerar temas sob uma nova perspectiva. O humor, resultado do distanciamento que algumas mentes privilegiadas têm dos factos e de si mesmas, talvez seja a melhor tradução dessa visão de fora capaz de arejar as ideias e revisitar as certezas. Cabe aos profissionais de comunicação oferecerem tais provocações, sobretudo num momento de tantas incertezas.

O problema é que nem sempre são ouvidos com a atenção devida. Escapam assim dicas preciosas, orientações que poderiam fazer toda a diferença para os resultados da empresa. Não raro, em Portugal, referem-se a esse profissional como a “pessoa da comunicação”, deixando implícita a ideia de que qualquer pessoa poderia ocupar aquele cargo, o que não é verdade.

São postos estratégicos onde trabalham jornalistas com experiência na arte de reunir informações para contá-las. Nessas cadeiras, sentam-se publicitários que sabem quantas horas de trabalho são necessárias para chegar “àquela curta frase genial”. Atrás dessas secretárias, encontraremos consultores de relações públicas que conhecem como ninguém as subtilezas e os segredos da comunicação institucional. Esses profissionais não são formados da noite para o dia nem forjados às carreiras pela gestão diária de redes sociais. Vão muito além.

Os profissionais da comunicação precisam mergulhar fundo nas organizações para revelarem o quanto são estratégicos para a (re)construção e o (re)posicionamento nisto que passamos a chamar de o novo normal. Esse olhar crítico surge quando há uma visão privilegiada do negócio por dentro e uma percepção, a quilémetros de distância, da repercussão que certas decisões terão lá fora. Isso é estar conectado ao corpo e à alma da empresa.

Um bom projecto de comunicação passa pelo diagnóstico pormenorizado dos pontos da história corporativa e dos objectivos de negócio que permitam alcançar os resultados esperados. Sem esse cuidado, os riscos de dano à reputação são imensos.

Por isso são necessários acertos com impacto real no dia-a-dia. As grandes empresas têm executivos(as) de comunicação no board, que opinam na estratégia do negócio. Estão lá para contribuir, e não para ouvir e registar. São, enfim, vozes importantes no pós-guerra que se aproxima.

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