É um dos principais pontos de atracção turística da cidade do Porto e de todo o País: em média, cerca de 3500 pessoas visitam a Livraria Lello todos os dias, num total de mais de 1,2 milhões de visitantes anuais. Só no ano passado, a centenária livraria vendeu à volta de um milhão de livros, sendo que, em cada dez pessoas que entram neste espaço, sete saem com pelo menos um livro na mão.
Este ano, a Lello celebra o seu 119.º aniversário, num percurso contado em inúmeras páginas douradas de história, mas com muito ainda por escrever. Ou não entrasse agora num capítulo marcado pela expansão do negócio, assente em dois projectos na Baixa do Porto que deverão ficar concluídos ainda este ano.
O primeiro, com assinatura do arquitecto Álvaro Siza Vieira, será um espaço cultural localizado no edifício contíguo à Livraria Lello, na Rua das Carmelitas. As obras de requalificação já estão em curso, tendo em vista a cons-trução de um espaço que contará com um auditório para programação cul-tural, bilheteiras e um elevador que irá ligar os dois edifícios, permitindo assim a pessoas com mobilidade reduzida subirem ao primeiro andar da livraria. Já o segundo projecto, a cargo do arquitecto Nuno Valentim, envolve a construção de um novo escritório com mais de mil metros quadrados, que ficará situado na Rua das Galerias de Paris.
Estes projectos materializam a visão para o futuro do casal Avelino e Aurora Pedro Pinto, que em 2015 havia adquirido 51% do capital da Livraria Lello, mas em 2023 comprou a restante quota que estava ainda na posse da família Lello. Desde então, os objectivos da família Pedro Pinto têm passado por reabilitar e modernizar o espaço e aumentar a sua oferta livreira, mas também como pon-to turístico e cultural – como prova a abertura, em 2022, da Sala Gemma, onde hoje estão as suas “jóias” mais preciosas. «Somos mais do que uma livraria. Somos um espaço de cultura viva, onde os livros têm sempre o protagonismo», afirma em entrevista à Marketeer Aurora Pedro Pinto, administradora da Livraria Lello.
A Livraria Lello celebra 119 anos. Qual a história deste ex-líbris do Porto e os momentos mais marcantes?
A Livraria Lello nasceu do sonho de José Lello, um apaixonado pelas artes e pela literatura. Natural de Santa Marta de Pe-naguião, decidiu instalar-se no Porto e abrir uma livraria. Aquele que viria a ser o espaço emblemático que hoje conhece-mos abriu portas a 13 de Janeiro de 1906.
Antes disso, houve um momento-chave: a aquisição do espólio de Ernesto Chardron, um editor visionário que publicou autores como Eça de Queiroz e Camilo Castelo Branco. Curiosamente, foi com um prémio ganho na lotaria que Chardron concretizou o sonho da sua editora. Após a sua morte prematura, os irmãos Lello compraram esse catálogo e decidiram criar um verdadeiro templo dedicado ao livro e ao conhecimento na Rua das Carmelitas. Projectada por Francisco Xavier Esteves, a livraria distingue-se pela fusão entre o neogótico e a art nouveau.
Elementos como a escadaria central – originalmente castanha, mas desde 1993 pintada de carmim por engano – e o vitral com a inscrição Decus in Labore (“Dignidade no Trabalho”) tornam-na uma verdadeira obra de arte. Desde cedo, conquistou relevância nacional e internacional, tornando-se exportadora de livros para o Brasil e África e traduzindo grandes autores. Mas entrou em declínio na segunda metade do século XX, com um edifício degradado e um acervo desactualizado.
Em 2015, a família Pedro Pinto assumiu a maioria do capital e hoje detém a sua totalidade. Quais têm sido as prioridades em termos de gestão?
