No Bonança, há calmaria no espaço e felicidade à mesa

Good LivingDa mesa para a boca
Maria João Vieira Pinto
02/01/2026
13:58
Good LivingDa mesa para a boca
Maria João Vieira Pinto
02/01/2026
13:58
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Há anos que um dos meus “luxos” de conforto é ir até à beira-rio, para os lados de Belém, comer uns petiscos e deixar-me perder no Tejo. Por ali há não um, mas quatro espaços de restauração. Tenho o meu, a que volto sempre, mas vou variando, até em função de mesa livre. Se bem que há um que nunca me conquistou. Nunca, até há pouco. Ainda na lateral, aquela que sempre foi a Associação Naval de Lisboa já passou por várias mãos, abriu, fechou, abandonou-se e reabriu há cerca de um ano, quando passou a ser Bonança.

Por M.ª João Vieira Pinto



Na esperança de que fosse desta, assim que os primeiros clientes começaram a comentar, também quis tentar a sorte. Só que no momento em que li a ementa afixada no exterior, perdi qualquer réstea de vontade. Não só a carta e os pratos não faziam sentido, como os preços eram “para turista”.

Agora convidaram-me a experimentar a nova carta. Se é nova, passei a ter novamente algum querer. E sim, a oferta ajustou-se e passou a fazer mais sentido, ganhando assinatura de novo chef e propostas de conforto com receitas que são nossas.

Aos comandos da cozinha está Pedro Amendola. Não, não é português, mas por cá já anda há algum tempo – entre uma passagem pela Casa Reia, na Costa da Caparica, e uma outra pelo Arkhe, em Lisboa -, além de que é amante e interessado pela gastronomia do nosso País. Diz que, acima de tudo, quer tratar bem o produto (que anda a conhecer, cada vez mais) e entregar sabor. E, garanto-lhe, é muito sabor que leva à mesa entre p ratos de partilha, peixe, marisco ou carne, sendo que o arroz se mantém como um dos eixos mais fortes do Bonança.

Pedro confessa que uma das suas maiores dificuldades tem sido chegar ao melhor ponto de sal, ou não fosse amante de forte tempero que é o que muito se usa nas terras do Brasil onde cresceu e onde aprendeu a cozinhar. Mas, em tudo aquilo que nos passou pela mesa, não houve dedo a apontar.

Para começar, jamais diga que não ao couvert. Vem pão de massa mãe, uma tentação em jeito de manteiga de cabra da queijaria Ortodoxo, um patê de peixe com cebolinho que não se deixa nada para trás e um presunto pata negra 100% ibérico com maturação de três dias feita pelo chef. O que lhe posso dizer? Que começámos logo a ser felizes.

Já em jeito de entrada, chegaram as belas ostras de Setúbal – gordas, como se quer -, e um crudo de lírio dos Açores que estava no ponto, tanto em corte como em sabor.

Ah, tudo isto, sempre acompanhado de um serviço de excelência onde o jovem Diogo nos faz sentir em conforto e como que em casa, numa atenção sem esforço, que já quase se estranha. Numa altura em que a restauração sofre de um mal chamado “equipas”, e em que cada vez mais sentimos que uma boa experiência não se faz só da comida que chega à mesa, mas também de quem nos recebe, aqui, acredite, o serviço é imaculado.

Mas, seguindo até ao principal, e já que os arrozes são proposta em que não se mexe, achámos por bem experimentar o malandro de carabineiro e limão, feito com fumet do dito e bem envolvido em caldo de cabeças de camarão. Uma dose deu para dois, que é generosa. Se bem que de tão guloso que estava não sobrou grão para contar qualquer história.

Estávamos satisfeitos. Muito satisfeitos e com aquela sensação, lá está, de conforto. O chef bem nos disse que as sobremesas ainda não foram ajustadas ao seu gosto, mas a gula acabou por falar mais alto e fez-se servir em prato de chocolate negro, com gelado de avelã e cacau. Tinha razão, o chef, no que diz respeito aos açúcares, ainda há trabalho a fazer…

Pedro Amendola quer continuar por aqui, num caminho de respeito e ao ritmo das estações, pelo que está já a preparar receitas de caça, para a época. O que, terrivelmente, nos vai ter que fazer voltar!

O Bonança é um projecto que reúne uma mão cheia de sócios, entre Salvador Sobral, Diogo Sousa Coutinho, Filipe Farinha Santos e o Family Office da Família Germano de Sousa. Instalado na Associação Naval de Lisboa, fundada em 1856 e reconhecida como o clube náutico mais antigo de Portugal e da Península Ibérica, distribui-se por diferentes ambientes, incluindo salas interiores e uma esplanada com vista sobre o rio. A par da vertente gastronómica, tem também uma dimensão artística e nocturna própria, com programação regular de música e DJ sets.
Agora sim, vale a pena passar por ali!

Sobre o chef Pedro Amendola

Pedro Amendola, nascido no Brasil e formado em Tecnologia da Gastronomia pela Universidade Católica de Santos, fez o seu percurso em cozinhas de referência em São Paulo: foi sous-chef do Evvai (duas Estrelas Michelin) entre 2017 e 2020 e depois integrou o Corrutela (Estrela Verde Michelin), onde evoluiu até chef executivo (2022–2024), participando na criação e execução de menus e na gestão operacional. Em 2024 assumiu a chefia executiva do Reia Collective/Casa Reia, liderando novos projectos e práticas de sustentabilidade, passou também pelo Arkhe (uma Estrela Michelin) como chef tournant, e está hoje à frente do Bonança, onde cruza essa base de alta gastronomia com uma cozinha contemporânea de inspiração portuguesa.

Bonança

Associação Naval de Lisboa – Doca de Belém, Lisboa

Aberto de segunda-feira a quinta-feira das 12h00 às 00h00 e de sexta-feira a sábado das 12h00 às 02h00.
Ao domingo, está aberto das 12h00 às 16h00.




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