Dos heróis

Certo dia, estava eu em reunião com um idiota, dei por mim a pensar em heróis. Nos meus e nos dele. Teria o idiota algum herói? Quereria ele ser igual a alguém quando fosse grande? Haveria, algures, alguém que lhe servisse de inspiração?

Preferi acreditar que não. Primeiro, porque para isso teria de haver, provavelmente, um idiota ainda maior. E depois, porque assim podia passar aos meus heróis e deixar de lhe prestar atenção.

Toda a vida tive heróis. Não só na vida em geral (continuo a querer ser, quando for grande, o Obi-Wan, versão Alec Guinness), como na publicidade em particular. Algumas pessoas que conheço de nome, outras que conheci pessoalmente e, outras ainda, com quem trabalhei.

Como o David e o Alex, mas também o Pedro, o Leandro, o Rui (sim, até o Rui).

E, claro está, o João.

Mas já voltamos ao João.

Dizia eu, heróis.

Pessoas mais ou menos iguais a mim (ainda que, por regra, mais magras), a maioria das quais foram entrando e saindo da minha vida pelas mais variadas razões, mas cujo trabalho e critério me serve, ainda hoje, de referência.

Um exercício de humildade e de exigência que, estou em crer, só me faz bem. Como, de resto, também faria bem ao idiota, se o idiota não fosse idiota.

Mas ele lá continuava com as suas idiotices e eu, assim sendo, cá continuei com os meus heróis.

Tenho para mim que todos os bons publicitários (notem que não escrevi criativos) têm os seus heróis.

Da mesma forma que todos os bons clientes têm os seus heróis.

E que todos os bons idiotas não têm nada.

Experimentem perguntar a alguém quem têm como herói. (O Dalai Lama não conta. E o Batman, perdoem-me Marcelo e Alexandre, também não.) Se a resposta for “Não tenho ninguém”, “Não estou a ver” ou, pior ainda, “Nunca pensei nisso”, então já sabem – o melhor é não reunirem.

É certo que, de vez em quando, até eu dou por mim a achar que já estou muito crescido e que não preciso de heróis para nada. Que é, normalmente, quando passo a ser eu o idiota das reuniões.

Mas não se preocupem. Não costuma demorar muito até (voltar) a perder um pitch, um cliente, ou a razão, altura em que, por norma, (re)encontro a humildade e volto a concluir que os heróis, afinal de contas, me fazem falta.

Como o João.

O João Viegas foi, além de meu primo e amigo, o meu primeiro herói publicitário. Escreveu, desenhou, trabalhou com o Ary dos Santos numa agência da Praça de Londres, foi criativo em Nova Iorque, foi criativo em São Paulo e ainda teve uma agência em Campo de Ourique (a Ponto&Traço). Fez rádio (“As Noites Longas” do FM estéreo e “O Galo de Barcelos ao Poder”), apresentou um programa de televisão (o “Jornalinho”), apresentou-me o Mário-Henrique Leiria (não pessoalmente) e, de certa forma, o gin tónico (esse, mais concretamente).

O João que, como seria de esperar, me fez querer ganhar a vida a fazer anúncios. Isso e, durante uns anos, a ter um telex, sendo que a parte do telex me passou com o tempo.

Enfim, mais ou menos.

O João que, de certa forma, também me trouxe até aqui, a esta página.

E agora a este ponto, específico, nesta página, em que me falham as palavras e me (o)correm as lágrimas.

Um abraço, João.

E até um dia destes.

 

Para o João Viegas,

1945-2020

 

Tiago Viegas
Partner da The Hotel
tiago.viegas@thehotel.pt

Artigo publicado na edição n.º 289 de Agosto de 2020

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