Desde o momento em que entrámos na estrutura, identificámos dois desafios urgentes: um edifício incapaz de receber os milhares de visitantes que o Porto atraía e uma oferta livreira que não reflectia a história da casa. Decidimos manter a vocação de livraria, criando um ticket-voucher que nos permitiu investir em obras de restauro e devolver dignidade ao espaço e ao catálogo. Desde então, recuperámos a missão editorial da casa, com uma colecção de clássicos pensada como objectos de desejo e leitura. Assumimos um objectivo claro: pôr o mundo inteiro a ler. A estratégia assenta em três pilares: uma programação cultural intensa e gratuita, com lançamentos, conferências, concertos falados e momentos de carreira; parcerias estratégicas com instituições internacionais, tais como a Fundação Saint-Exupéry, com a sala O Principezinho, a “Time Magazine”, com uma exposição sobre o Nobel da Literatura e a Fundação José Saramago, com um espaço dedicado ao nosso Nobel; e a criação da Sala Gemma, onde acolhemos verdadeiras jóias da literatura. Somos mais do que uma livraria. So-mos um espaço de cultura viva, onde os livros têm sempre o protagonismo.
Quais os vestígios mais antigos que ainda resistem no edifício da livraria?
As obras de 2016/2017 devolveram à Livraria Lello o seu esplendor original. Elementos como a fachada foram de-capados até 12 vezes para recuperar as cores. Os pilares da escadaria voltaram a exibir as iniciais de Xavier Esteves e, na cave, com a abertura da Sala Gemma, surgiram marcas deixadas pelas estantes de livros com mais de 100 anos. Peque-nos detalhes, como bilhetes de lotaria colados sob as estantes ou um “smile” deixado pelos restauradores no vitral, são hoje exibidos como parte viva desta história. E depois há as histórias que os visitantes trazem: pedidos de casamento, tentativas de comprar a escadaria para levá-la para os EUA… a realidade e a ficção cruzam-se em cada canto.
E que medidas permitiram modernizar negócio nos últimos anos?
Nas mesmas obras instalámos sistemas de ventilação que protegem visitantes e livros; abrimos novas áreas; e os escritórios e armazém passaram a estar fora do edifício. A modernização passou ainda por informatizar todo o sistema, desde a criação de um sistema de bilhética ao e-Commerce e canais digitais, como as redes sociais. Isto sem nunca abdicar da alma da Livraria Lello. Em 2015, tínha-mos oito colaboradores, hoje somos cer-ca de 50. Em 2015, venderam-se cerca de 70 mil livros, hoje quase um milhão por ano. Recebemos entre 3 mil e 4 mil livros novos por dia. Tornámo-nos o maior ex-portador de literatura portuguesa.
Como descreveria hoje a experiência de quem visita a Livraria Lello?
A visita começa com o espanto: uma livraria que parece um templo. Mas rapidamente se percebe que é um espaço vivo, com alma e paixão pelo livro. Cada detalhe foi pensado para celebrar a literatura. Os livreiros são verdadeiros contadores de histórias. Há espaços que contam histórias: a Sala O Principezinho, a Sala Saramago, a exposição do Nobel da Literatura, e a Sala Gemma, com raridades como a primeira edição da obra “O Principezinho”, uma primeira edição de “Moby Dick”, que pertenceu a Jim Morrison, ou a biblioteca pessoal de Amy Winehouse.
Qual a estratégia curatorial desenhada para a Sala Gemma?
Esta sala é o coração da colecção de obras raras da Livraria Lello. Aqui, va-lorizamos o livro enquanto objecto de arte, investimento e memória. Reunimos primeiras edições, incunábulos, livros-objecto e manuscritos. A curadoria é activa: observamos o mercado e adquirimos peças relevantes para preservar e valorizar o livro em todas as suas formas. Entre os mais especiais, destacamos um incunábulo, uma obra do século XV que já recorria à técnica revolucionária da prensa, mas ainda mantinha iluminuras feitas à mão, ou uma obra veneziana que marca uma fase de transição entre a tradição otomana e as inovações introduzidas pela imprensa. Outro tesouro que passou pelas nossas mãos foram as cartas de amor de Bob Dylan – 42 cartas escritas pelo jovem Robert Zimmerman à sua namorada da adolescência. Acreditamos que um livro não se mede apenas pelo seu valor de mercado, mas pela sua capacidade de preservar memórias e contar histórias.
Este ano, a Livraria Lello entra numa nova fase de expansão que envolve, primeiro, a construção de um novo escritório na Baixa do Porto. O que motivou esta decisão?
