«Extinção é uma corrida contra o tempo e os zoos contribuem para amortizar os números»

Depois de cerca de dois meses de portas fechadas, o Zoo Santo Inácio reabriu a 7 de Maio e não demorou a ver os seus espaços de novo preenchidos com famílias. A escolha deste parque de Avintes, em Vila Nova de Gaia, para os primeiros dias de desconfinamento não será um acaso, mas sim fruto de um trabalho de comunicação e relação com o público que tem sido reforçado ao longo de duas décadas de história.

Teresa Guedes, directora do Zoo Santo Inácio, explica à Marketeer que tudo começou com um zoo de pequena dimensão, com animais mais pequenos. Só depois veio o jardim diversificado que hoje existe e a aposta clara na conservação das espécies. Com 45 hectares ainda disponíveis, a responsável adianta que os planos para o futuro passam por juntar orangotangos ou elefantes à lista de animais presentes no parque.

Mas, numa altura em que não faltam vozes críticas em relação aos jardins zoológicos e à forma como os animais são tratados em cativeiro, faz sentido pensar em aumentar o número de espécies? Teresa Guedes lembra que o problema da extinção de algumas espécies é real e que tem sido acelerado não só por mudanças ambientais naturais como também pela acção humana. «O equilíbrio dos sistemas essenciais para a vida é interrompido e, embora a natureza tenha uma resiliência notável, não tem tempo suficiente para recuperar de todas estas alterações», explica a directora, sublinhando que as populações selvagens da maioria dos principais habitais terrestres caiu, pelo menos, 20%: pelo menos 680 espécie de vertebrados foram levadas à extinção desde o século XVI e mais de 40% das espécies de insectos está em declínio.

«Isto demonstra que cada dia é um passo dado na direcção do abismo para centenas de espécies em risco e salvar estas espécies de uma extinção quase certa é uma corrida contra o tempo. Os parques zoológicos contribuem incrivelmente para amortizar estes números tão preocupantes», garante Teresa Guedes. Segundo a responsável do Zoo Santo Inácio, os parques zoológicos são agentes activos e essenciais para a conservação de espécies ameaçadas, contrariando a ideia de que estes espaços são meros locais de exposição de animais.

Desde 1998, lembra, que as leis zoológicas sofreram alterações a nível europeu de modo a que os zoos fossem transformados em habitats de conservação. «A missão dos zoos já não se estagna na parte lúdica, foi ultrapassada para uma parte de preservação das espécies», afirma Teresa Guedes.

Como? Através da reprodução, por exemplo, garantindo uma linhagem genética pura. Outro pilar importante, indica a responsável é a disponibilização de informação sobre cada espécie, nomeadamente, características, comportamento e alimentação. No caso do Zoo Santo Inácio, junta-se o facto de fazer parte da Associação Europeia de Zoos e Aquários (EAZA), que promove a partilha de dados, necessidades e trocas de animais, projectos de conservação e experiências.

«Apesar de as consciências estarem a mudar, estando os jovens mais orientados sobre a extinção das espécies, existem, ainda, muitas dúvidas em relação aos animais que habitam os zoos. Sugere-se que são animais capturados nos habitats de origem, ou que são animais capturados e que estão sedados durante todo o tempo de vida num zoo. Várias opiniões nada próximas da realidade», indica Teresa Guedes.

Para garantir que esta mensagem passa, a comunicação é um vector crucial. O Zoo Santo Inácio tem apostado no apelo ao reconhecimento de que algo está mal e de que é necessário agir, assumindo o papel de entidade sensibilizadora.

«Os parques zoológicos permitem, às populações que os visitam, dar a conhecer inúmeras espécies, que por razões de distância geográfica existem apenas no imaginário ou muitas vezes são até desconhecidas pela sua raridade. A complexidade de envolver as pessoas na preservação prende-se com um lema difícil de que apenas defendemos aquilo que nos é próximo e conhecemos. Poder transmitir às pessoas quem são os animais e as dificuldades que a vida selvagem sente torna-se essencial para que elas também possam desempenhar um papel importantíssimo de embaixadores da natureza, ajudando a preservá-la», explica ainda a directora deste zoo a Norte.

Marcas vão ao zoo

Aveleda, Coca-cola, Nicola e Olá são, actualmente, as principais marcas presentes no Zoo Santo Inácio, prova de que este espaço também pode ser um canal de comunicação para outras organizações.

Somam-se ainda algumas insígnias ou empresas que abraçam projectos de apadrinhamento de animais, contribuindo para a continuidade do trabalho desenvolvido pelo zoo. No início deste ano, foi lançado um novo programa de apadrinhamento, assente em pacotes com valores e condições previamente estipulados. O objectivo, explica Teresa Guedes, é facilitar o processo a quem procura o Zoo Santo Inácio para esse fim.

«Quando uma espécie é apadrinhada, o objectivo é reverter toda a verba angariada para a melhoria das condições de vida dos respectivos animais, desde alimentos, melhorias nos habitats ou angariação de mais elementos», sempre tendo em vista a preservação da espécie em questão. Em troca, o zoo oferece condições publicitárias no habitat.

Zoo em tempo de pandemia

«A pandemia de COVID-19 teve um impacto muito grande», avança a directora do Zoo Santo Inácio, frisando que as consequência prolongar-se-ão no tempo. «Durante dois meses, o sufoco foi enorme: zero receitas, custos fixos grandes (alimentação de animais, salários, gastos gerais como electricidade, vigilância, água, etc.) e sem saber durante quanto tempo. Metade da nossa equipa teve de entrar em regime de lay-off», admite a responsável.

Por outro lado, o zoo viu a preocupação da comunidade aumentar, com vários visitantes a perguntar como poderiam ajudar. Foi lançada, por isso, uma campanha de donativos e relançado o programa de apadrinhamento de animais. Juntaram-se ainda apoios de empresas, que também não quiseram ficar de fora da onda de solidariedade.

«Economicamente, o zoo está a recuperar, claro que bastante abaixo de anos anteriores, mas, dadas as circunstâncias, o impacto está a ser extremamente positivo. Contamos com uma quebra de aproximadamente 50% no volume de receitas, sendo que, claro está, tudo é, ainda, muito imprevisível», adianta Teresa Guedes.

Texto de Filipa Almeida

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