O crescimento tem sido exponencial – em notoriedade, impacto cultural e estrutura interna. E esse crescimento é resultado do trabalho de uma equipa que partilha o ADN inquieto, criativo e visionário da casa. Acreditamos profundamente que o sucesso de qualquer empresa se deve, acima de tudo, às pessoas que a constroem todos os dias. Queremos que quem trabalha connosco o faça com alegria, conforto e orgulho. Criar condições de bem-estar económico, pessoal e social não é apenas uma prioridade, mas uma responsabilidade. O novo escritório na Baixa do Porto surge como uma extensão natural do crescimento. Será um espaço com melhores condições, desenhado para promover a excelência no trabalho e reforçar a cultura interna de inovação, dedicação e sonho que define a Livraria Lello.
Quais os números em 2024?
O fundamental é seguir os objectivos que ajudem ao cumprimento da nossa missão, que ousadamente definimos ser “pôr o mundo inteiro a ler”. Por isso, quando falamos de números, o que gos-tamos de evidenciar é que em 2024 ven-demos cerca de um milhão de livros, que em cada dez pessoas que entram, sete saem com um livro. Isso é o que nos dá vontade de continuar a viagem, de sentir que deixamos lastro. De resto, recebemos mais de um milhão de pessoas vindas do mundo inteiro com um top de nacionalidades em que Portugal está sempre nas primeiras três posições. Depois temos EUA, Espanha, França, Itália, Alemanha e Brasil. Actualmente, registamos um aumento dos visitantes da Coreia do Sul e do Canadá.
Que objectivos perseguem em 2025?
É uma nova fase neste percurso, marcada pela expansão, pela curadoria cuidada e pelo compromisso com a cultura e com as pessoas. Os objectivos reflectem esse equilíbrio entre crescimento e identidade. No plano estrutural, será um ano de concretizações: vamos inaugurar o edifício com assinatura de Siza Vieira e abrir o escritório na Baixa do Porto, pensado para acolher a equipa com as condições de excelência que merece, que é a alma da nossa casa. Na vertente editorial, aprofundaremos a aposta na edição própria, com novos títulos e abordagens. Destaca-se o lançamento da nova chancela Livraria Lello Curates, com o propósito de oferecer um verdadeiro objecto de memória – um livro com alma, que leve consigo a experiência de contacto com a cultura viva portuguesa. O primeiro volume, dedicado ao Porto, revela a cidade através de uma curadoria de fotografia, ilustração e texto. Não é um roteiro, é um retrato sensível de um lugar que se sente antes de se ver. Continuaremos também a traduzir grandes obras para novas línguas, como já fizemos com “Os Lusíadas” em árabe, ou “O Principezinho” em ucraniano, porque acreditamos que o livro deve ultrapassar fronteiras. É esse o espírito da nossa missão: pôr o mundo inteiro a ler.
A programação cultural será ainda mais abrangente e transversal, abrindo-se a novos públicos e temas. Queremos continuar a ser ponto de encontro entre ideias, gerações e mundos. Por fim, mantemos o foco no essencial: as pessoas. Vamos continuar a cuidar dos nossos recursos humanos, promovendo bem-estar, desenvolvimento e alegria no trabalho – esse espírito jovem, sonhador e inconformado que está no coração da Livraria Lello. Num momento de crescimento rápido, o mais importante é manter firmes os nossos pilares. Só assim continuaremos a ser uma porta de Portugal para o mundo.
Como se mantém relevante uma marca centenária na cultura?
A chave está em honrar o passado com os olhos postos no futuro. Acompanhar os interesses contemporâneos, sem perder a memória. Sabendo que, como escreveu Muriel Rukeyser, “o universo é feito de histórias, não de átomos”. Na Livraria Lello, o livro está no centro. Tudo o que fazemos, desde as iniciativas pequenas às acções mais emblemáticas, serve essa estratégia. Foi assim que, em tempos de pandemia, criámos um drive-thru livreiro e lançámos concurso para jovens escritores, Os Contos da Quarentena. Foi também por isso que começámos a chamar a atenção para o impacto da literatura na saúde mental. No fim, é isto que nos distingue. Mais do que uma livraria, somos um espaço de cultura viva, onde os livros são celebrados e onde continuamos a trabalhar para que a literatura seja sempre um pilar essencial da nossa sociedade.














